O livro O trem em meio à névoa, de Magnus Ferreira de Melo, constrói uma poética da interioridade, articulando a memória, o tempo e a morte como eixos centrais de uma narrativa fragmentada. Magnus Ferreira de Melo cria um texto que se estrutura a partir da metáfora do trem — que, ao meu ver, simboliza o deslocamento, e, sobretudo, uma travessia espiritual. O protagonista, Thomas Ferreira de Melo, pode ser visto, simultaneamente, como personagem e/ou projeção autoral: um escritor que retorna à sua cidade natal em busca de um passado que já não lhe pertence.

Thomas deixou o vagão zonzo, enjoado, com um nó na garganta que parecia prender a sua respiração – quase a vomitar. […] Olhando para as colinas, lá-ao-longe, via os trilhos circulares infinitos.” (p. 7)
A primeira narrativa, homônima ao livro, assume a forma de uma alegoria sobre o fim da criação artística e o colapso do sujeito moderno diante de sua própria memória. Pedra Mansa, cidade fictícia onde se desenrola a história, é um espaço alegórico de estagnação. Na imagem do trem que atravessa a névoa, o que podemos encontrar é o eixo liminar no qual o escritor revisita suas lembranças, apenas para descobrir que sua identidade se dissolveu junto àquilo que julgava imutável. Justamente na cena final, em que Thomas escolhe “as palavras” entre duas alternativas simbólicas, vemos a reafirmação do gesto da arte como robustez diante da dissolução.
“No meio do escuro da chuva, via, pronto, a borboletinha-amarela a dançar […] Como um clarão em sua cabeça […] declarou firme o seu veredicto: ‘Eu escolho as palavras.’” (p. 19)
Os contos seguintes, “Albatroz Doirado”, “Quimera” e “Desmilinguido”, propõe um jogo narrativo que funcionam como extensões temáticas deste mesmo universo. Em “Albatroz Doirado”, a travessia marítima do narrador-criança espelha a busca existencial de Thomas: a tentativa de compreender o horizonte inalcançável da própria existência. Por sua vez, em Quimera presenciamos o deslocamento da reflexão para o campo metapoético, estabelecendo a figura do poeta como criatura abissal, confinada em uma espécie de escuridão da criação e condenada a refletir infinitamente. Por fim, “Desmilinguido” introduz um tom dialogista que a banalidade do cotidiano urbano para tensionar a noção de destino/acaso:
“No fundo do barquinho, separei o pouco do meu dinheiro e uma antiga fotografia de minha mãezinha […] perto do meu coração pulsando de medo – mas com uma coragem indomável.” (p. 21) – Albatroz Doirado
“A mente do poeta é o espelho do mundo que reflete o que muitos, por vezes, não veem ou se negam – mas vive lá refletindo, refletindo, e refletindo…” (p. 28) – Quimera
“Gouveia Moreira da Silveira tomava a rua das Flores despreocupadamente com a sua maleta de couro a aproveitar a folguinha para sair mais cedo do escritório antes do pé d’água.” (p. 30) – Desmiliguido
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A linguagem de Magnus Ferreira de Melo é densa, marcada por longos períodos, e há certa musicalidade interna. Há ecos evidentes do simbolismo e do modernismo tardio, mas também uma aproximação com o fantástico latino-americano, especialmente nas zonas limítrofes em que o real e o onírico se confundem. O autor opera uma escrita de atmosfera que está mais interessada na sugestão do que na explicação em que ele constrói, com notável domínio estilístico, uma experiência sensorial e, muitas vezes, sinestésica de leitura.
“A borboleta, outra vez, apareceu com suas asinhas amarelas a voar pelas madressilvas vermelhas e azuis a desabrochar.” (p. 11)
Ao fim, O trem em meio à névoa se apresenta como uma obra de grande maturidade estética. O trem, o mar, o abismo e a chuva formam um imaginário simbólico de dissolução e retorno, que usa a literatura como o último refúgio possível diante da transitoriedade da vida. Trata-se, portanto, de um livro que interroga a própria função da escrita: escrever, aqui, é morrer e permanecer ao mesmo tempo. Percebi que Magnus Ferreira de Melo construiu uma arquitetura simbólica em torno da travessia física/espiritual de seus personagens. A prosa detalhada, com cadência literária de forte teor simbólico,articula memória e morte como dimensões inseparáveis da criação artística, algo realmente indissociável do criar artístico.
Magnus, ainda, faz com que o leitor percorra o mesmo trem metafísico que o protagonista, movendo-se entre a lembrança e o esquecimento, o real e o onírico. A linguagem introspectiva reafirma o gesto de Thomas: “Eu escolho as palavras.” Assim, a obra nos mostra uma reflexão sobre a literatura como última forma de permanência diante da dissolução da existência.
Sobre o autor:

Magnus Ferreira de Melo é natural de Joinville, e atualmente é graduando em Letras — Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Santa Catarina. O trem em meio à névoa (Mondru, 2025) é o seu primeiro livro de uma tetralogia de obras intitulada “hominis, hominem”, na qual pretende abordar a relação do homem com o espaço, o tempo e a memória, inspirado em “O Jardim das Delícias Terrenas”, de Bosch. Sua escrita busca criar uma linguagem própria, teatral. Tem como principais inspirações nomes como Miguel de Unamuno, Thomas Mann, Erico Verissimo e Heinrich von Kleist.

