Há romances que contam uma história. Há romances que organizam um mundo. “Nada de Novo”, de Sadraque Regis, publicado pela M.inimalismos (2026), faz algo ainda mais raro: reconstrói o sertão como um cosmos onde tudo o que é vivo fala, e fala com densidade.

A primeira impressão de um romance histórico sobre o cangaço, com Lampião, Maria Bonita e o repertório familiar, é rapidamente subvertida por uma polifonia que se estende do carcará à bactéria, da relva à minhoca, do cavalo às cachorras, do bode ao pó que tudo recolhe, conferindo à natureza um papel ativo que desafia a visão centrada no homem.
Contudo, essa multiplicidade, longe de se dispersar em fragmentos, encontra sua coesão e seu espírito na figura de Maria Amazona.
Há personagens que gravitam no centro de uma obra; e há aqueles que, por sua própria força, deslocam o centro da obra para dentro de si. Maria Amazona pertence a essa linhagem rara, exigente e quase perigosa, que não apenas habita o romance, mas o revisa.
Ela é, sem sombra de dúvida, uma das personagens mais fascinantes da literatura brasileira atual: sofisticada, irônica, bem-humorada, terna, erudita, mas com um pé fincado no sertão primordial, moralmente ambígua e, acima de tudo, estimulante em sua capacidade de confrontar tradições e convenções.
A obra, em um diálogo com a tradição de Sterne, divide-se em “Vida” e “Opiniões”, mas o faz com uma interpretação criativa, pois as opiniões frequentemente não emanam dos protagonistas imediatos, mas de Maria, que organiza, recria, ironiza e rememora. A polifonia é filtrada por sua consciência, que observa o sertão não como um mero palco, mas como um laboratório moral e existencial.
A hipótese ficcional de um grupo de negros pobres que sobrevive à sombra do bando de Lampião, aproveitando-se de sua fama para despistar as volantes, é outro ponto nevrálgico da obra, numa hábil reinterpretação do sertão dos anos 20 e 30, recontado não como épica simplificada, mas como um tecido contraditório onde ex-escravos, soldados, cangaceiros e animais partilham a mesma precariedade histórica.
O humor, presente nos diálogos das volantes que discutem teologia e destino com uma mistura de ignorância e perspicácia, opera como uma forma de questionar a solenidade épica, revelando a banalidade da violência sem diminuí-la. A materialidade do romance, que faz a água quase ferver no cantil, o ouro tremeluzir à luz baça da fogueira e o cheiro de carniça preceder os urubus, é uma recusa do abstrato, um retorno à terra que fundamenta toda a experiência.
O apuro com a linguagem, a capacidade de não tratar a palavra apenas como veículo de informação, mas como textura, a oscilação entre frases amplas e cortes secos, o rigor cromático e sensorial na descrição do sertão, tudo isso contribui para uma construção que é ao mesmo tempo precisa e visceral.
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O hibridismo entre erudição e oralidade é outro dos traços mais marcantes, onde a Bíblia, a mitologia grega, a filosofia política e a ciência moderna surgem não como enfeites autorais, mas como um repertório apropriado pelos personagens. Maria Amazona, em particular, cita as Escrituras, evoca figuras bíblicas e mitológicas e discute destino e justiça com uma naturalidade que a filia a uma linhagem antiga e poderosa: a da Mulher de Bath, de Chaucer. Isso cria uma sensação de que a cultura humana é uma só e que Maria, no meio do sertão, é a herdeira de toda a literatura universal.
E como a personagem medieval de Chaucer que transformava a experiência conjugal em autoridade teológica, Maria apropria-se das Escrituras com uma exegese particular, desmontando, dentro do cangaço, séculos de organização social e simbólica que relegaram as mulheres ao serviço doméstico (“Por isso mesmo que Eu luto. pelo modo como Eu vejo e se a gente não fizer Nada, se uma Mulher um dia chegar no céu vai ter de lavar as louças da última ceia, Você duvida?”).
Sua teologia é vívida, corporal, prática, desprovida de pedantismo, mas plena de apropriação e de uma capacidade de trazer os mortos à vida, permitindo que a voz feminina do passado ressoe no sertão. Há, ainda, na fala de Maria, uma crítica feroz ao Estado e à romantização do cangaço, tudo envolto em imagens sensoriais belíssimas (frutas, cheiros de âmbar e almíscar, pescaria zen, cavalgadas, passarinhos) que contrastam com a brutalidade de seu mundo.
Lampião, que poderia monopolizar o romance, é deslocado, desmontado, satirizado e reconstruído; seu mito é examinado ao lado do funcionamento do Estado e da violência. Mas o centro real não é o mito, e sim a personalidade, como a de Maria, que nessa história recusa o papel de mártir. A marca ferrada em seu rosto pelo bando de Lampião não a transforma em símbolo de sofrimento, mas em signo de autonomia, de uma ética que não glorifica a dor, mas aprende com a felicidade, observa o ciclo da violência sem glorificá-lo e escolhe, quando possível, não perpetuá-lo.
Seu “para sempre”, que encerra o romance, não é ingenuidade, mas a consciência da repetição, do pó que retorna, dos corpos que se dissolvem, dos mitos que se deslocam. O que permanece é a marca indelével que uma personalidade forte deixa antes de se esfarelar.
”Nada de Novo” é, portanto, um romance histórico, uma fábula adulta, uma sátira teológica, um ensaio filosófico e uma narrativa corporal, tudo ao mesmo tempo. É um livro ambicioso, formalmente ousado, linguisticamente hipnótico, arquitetonicamente calculado e intelectualmente inquieto. Um sertão onde o carcará observa, a relva murmura, as bactérias investigam e uma mulher decide estudar a si mesma em meio à violência, revelando, nesse gesto de autoconhecimento, a verdadeira força da obra.
Texto de Elis Silva

Sobre o autor:
Sadraque Regis é pernambucano de Garanhuns, mas há 15 anos está radicado no Recife, onde trabalha como servidor público. Sua família, pelo lado materno, conta que são parentes distantes do tenente Bezerra, o mesmo que comandou a volante que matou Lampião e seu bando em Angicos. Essa descendência, no entanto, nunca foi devidamente comprovada. Curiosamente, o tenente Bezerra morreu justamente na sua cidade natal, Garanhuns, o que sempre alimentou as histórias que ouviu desde criança.

