Cavalo selvagem, segundo volume da tetralogia Mar da fertilidade, de Yukio Mishima, se passa pouco após o Incidente de 15 de maio, a tentativa de golpe de Estado de 1932, e tem como figura central o jovem Isao Iinuma, filho do antigo criado de Kiyoaki Matsugae, protagonista do primeiro livro da série.

Reativo a um Japão cada vez mais ocidentalizado, Isao encontra inspiração na Liga do Vento Divino, grupo de samurais que incitou a rebelião contra a nova política imperial no início da era Meiji. Mishima o projeta como símbolo de pureza: para ele, integridade é um modo de viver e sacrifício, uma razão de ser. Em paralelo, acompanhamos Shigekuni Honda, amigo de Kiyoaki e agora juiz auxiliar, que enxerga no direito e no processo legal os meios pelos quais a ordem de uma nação se consolida. Dezenove anos separam este volume de Neve de primavera, mas é no reencontro entre essas duas perspectivas que o romance ganha força.
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Ao cruzar o caminho de Isao, Honda percebe nele semelhanças improváveis com o velho amigo e passa a crer que os dois estão conectados de alguma forma. O romance se constrói sobre dicotomias, jovialidade e maturidade, tradição e “progresso”, razão e emoção, que ora se enfrentam diretamente, ora coexistem em tensão silenciosa, revelando a percepção de Mishima sobre a pluralidade de visões de mundo e suas consequências.
“‘Fale tudo o que desejar. Alegue tudo o que quiser. Revele o seu verdadeiro coração. Mesmo que o conteúdo seja sangrento, revele tudo. Mas mantenha-se nos assuntos do coração. Esse é o único meio de se salvar’” (p. 367)
Recheado de elementos da cultura japonesa, da vestimenta aos costumes, Cavalo selvagem é um palco aberto ao ideal, ao puro, ao romântico. A linguagem de Mishima, rebuscada e de fato selvagem, revela nuances de uma mente que compreende o mundo pelo viés das cores quentes, mesmo quando pintada num sol de inverno visto de dentro de uma cela escura.
Sobre o autor

Yukio Mishima, nascido Kimitake Hiraoka em Tóquio em 1925, estreou na literatura com apenas dezenove anos. Pouco depois, com Confissões de uma máscara (1949) e Cores proibidas (1951), firma-se como o grande talento artístico de sua geração. Mesclando influências ocidentais e orientais, explorando tabus temáticos, como a homossexualidade e o culto ao corpo masculino, e produzindo excessivamente, Mishima não separa sua arte de suas próprias ações.
Cada vez mais crítico da ocidentalização do país no pós-guerra, ele leva seu nacionalismo ao extremo em 1970. À frente de seu grupo paramilitar Tate no Kai, invade um quartel do Exército japonês em Tóquio buscando incitar um golpe de Estado que devolveria os poderes divinos ao imperador. Sem obter a acolhida esperada, termina seu discurso e comete seppuku, suicídio ritualístico samurai, deixando perplexos seus milhões de leitores no Japão e no mundo.

