Filme espanhol, indicado ao Oscar 2026 em Melhor Filme Internacional e Melhor Som, é um road movie apocalíptico filmado no deserto do Marrocos, com elenco formado majoritariamente por atores não profissionais interpretando a si mesmos.
Muitas pessoas no Brasil falaram sobre Oliver Laxe há algumas semanas, não por ele ter realizado um dos filmes mais impactantes de 2025, mas devido a um comentário falacioso a respeito dos votantes brasileiros do Oscar.
O cineasta franco-espanhol que dirigiu e co-escreveu Sirāt, longa concorrente de O Agente Secreto no Oscar 2026, também não conta com grande apreço do seu próprio público na Espanha, onde é considerado intenso demais em entrevistas, redes sociais e até nos seus filmes. Essa personalidade um tanto difícil, contudo, mostra-se capaz de grande originalidade para o cinema autoral. Sirāt, é o melhor exemplo disso: aclamado pela crítica e execrado por boa parte do público, é um filme ao qual é impossível ficar indiferente.
Em Sirāt, acompanhamos a desafiadora jornada de Luis (Sergi López), um pai que sai da Espanha com o filho, que não deve ter mais que 10 ou 12 anos, e a cachorrinha, para procurar a filha mais velha em uma rave no deserto do Marrocos. Sabemos que esse será um caminho entre o desespero e a esperança não só pelo absurdo da missão, mas especialmente porque o longa abre com o significado de Sirāt: o conceito islâmico de uma ponte entre o paraíso e o inferno.

Aquele, evidentemente, não é o lugar certo para a busca de Luís e muito menos o momento adequado: a rave é interrompida por um exército devido a uma grande guerra que está eclodindo. Todo o público é escoltado pelos oficiais, pois os estrangeiros devem ser mandados de volta aos seus países. Assim, as pessoas precisam dominar todos os sentimentos e substâncias que estão no auge daquele transe depois que a música acaba. Luís e o filho, porém, fogem dos militares junto a outros 5 ravers, rumo a outra festa onde sua filha supostamente estará.
A fuga se dá no deserto, com falta de todo tipo de recursos: água, alimentos, combustível. O deserto, quanto mais o filme avança, mais parece gigante e impiedoso, assumindo a dimensão de um purgatório em que o juízo mais cruel é o interno de cada personagem. E mesmo nesta aventura fadada à tragédia, Sirāt consegue ser imprevisível em seus momentos mais angustiantes.
O som, um dos elementos mais importantes deste longa, é o fator que eleva o filme a uma experiência quase espiritual. Sua trilha sonora sensorial e hipnótica, assinada pelo compositor de música eletrônica Kangding Ray, é feita por sons de impacto visceral que não são necessariamente para ouvir: são para dançar, como esclarece Jade, uma das integrantes do grupo a que Luis se une na saga pelo deserto.
Apreciador da cultura de raves, Laxe afirma ter criado o filme para ser uma espécie de cerimônia em que, assim como nas festas, a experiência é tanto física quanto metafísica. A proposta do cineasta, no entanto, é percebida por grande parte do público, especialmente o espanhol, como uma expressão do “cinema da crueldade”.
Na semana de estreia na Espanha, Sirāt teve quase o mesmo número de espectadores de Bailarina (Do Universo de John Wick), que também estava em cartaz. Ter o mesmo índice de público que um lançamento de ação é um grande feito para um filme de autor nacional, premiado em Cannes. No entanto, quase tão alto quanto a bilheteria foi o número de abandonos das sessões no país. Há quem diga que o sadismo purgatório de Laxe beira o gore, mas há também quem observa que essa insatisfação vem do desconforto de um público que só considera plausível a brutalidade em contexto geopolítico, quando situada fora do eixo ocidental.
Há um esforço particular da direção e da fotografia em retratar a jornada interna de Luis, sobretudo na rua relação com o “outro” como agente de perigo. Essa alteridade, entretanto, muda de figura ao longo do percurso. Ao adentrar o universo dos frequentadores de raves, o outro é o próprio grupo que o ajuda a fugir, mas quando esse coletivo passa a funcionar como uma nova família, o antagonismo se desloca para o deserto, que assume a força de uma mãe natureza de olhar julgador e punitivo. O contraste entre a paisagem monumental e a fragilidade humana é um dos pontos fortes da estética do filme.

Oliver Laxe admite ser um artista pretensioso e declara que, para fazer este road movie no deserto, inspirou-se em Mad Max, de George Mueller e Stalker, de Tarkovski. Uma dessas intenções é bastante evidente, mas a outra pode fazer algum sentido se você assumir a perspectiva existencialista da narrativa e considerar que os personagens avançam rumo a um destino idealizado como o lugar em que os seus desejos poderão se realizar.
Para quem não abandona a sessão antes do fim e nem se importa com os excessos de seu realizador, Sirāt oferece uma experiência impactante e certamente é um dos filmes mais memoráveis de língua não-inglesa dos últimos anos.
Minha nota para Sirāt no Letterboxd: 4 estrelas e meia.
Sirāt (2025)
Direção: Oliver Laxe
Roteiro: Santiago Fillol e Oliver Laxe
Duração: 1h55

