“Clubes de leitura são exercícios de democracias que deram certo”, diz Rita von Hunty

“A importância dos clubes de leitura e a importância de ler livros LGBTQIAP+ são um exercício de democracias que deram certo”, disse a drag queen Rita Von Hunty, vivida pelo professor Guilherme Pereira, em entrevista ao Jornal Nota. Ela participa nesta quarta (10), às 17h30, do Clube de Leitura CCBB 2024, debatendo Literatura e Identidade de Gênero, ao lado do poeta Tom Grito, cujo livro Eu sei que vou sair vivo disso (Malê, 2023) será discutido, junto a Ramon Nunes Mello.

Rita von Hunty

“Muita gente, ao longo da história, sonhou com uma pátria de leitores. Um clube de leitura é alguma coisa que a gente dá conta de fazer, quando angariamos gente suficiente disposta a ler, sentir e debater”, continuou Von Hunty. É uma coisa de democracias que dão certo, porque é mais ou menos assim como constituímos as nossas, por ler, sentir e discutir. Seja notícia, seja projeto de lei, seja constituição. Então, acho que essa é a importância de manter vivo o fazer do clube de livro.”

Von Hunty destaca também a importância de discutir a temática LGBTQIAP+ como um flanco de luta. “Não se pode esquecer que a gente fala da periferia do capital, que a gente hoje mora num país extremamente conservador e reacionário, que transformou os assuntos de gênero em pânico moral”, diz.

Na sua visão, debater livros com essa temática ou escritor por autores LGBTQIAP+ instrumentalizam as pessoas para os debates que, mais cedo ou mais tarde, aparecerão em suas vidas,  e democratizam o acesso a esses debates, sensibilizando a sociedade e amenizando um pouco o “pânico moral” em torno do tema. “É uma forma de as pessoas se sentirem tocadas e verem como aquilo lhes diz respeito”, reflete.

Leia também: 8 livros LGBTQIA+, um de cada letra, para conhecer e ler!

Von Hunty disse estar ansiosa para conhecer Tom Grito, o autor de Eu sei que vou sair vivo disso, e poder discutir os poemas escritos pelo autor, que se identifica como uma pessoa não binárie transmasculine. Especialmente porque a maioria das suas leituras é voltada para autores que não estão mais vivos.

Tom Grito

“Por ter sido professor de língua e literatura, eu tenho com os autores uma diferença que produz uma distância. É distinto de conhecer um autor, porque a sua arte é feita com palavra. Então, acho que é uma chance maravilhosa de ver alguma coisa se urdindo, no sentido de que, como é esse filtro de sensibilidade que transforma experiência em poesia. E acho que o encontro possibilita descobrir isso”, observa.

Ramon Nunes Mello

Entre autores LGBTQIAP+ que leu mais recentemente, Von Hunty recomenda dois que fizeram parte do seu clube de leitura: o romance O parque das irmãs magníficas, de Camila Sosa Villada, e os poemas de O céu noturno crivado de balas, de Ocean Vuong.

O Clube do Livro do CCBB-Rio, organizado por Suzana Vargas, procura neste mês refletir sobre a complexidade da representatividade, quando se trata de arte e, principalmente, de literatura. 

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