Sobre a prosa de As Máscaras de Nietzsche, não há muito a dizer além de admirá-la. Lírica e fluida, ela é atravessada por imagens inesperadas. A leitura corre mansa na forma, mas que o leitor não se engane: sob essas águas aparentemente calmas, avançam correntes impetuosas. E aqui está uma das grandes qualidades da obra: o modo como a escrita lírica torna palatáveis ideias complexas.

O que mais impressiona no livro é justamente a maneira como conceitos filosóficos são transformados em experiência estética. A intercalação entre uma prosa poética madura e a filosofia faz com que Nietzsche deixe de ser somente compreendido intelectualmente e passe a ser vivido.
O romance realiza essa passagem sem “mastigar” a filosofia nem enrijecer a literatura. O pensamento não aparece como conteúdo externo, acrescentado à narrativa para lhe conferir gravidade intelectual. Ele atravessa a linguagem, as relações, as memórias e as dores do personagem. Torna-se carne literária.
A dinâmica interna da narrativa, costurada por meio de cartas – ora para Apolo, ora para Dioniso –, é habilmente executada. Há nelas uma dimensão não dita, íntima, permeada por dores, como uma confissão prestes a emergir, muitas vezes travestida de humor e ironia. Afinal, em certos momentos, é preciso rir de si mesmo.
A relação entre biografia, ficção e pensamento filosófico cria, desse modo, uma espécie de fluxo vivo, respirável. As relações de Nietzsche com Wagner, Lou Salomé, Elisabeth, a mãe, e Paul Rée não aparecem como simples fatos biográficos, mas como forças que tensionam a formação de sua subjetividade e de seu pensamento.
Essas figuras se projetam como sombras duras, que contrastam com o personagem e aprofundam suas elucubrações. Nietzsche surge menos como monumento intelectual e mais como presença humana: contraditória, sensível e viva.
O romance trabalha de maneira especialmente interessante a ideia nietzschiana de que “não há fatos, apenas interpretações”. O livro parece levar essa afirmação às últimas consequências.
Toda biografia já nasce, de certo modo, como romance, contaminada pela ficção, porque toda memória é interpretação.
Nesse sentido, a própria forma do romance encarna o pensamento de Nietzsche. A obra se torna um estuário no qual filosofia, literatura, memória e criação se encontram.
Outro aspecto marcante é o tratamento dado à fronteira entre razão e loucura. O livro desmonta qualquer leitura simplista da insanidade de Nietzsche. Se, por um lado, sua excentricidade e seu declínio físico o conduzem ao hospital psiquiátrico, por outro, muitas das figuras consideradas “sãs” parecem espiritualmente mais doentes que ele.
Wagner, por exemplo, surge em diversos momentos como alguém profundamente egoísta e manipulador, sobretudo quando reduz Nietzsche ao papel de filósofo útil ao seu projeto, mesmo conhecendo as aspirações musicais do amigo. Elisabeth e Bernhard Förster, por sua vez, aparecem imersos no delírio ideológico antissemita.
Diante disso, o romance parece formular uma sugestão inquietante: às vezes, enlouquecer é o preço de permanecer humano em um mundo já adoecido, decadente e inchado de ídolos.
Talvez seja justamente nesse ponto que o livro alcance sua maior força. Apesar de todo o sofrimento físico e psíquico, seu Nietzsche nunca se reduz à caricatura do “gênio louco”. Há nele fragilidade e potência criadora, sensibilidade, música e compaixão, como demonstra a cena do cavalo em Turim, escrita de forma belíssima.
A obra conduz o leitor à ideia de que talvez uma das poucas saídas possíveis seja abraçar a loucura escondida sob as mais diferentes máscaras e, a partir dela, criar.
Ser capaz de compor nas ruínas, dançar na loucura e afirmar a vida em sua tragicidade: eis o amor-fati. Mesmo que pareça ridículo, mesmo que pareça insano, trata-se de dizer sim à vida em tudo aquilo que ela contém de excesso, dor e beleza.
Essa dualidade cria angústia e dilacera, mas faz da existência, como sugere o personagem, um fenômeno estético. E é aí que a vida encontra sua justificação: a vida que cria e é criada.
No livro, não se trata de uma criação qualquer. Trata-se da Transmusicação, a ópera-tragédia capaz de retirar Nietzsche da sombra de Wagner, do ressentimento, das rejeições e do amor que apenas acenou eterno em seu ninho efêmero, antes de lançar voo para longe dele.
A Transmusicação permite que o personagem habite suas alegrias e seus sofrimentos, afirmando a beleza trágica de uma vida.

A cena final encerra com precisão aquilo que o livro promete desde o início: não explicar Nietzsche de fora, mas encarná-lo. Nesse gesto, o romance dialoga diretamente com a frase do filósofo que atravessa toda a obra: “só me interessa o que alguém escreve com o próprio sangue”. As Máscaras de Nietzsche faz esse sangue transbordar.
Texto por Henrique Bezerra Martin, escritor, pesquisador e filósofo.
Sobre o autor:
Matheus Arcaro é mestre em Filosofia pela Unicamp. Professor de filosofia, história da arte e escrita literária. Escritor com obras publicadas em conto, romance, poesia, infantil e filosofia. As máscaras de Nietzsche é seu nono livro.

