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Literatura

O resgate da autoria no corpo em “Oncopoéticas: curar é preciso, cuidar não é preciso”, de Giovani Miguez

por Bia Fonseca 25 de maio de 2026
por Bia Fonseca 25 de maio de 2026 0 comentário

Um olhar filosófico, poético e peculiar sobre a travessia pelo território do câncer no novo livro de Giovani Miguez

por Ageu Cleon de Andrade

( Mestre em Educação. Graduado em Letras e Psicologia. Atualmente é Assistente em Ciência e Tecnologia do Instituto Nacional de Câncer – INCA/RJ.)

e, se for possível,

que haja uma poética

do câncer,

uma estética do compatível,

uma ética do sensível;

uma oncopoética?

Considerações iniciais

O diagnóstico de um câncer costuma irromper na experiência humana com a violência de um abalo sísmico, cindindo a temporalidade biográfica entre um antes seguro e um depois profundamente ameaçador. Historicamente, a medicina ocidental respondeu a esse colapso por meio de um modelo puramente destrutivo e reducionista, focado no extermínio cirúrgico ou químico da célula mutante. É precisamente na contra-corrente dessa herança mecânica que se posiciona a obra Oncopoéticas: curar é preciso, cuidar não é preciso (ensaios poético-filosóficos), de Giovani Miguez. Publicado em 2026 pela Editora Selo Jovem , o livro funciona como um tratado de insurgência sensível e reconfiguração clínica, defendendo que o enfrentamento da doença não pode mais se dar às custas do apagamento do sujeito.

Miguez, que já soma 30 publicações entre livros e plaquetes, a maioria no âmbito da escrita poética, desta vez arrisca uma escrita mais ensaística sem deixar de lado sua verve poética. Em Oncopoéticas ele não escreve a partir do distanciamento asséptico da academia tradicional. Ele se apresenta como um “poeta infiltrado” , um cientista da informação que passou mais de uma década imerso no cotidiano do Instituto Nacional de Câncer (INCA), em diálogo constante com as equipes e com as burocracias. Foi nesse território de dores extremas e prontuários frios que o autor compreendeu que a leitura técnica de uma lâmina ou de um exame de imagem negligenciava histórias de vidas fraturadas. A partir desse lugar de observação “bilíngue” — entre a gestão da saúde pública e a urgência da alma —, brotam ensaios que buscam estruturar um olhar peculiar sobre a oncologia, na qual o rigor do laboratório e a delicadeza da escuta operam como duas mãos de um mesmo e complexo gesto.

1. A Dialética entre o Mensurável e o Significativo

O ponto de partida teórico da obra apoia-se em um diálogo provocativo com a célebre máxima de Fernando Pessoa: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”. Ao transpor essa metáfora para o universo da saúde, Miguez estabelece uma distinção nítida entre o ato de curar e o ato de cuidar. O império do mensurado define o território da cura. É a busca obsessiva pela precisão cirúrgica, a dosagem matemática das infusões químicas, a geometria milimétrica da radiação e a submissão cega aos guidelines internacionais. O autor reconhece a beleza brutal desse ecossistema técnico que estanca hemorragias e prolonga existências. Contudo, adverte para o perigo do reducionismo numérico: quando a medicina foca apenas no que pode quantificar, transforma a pessoa em pixel, reduz a pele a uma imagem térmica e traduz a biografia em curvas de sobrevida de Kaplan-Meier.

Em contraposição a essa frieza protocolar, ergue-se o reino do significativo, representado pela imprecisão intrínseca do ato de cuidar. O cuidado, para Miguez, habita aquilo que escapa às tabelas de faturamento e às escalas de dor de zero a dez. Ele se manifesta no olhar que demora alguns segundos a mais, na mão que ancora o paciente trêmulo durante uma punção dolorosa ou no silêncio partilhado em um corredor hospitalar na madrugada. Se a cura opera em escala microscópica no combate às células rebeldes, o cuidado atua na escala existencial, respondendo ao sofrimento da alma que a ciência não sabe nomear.

A obra propõe, assim, a urgência de uma fluência bilíngue por parte dos profissionais de saúde. Não se defende o abandono da evidência científica em prol de um humanismo estéril, pois a presença sem eficácia técnica seria apenas um consolo impotente. O que o autor postula é uma hélice dupla : a capacidade de integrar a exatidão dos dados e o acolhimento compassivo da alma, garantindo que o prolongamento dos dias de um indivíduo venha acompanhado da preservação do sentido de sua própria vida.

2. A Ampliação das Variáveis: O Corpo em Três Palcos

A fim de demonstrar que a biologia de uma patologia é indissociável da história vivida pelo organismo, os ensaios do livro expandem a compreensão do corpo humano, dividindo-o em três palcos de representação e adoecimento. Essa estruturação afasta a análise do reducionismo orgânico e contextualiza o câncer em uma teia biográfica e ambiental ampla:

  • O Corpo como Habitat: Trata-se do microambiente biológico e molecular analisado nas lâminas de microscópio. O câncer, neste palco, é lido como uma desordem de vizinhança celular, uma ruptura nos padrões íntimos de cooperação tecidual em que um grupo de células desobedece às regras do conjunto e passa a consumir os recursos do organismo de forma egoísta.
  • O Corpo em Hábito: Este palco situa o sujeito fora dos limites do laboratório e o faz caminhar pelas ruas das cidades. Aqui, o adoecer revela a sua assinatura social e econômica. Miguez demonstra que as desigualdades coletivas se inscrevem diretamente na carne : o tumor que se expande é também o resultado material de histórias marcadas pela desnutrição, pela exposição contínua ao ar poluído das indústrias e pelo esgotamento físico decorrente de jornadas de trabalho extenuantes.
  • O Corpo como Habitante: Abre-se a lente para enquadrar o indivíduo como um cidadão ecológico inserido em um planeta sob crise civilizatória. O nicho tumoral deixa de ser meramente biológico e passa a ser geopolítico, respondendo aos resíduos industriais, às mutações climáticas e às agressões de um modo de vida global que violenta o equilíbrio da terra e, consequentemente, o equilíbrio celular.

A partir dessa cartografia expandida, a obra tece uma crítica contundente ao uso irrefletido das metáforas bélicas no discurso oncológico. Termos tradicionais como “guerra”, “batalha” ou a classificação do câncer como um “imperador” tirânico são denunciados por funcionarem como verdadeiras jaulas linguísticas. Ao estruturar o tratamento sob a lógica militar do vencedor e do vencido, a medicina transfere um fardo moral esmagador para o paciente. Se a doença progride, instala-se uma narrativa perversa de culpa e fracasso pessoal, como se o doente não tivesse “lutado o bastante”. Além disso, a retórica da guerra simplifica o drama e mascara as falhas do mercado e do Estado, ocultando o fato de que muitas patologias são geradas ou agravadas pela precariedade das políticas públicas e pela degradação ambiental.

3. A Dupla Hélice: Mudança Tecnológica e Presença Plena

No ensaio “Precisão e Presença”, Miguez enfrenta um dos debates mais prementes do nosso tempo: a inserção massiva da Inteligência Artificial e dos dispositivos robóticos no coração da clínica oncológica. Longe de adotar uma postura ludista ou apocalíptica, o autor reconhece que os algoritmos trazem uma promessa de onisciência técnica, sendo capazes de decifrar o oráculo genômico com velocidade extraordinária, otimizar feixes de radiação e enxergar a sombra de um tumor antes do olho humano. Contudo, a obra aponta para o risco iminente de uma metamorfose desumanizante : a possibilidade de o médico se transformar em um mero supervisor de telas opacas e de o paciente ser reduzido a um amontoado estatístico de dados moleculares.

A grande limitação da máquina, argumenta o autor, reside na sua cegueira constitutiva para o que não pode ser traduzido em código binário — o medo da finitude, a esperança íntima e os valores pessoais que definem o que significa viver com dignidade. A máquina opera com eficácia sobre a disease (a patologia mecânica do órgão), mas permanece surda para a illness (a experiência subjetiva do adoecer).

É nesse cenário de automatização acelerada que a Medicina Narrativa é apresentada não como um ornamento afetivo, mas como o verdadeiro sistema operacional humano indispensável para regular a técnica de modo ético. A escuta atenta e estruturada funciona como a ferramenta capaz de traduzir os dados frios gerados pelo algoritmo para a linguagem quente da biografia do paciente. Se a Inteligência Artificial sugere um protocolo padrão com base em probabilidades estatísticas, é a história oral do doente — que manifesta, por exemplo, o desejo irrevogável de estar presente no casamento de uma neta — que transforma a evidência científica em sabedoria clínica singular. Desse modo, desenha-se uma divisão ética do trabalho: a tecnologia cuidará da doença; o médico cuidará da pessoa que adoece. Liberado das tarefas mecânicas e repetitivas pela automação, o profissional de saúde ganha a oportunidade de resgatar o seu gesto mais nobre: a presença plena à beira do leito.

Leia também: Uma história real sobre borderline, dor e sobrevivência em “Apesar de Tudo, Eu Fiquei”, de Letícia Martins

4. O Cenário Crônico e as Vozes Ocultas da Linha de Cuidado

Ao desmistificar a ilusão de que o universo oncológico se resume a episódios agudos de cura ou óbito, o livro joga luz sobre a cronicidade da doença e resgata do silêncio duas figuras que se movem na penumbra das instituições de saúde: o cuidador familiar e o sobrevivente.

No ensaio “Uma História Paralela”, Miguez desvia o projetor do protagonista habitual para iluminar a crônica de vigília do cuidador doméstico. O texto demonstra que o câncer não acomete um indivíduo isolado, mas desorganiza de forma violenta todo um sistema familiar de afetos. O bem-estar de quem recebe o tratamento e de quem se doa para sustentar o cotidiano do doente estão atados por um laço inquebrável. A rotina desse cuidador é marcada por uma sobrecarga identitária devastadora: a mente permanece em alerta constante, o mundo social encolhe até os limites das paredes de uma enfermaria e a própria identidade passa a ser erodida pela anulação dos desejos pessoais.

O autor analisa a profunda ambivalência emocional que corrói esse sujeito. Embora o ato de cuidar nasça do amor, ele frequentemente convive com o ressentimento silencioso, com a frustração física e com o desejo desesperado de fuga. Encurralado por uma cultura sacrificial que glorifica a anulação e estigmatiza o cansaço como falha de caráter, o cuidador cala-se e consome-se em culpa. O livro adverte que ignorar esse sofrimento subterrâneo constitui uma falha clínica grave, uma vez que o esgotamento do cuidador atua como um fator de risco direto para a própria estabilidade e segurança do paciente. Cuidar de quem cuida emerge, assim, como um imperativo ético e prático de saúde pública.

Paralelamente, a obra desconstrói o mito do fim do tratamento no ensaio “A Crise do Sobrevivente”. O toque do sino da alta médica, habitualmente celebrado pela sociedade como o epílogo heróico de uma guerra vencida, é revelado como o início de um exílio solitário entre mundos. O paciente que deixa de ser considerado “doente” descobre que o retorno ao seu “eu” anterior é uma miragem impossível. O corpo foi permanentemente modificado pelas cicatrizes e pela fadiga crônica, enquanto a alma permanece assombrada pelo medo constante de uma recidiva que espreita cada nova dor física.

Instala-se o que o autor denomina de crise de roteiro: o indivíduo é pressionado a performar uma gratidão radiante e a retomar a normalidade produtiva, mas se encontra esvaziado, habitando um limbo identitário em que a antiga rotina perdeu o sentido e a nova página da vida se apresenta em um branco assustador. O pós-cuidado narrativo surge aqui como a prática de devolver a caneta ao sobrevivente, oferecendo-lhe ferramentas artísticas e de partilha comunitária para que ele possa processar o trauma e rascunhar uma nova biografia reconfigurada, tecendo o fio escuro da doença na tapeçaria de sua existência.

5. A Resolução pela Metatécnica e o Manifesto Oncopoético

O fechamento de Oncopoéticas não se dá no terreno da abstração teórica descompromissada. Miguez propõe uma engenharia prática do cuidado que denomina de Metatécnica, estruturando ferramentas mínimas e aplicáveis para transformar as rotinas do Sistema Único de Saúde (SUS) e resgatar a dignidade biográfica no chão dos hospitais. Esse arsenal começa com o prontuário narrativo oncológico, que introduz campos para registrar preferências, medos e marcos temporais do paciente a fim de customizar condutas; passa pelo consentimento em língua comum, que substitui o jargão técnico pela linguagem do cotidiano para tornar o risco uma escolha informada; e integra as rondas mensais de metáforas, destinadas a substituir a lógica bélica da doença por imagens acolhedoras. Complementam esse conjunto as oficinas de imaginação material, que educam a paciência do profissional por meio do contato com texturas como argila e madeira, e as devolutivas públicas dos serviços, que garantem a transparência e a democratização do acesso às tecnologias de tratamento.

Essa reestruturação clínica ganha fundamentação estética e filosófica por meio da proposta da Poética da Cicatriz. Miguez insurge-se contra a linguagem tradicional da “reconstrução” ou da “restauração” orgânica, argumentando que a busca nostálgica por um retorno ao corpo intacto de antes é cruel e irrealista, pois condena o indivíduo a sentir-se perpetuamente defeituoso e incompleto. Inspirando-se na arte milenar japonesa do Kintsugi — que repara cerâmicas partidas preenchendo as suas fraturas com ouro líquido —, o autor defende o conceito de reconfiguração. A cicatriz cirúrgica ou a ausência anatômica deixam de ser tratadas como marcas de vergonha a serem ocultadas e passam a ser lidas como inscrições de resiliência, o mapa visível de uma travessia de sobrevivência honrada com o ouro do novo significado biográfico.

O ápice dessa insurgência conceitual corporifica-se no Manifesto Oncopoético que encerra o volume. Em um texto de alta voltagem poética e rigor analítico, Miguez clama por uma ruptura epistemológica radical na oncologia contemporânea. Apoiando-se na filosofia de Xavier Zubiri, o manifesto valida a “inteligência senciente” do paciente, asseverando que a dor corporal e as percepções subjetivas do organismo doente não são “dados menores” a serem descartados pela clínica, mas sim formas fundamentais de apreensão da realidade da doença “dando de si”.

O manifesto propõe, de forma revolucionária, a dissolução das hierarquias médicas tradicionais — nas quais o especialista detém de forma exclusiva o monopólio do saber e o paciente é reduzido à passividade de quem apenas sente. Miguez convoca a criação de um filósofo coletivo, um grupo-pesquisador horizontal composto por médicos, enfermeiros, psicólogos, pacientes e familiares que se reúnem em oficinas artísticas para coconstruir o conhecimento sobre o adoecer. Quando a linguagem formal colapsa diante da dor avassaladora do prognóstico, o grupo recorre à poiesis — ao gesto criador da argila, da cor e do verso — para forjar os “confetos”: saberes híbridos que unem conceito e afeto. Ao criar coletivamente ferramentas semânticas como o confeto do “tempo-espiral”, a comunidade de cuidado consegue ancorar o caos existencial e dar um nome transitável ao sofrimento.

A obra encerra-se com uma apropriação ética da esquizoanálise, convidando os corpos interditados pela patologia a se constituírem como um corpo-sem-órgãos. Trata-se de uma recusa política e existencial em permitir que o tumor seja o único princípio organizador e limitador da existência. Mesmo atravessada pela finitude e pela fragilidade da matéria, a vida é afirmada como um campo aberto de intensidades, fluxos desejantes e potências de criação comum. Ao final de sua travessia, o livro de Giovani Miguez cumpre a sua promessa fundamental: a de não se oferecer como um manual de respostas prontas, mas sim como uma bússola poético-filosófica que devolve a dignidade da autoria ao corpo daquele que adoece.

6. O Poema-Tese: A Síntese Redutiva da Carne

Para que a transição conceitual da obra se condense na sua visualidade rítmica mais pura, o autor insere no coração do livro o seu poema-tese, um portal lírico em que a precisão e a presença se fundem sem as amarras da prosa tradicional. Respeitando a natureza íntima da caligrafia poética do autor, os versos abrem mão das maiúsculas formais para deixar que a biologia e a biografia se toquem de forma horizontal:

Oncopoética

traduzir o tumor em travessia,

a dor, em metáfora —

eis a busca por uma nova

oncologia.

entre lâmina e verso,

corpo e biografia se tocam.

palavra que abre jardins,

no silêncio da doença

remodelando universos

e crenças.

na precisão da ciência,

na presença da consciência —

o rigor, a ternura.

a biologia quer cura;

a biografia, alguma estrutura.

e, se for possível,

que haja uma poética

do câncer,

uma estética do compatível,

uma ética do sensível;

uma oncopoética?

A estrutura desses versos curtos condensa o ineditismo da obra: a constatação de que a cura biológica, embora almejada, é insuficiente para deixar para trás uma biografia desestruturada e sem sentido. É na confluência definitiva entre o rigor cirúrgico da lâmina e a expansão acolhedora do verso que a medicina do futuro encontra a sua verdadeira exatidão: aquela que sabe perfeitamente o instante de decifrar o código genético de uma célula e o momento exato de silenciar as máquinas para escutar o desdobramento de uma história humana.

Sobre o autor:

Giovani Miguez é poeta e escritor, autor de mais de 30 livros e plaquetes. Escreve, além de poemas, crônicas, contos e outras prosas. É servidor público, graduado em Gestão Pública com extensão em Jornalismo de Políticas Públicas, especialista em Sociologia e Psicanálise,  mestre e doutor e Ciência da Informação. Pesquisa sobre Cuidado, Saúde e Informação. De Volta Redonda (RJ), hoje reside na cidade do Rio de Janeiro. Na sua poesia, explora a expressão e reflexão humanista e existencial.  Ora lírico, ora político, ora científico, mas sempre est(ético), o autor segue buscando ser profundo em suas generalidades.

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Bia Fonseca

Bia Fonseca é formada em História, Direito e Letras-Inglês, tendo enveredado pelo caminho das Letras após uma especialização em Leitura e Produção Textual. Hoje, trabalha na área da educação a distância e da tradução e no tempo livre se debruça sobre a literatura contemporânea e estuda chinês.

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