Quando um artista atinge o grau de reconhecimento e consolidação no cenário do entretenimento tal qual Gregório Duvivier conquistou, é normal que as pessoas questionem: “será que essa obra é isso tudo mesmo ou é só por que tem o nome do fulano?”
Esse, inclusive, é um questionamento levantado pelo próprio Gregório em alguns momentos do seu espetáculo “O Céu da Língua”; o que significa mais: a escritura ou o escritor?
Em cartaz desde novembro de 2024, quando estreou em Portugal, o monólogo só chegou na boca do povo brasileiro em fevereiro de 2025. Desde então, o espetáculo esgotou teatros ao redor do país com mais de 200 sessões, alcançando mais de 250 mil espectadores.

No último sábado (16), em comemoração aos 40 anos da Editora Companhia das Letras, Gregório apresentou uma releitura de sua peça em apresentação especial no evento “O Livro É Companhia”, que aconteceu no museu do amanhã de forma gratuita. A apresentação, que leva o nome do seu livro “Aos pés da letra”, recém lançado pela Editora, deu ao público a oportunidade de não só saber o que é a peça “O Céu da Língua”, mas de conhecê-la.

Assim como o nome da peça, que subverte a expressão idiomática “o céu da boca” e faz a nossa memória muscular facial repuxar logo após mencioná-la — como se tivesse experimentado algo azedo —, há muitos trocadilhos que levam o espectador a balbuciar as palavras baixinho logo que o protagonista as professa.
Mas se todas as palavras foram inventadas, por que nos incomodamos se uma frase não soa natural aos nossos ouvidos? Foucault atribui essa estranheza ao fato de que nós conhecemos o nosso sistema de cultura. Somos filhos atentos e devotos à nossa língua materna. Às vezes, tão ortodoxos que classificamos heresia à maneira que alguém a professa.
Outras, tão íntimos que nos aconchegamos nela sem pensar. Há aqueles que, distantes, procuram em outras línguas, semelhanças às notas que só existem no tom da nossa. E pode-se ainda encontrar alguns que, livres, se inspiraram nela para atribuir significado àquilo que, sem ela, seria insignificante.
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Com referências à grandes estudiosos da palavra como Clarice Lispector, Borges, Saussure, Nietzsche e Platão, o monólogo poderia facilmente se converter em um uma aula avançada do curso de Letras, não fossem as auto-referências, elementos da cultura popular, debates das redes sociais e o próprio resgate à nostalgia de crescer em um país de Palavra Cantada.
O discurso, sedutor e divertido, nos lembra que “no princípio era o verbo;’, antes mesmo que houvesse alguém para dizê-lo. Porque nós não somos anteriores à palavra, afinal, para que possamos “ser”, é preciso um “eu” que reconheça a existência de um “você”.
E toda essa angústia de “dar nome às coisas” já assombrava o papel onde repousava a caneta tinteiro do escritor argentino Jorge Luis Borges, no séx. XX, quando confessou senti-la ao pensar “nesta frase que vai partir para a eternidade e que eu talvez ainda não tenha compreendido plenamente”. Sentimento que ainda ecoa pungentemente no teclado de quem escolheu escrever esse texto.
Afinal, uma vez que entende-se que o discurso é algo que está em disputa desde o início da civilização, entendemos também que a palavra tem a força para produzir tanto quanto extinguir tudo que existe ou já existiu. Como dizia Foucault em “A Ordem do Discurso”:
“Na vontade de dizer esse discurso verdadeiro, o que está em jogo, senão o desejo e o poder?”
Tudo isso para confessar que, partindo do desejo de fazer esse discurso soar verdadeiro, busquei as melhores palavras a fim de atribuir significado às angústias que me atravessaram dentro daquele teatro — e que sucedem a minha compreensão do conceito de ser um nome.
A peça “O Céu da Língua”, de Gregório Duvivier, está em cartaz no Rio de Janeiro até o dia 7 de junho no teatro Casa Grande e os ingressos podem ser comprados diretamente no site Eventim.
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