Quando Irmandade estreou em 2019, com um roteiro original e um elenco com atores de grande qualidade, o sentimento que ficava ao final da série era: por que acabou agora? Há tanto para explorar ainda.
Essa espera de quatro anos terminou com a chegada de Salve Geral: Irmandade à Netflix. O spin-off da série parte do conflito no qual os membros da Irmandade enfrentam uma crise quando transferem líderes para prisões de segurança máxima. Elisa, 18 anos, filha do fundador Edson, é sequestrada por policiais corruptos. Sua tia Cristina tenta resgatá-la. A trama de resgate, no entanto, é apenas a ponta do iceberg. O grande trunfo do roteiro é ancorar essa ficção em um dos episódios mais violentos da história recente de São Paulo.

O roteiro do filme poderia ser apenas mais uma ficção, mas não é. Parte dos eventos mencionados realmente aconteceu. No início da noite do dia 15 de maio de 2006, a maior cidade do país parou por causa dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC). De um lado, os integrantes do PCC já tinham começado a chamar a atenção da imprensa e da sociedade dias antes, com rebeliões em presídios e presos protestando contra a transferência de membros da facção para uma penitenciária de segurança máxima na véspera do Dia das Mães.
Depois, membros da quadrilha soltos nas ruas passaram a receber os “salves” (ordens de dentro das cadeias) para atacarem alvos da segurança do governo estadual. Bases foram alvejadas a tiros e agentes de folga acabaram baleados e mortos de surpresa. Com medo, as empresas liberaram seus funcionários mais cedo. O congestionamento na cidade foi recorde: às 18h, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) registrou 212 km de vias paradas, contra uma média de 58 km para o mesmo horário. Foi o primeiro “lockdown” de São Paulo no século XXI.
Na minha opinião, esse é o primeiro grande mérito do filme, colocar em pauta uma história que o Brasil não quer lembrar, que é dolorosa, difícil e não é uma história sobre nossos heróis. Saindo da questão histórica, muito trabalhada pelos roteiristas Julia Furrer (Rua Augusta) e Pedro Morelli (Raul Seixas: Eu Sou) temos uma linha narrativa que aborda muito a desigualdade social do Brasil, passando explicitamente por estruturas de racismo e pobreza.

Um dos grandes acertos de direção de Pedro Morelli é o uso recorrente do plano-sequência. O recurso, aplicado sobretudo nas cenas de ação e tensão, insere o espectador dentro do caos, criando uma perturbadora sensação de realismo. Duas cenas exemplificam essa escolha com maestria: o tenso atendimento à grávida na abertura do filme e, principalmente, o resgate da sobrinha no cativeiro.
Nesta última, a câmera que acompanha Cristina em tempo real potencializa a angústia de Naruna Costa, que vive a personagem sem saber o que a espera atrás da próxima porta. A direção de Pedro Morelli em Salve Geral: Irmandade apresenta uma dinâmica e um estudo muito precisos para o gênero escolhido, suas escolhas técnicas revelam uma maturidade e uma pesquisa de quem quer provocar e encantar o espectador.
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Salve Geral: Irmandade também se destaca pela escolha primorosa do elenco. Além de nomes que já faziam parte da série, como Seu Jorge, Lee Taylor, Naruna Costa e Hermila Guedes, temos Marcélia Cartaxo, Ricardo Gelli, William Costa e Christian Landi, todos excelentes atores, com trajetórias marcantes em seus trabalhos.
Com um texto que tece ficção e memória traumática, uma direção tecnicamente primorosa e um elenco em estado de graça, Salve Geral: Irmandade não é apenas um spin-off competente, mas um filme necessário que usa o entretenimento para escancarar feridas sociais que o Brasil insiste em ignorar.
Veja o trailer completo:

