Em cena no TUSP, “As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência” transforma o palco em um espaço de conflito simbólico, onde a luz revela as hierarquias raciais que estruturam a sociedade. A montagem realiza uma ousada fusão entre o clássico metateatral de Luigi Pirandello, “Seis Personagens à Procura de um Autor”, e a poesia anticolonial do martinicano Aimé Césaire, autor fundamental do movimento da Negritude.
A premissa é poderosa: durante o ensaio de uma peça, funcionários negros do teatro interrompem a cena para reivindicar o direito de contar suas próprias histórias. Esse gesto de insurgência desencadeia um embate entre personagens/personas brancos e negros, entre centro e margem, visibilidade e apagamento. Idealizada e dirigida por Anderson Negreiro e pela colombiana Daniela Manrique, a peça nasce do desejo de pensar o racismo estrutural e as disputas por representação no Brasil.

“Percebi que aquelas personagens de Pirandello que entram pela coxia, em busca de um autor, poderiam ser corpos reais — lutando por existir e afirmar sua autoria no mundo”, explicam os diretores. Na adaptação, as seis personagens originais são substituídas por figuras da obra de Césaire — como o Rebelde, a Mãe e o Coro —, agora encarnadas como trabalhadores negros do teatro, corpos racializados que exigem existência plena.
O conceito cênico é brilhante e segue a lógica da encenação: a luz é a grande protagonista e dispositivo crítico. Inspirado pelas reflexões de Lilia Schwarcz no livro “Imagens da Branquitude”, o desenho de luz de Matheus Brant organiza o espaço com um cubo luminoso central. Dentro dele, alegorias da branquitude (o Primeiro Ator e a Primeira Atriz) são iluminados. Fora, na penumbra, os corpos negros operam o espaço e tentam cruzar essa fronteira de luz.
“A luz é a dramaturgia que revela a separação dos corpos. É por meio dela que a gente torna visível uma estrutura que normalmente não se vê — o racismo que organiza quem está no centro e quem fica à margem”, afirma Negreiro. Sem cenário fixo, a iluminação constrói a narrativa, evidenciando como o racismo opera também no campo do olhar e da representação.
A peça se estrutura como um ensaio interrompido, um meta-teatro do conflito que questiona quem tem o direito à fala, à autoria e ao protagonismo. A fusão do italiano Pirandello, associado ao cânone europeu, com o martinicano Césaire, voz da descolonização, não é mero exercício formal. É um choque deliberado de perspectivas que convida o público a refletir sobre quais histórias são valorizadas e quais corpos são sistematicamente relegados às sombras.

FICHA TÉCNICA:
Direção Geral, Idealização e Concepção: Anderson Negreiro | Dramaturgia: Anderson Negreiro | Tradução “As armas milagrosas” e “Os Cães se calavam”: Daniela Manrique | Direção da peça: Daniela Manrique (COLÔMBIA) e Anderson Negreiro (BRASIL) | Elenco: Barroso, Cainã Naira, Caio Silviano, Ciça Barros, Heitor Goldflus, Josy.Anne, Leandro Vieira, Rita Pisano, Angela Ribeiro, Anderson Negreiro | Desenho de Luz: Matheus Brant | Assistência de Iluminação: Filipe Batista | Operação de Luz: Filipe Batista e Matheus Brant | Trilha Sonora: Dani Nega | Musicista Criadora: Josy.Anne | Músicos Criadores: Barroso, Caio Silviano e Gabriel Moreira | Preparação Vocal e Arranjo de Voz: Renato Spinosa | Operação de Som e Vídeo: Tomé de Souza | Microfonistas: Camila Cruz e Adnes Souza | Videografia: Vic Von Poser | Figurino: Éder Lopes | Costureira: Nininha Lopes | Cenografia: Éder Lopes e Anderson Negreiro | Adereços de luz: Renato Banti | Máscaras: Rafael Érnica | Cenotécnico: Rodrigo Cordeiro | Assistência cenotecnia: Samuca |Aula aberta: Judson Forlan G Cabral | Fotografia: Marcelle Cerutti | Designer Gráfico: Jacob Alves | Marketing Digital: Elã Comunicação | Assessoria de Imprensa: Rafael Ferro e Pedro Madeira | Produção Executiva: Éder Lopes | Produção: Corpo Rastreado – Letícia Alves
SERVIÇO:
“As Armas Milagrosas: seis personagens à procura da existência”
Temporada: 21 de janeiro a 8 de fevereiro de 2026.
Horários: Quartas a sábados, 20h; domingos e feriados, 18h. Sessão extra dia 31/01, 16h.
Local: TUSP – Rua Maria Antônia, 294, Vila Buarque.
Ingressos: Gratuitos, retirados com 1h de antecedência.
Classificação: 14 anos. Duração: 120 min.

