Pouco se debate no espectro das artes liberais, quem está por trás da seleção dos nomes que compõem os rankings dos “melhores do mundo” nas diferentes categorias artísticas. No geral, a atenção do público leitor se volta mais para o resultado do que para a contestação. Contudo, há algo de muito subjetivo no processo de elaboração que envolve a relação das obras elencadas.
No mês de maio, o jornal britânico The Guardian, listou os 100 maiores romances da história segundo uma votação organizada pela equipe de redação no Reino Unido. Dos 380 convidados, 172 pessoas elencaram 10 livros, que de acordo com a sua experiência pessoal de leitura, seriam os 10 maiores romances da literatura, totalizando 1.720 votações.
As obras foram selecionadas de acordo com a frequência com que cada romance apareceu na lista, que embora reúna diversos clássicos da literatura universal que merecem destaque e reconhecimento, levanta inúmeros questionamentos sobre critérios de avaliação, identidade e universalidade.
Dos 100 romances escolhidos, 64 foram escritos por homens e 36 por mulheres, somando um total de 41 europeus entre os selecionados. Desse total, 30 são escritores oriundos das ilhas britânicas (incluindo a Irlanda), sendo 4 britânicos naturalizados. Incluindo os autores russos, que representam a região euro-asiática ou a Europa Oriental, seriam mais 5 escritores de origem europeia.
Na região da América do Norte, são 20 nomes de escritores estadunidenses (incluindo naturalizados) e uma canadense, contra o inexpressivo e injusto número de um único autor mexicano, um colombiano e uma dominicana (caribenha) na América Central e América Latina.
Dos 54 países africanos, somente duas autoras nigerianas e uma zimbabuana foram listadas, todos os outros Estados e grandes autores/as da Literatura Africana foram esquecidos/as. Nem indígenas, nem árabes, nem escritores/as asiáticos/as, com a única exceção de uma escritora sul-coreana que consta na lista.
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Com nove países lusófonos espalhados pelo mundo, nenhuma obra escrita em língua portuguesa foi selecionada. Nenhum/a dos/as grandes escritores/as brasileiros/as foi mencionado/a, nem mesmo José de Alencar (1929-1977), com sua obra magna, o romance “O Guarani” (1857), que inspirou Carlos Gomes (1836-1896) a compor a Ópera do Guarani (1870), a composição musical que apresentou a música brasileira ao mundo.
A leitura é o contato mais íntimo com a subjetividade de outro alguém ou com a cultura de um povo, uma vez que produzir uma obra literária é, ao mesmo tempo, construir identidade e universalidade, singularidade e pluralidade. Considerar como universal a opinião pessoal de 172 pessoas em um mundo com mais de 8 bilhões de habitantes, é desconsiderar o que a literatura significa de mais verdadeiro e imutável, um produto social que habita o inconsciente coletivo de todos os povos.
E você, quantas obras brasileiras escolheria para a lista de “100 maiores romances”?
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