No banquete do Prêmio Nobel, Mo Yan defendeu a ideia de que a utilidade da literatura reside precisamente em sua “inutilidade”. O autor, primeiro chinês a ser laureado com o prêmio, em 2012, voltou ao tema em entrevista ao jornal da UNESP por conta de sua vinda ao Brasil.
Quando perguntado sobre o lugar da literatura num mundo cada vez mais dominado pela tecnologia e o que ela pode oferecer aos leitores que eles não encontram em outras fontes, o autor afirmou que “comparada à ciência e à tecnologia, a literatura é uma disciplina inútil”.
Segundo Mo Yan, o que ele quis dizer com isso é que “a literatura não pode ter um impacto direto na vida das pessoas da mesma forma que a ciência e a tecnologia”. Para exemplificar, o autor fez uma comparação entre os carros que no passado podiam viajar a 30 quilômetros por hora e hoje podem atingir 200 quilômetros. A ciência, sendo assim, teria um impacto direto na vida cotidiana, permitindo que as pessoas sentissem o progresso em primeira mão.
“A literatura toma o ser humano como tema, concentrando-se principalmente nas emoções humanas. Mudanças materiais tão vastas no mundo externo certamente influenciarão as transformações nas emoções internas das pessoas. Muitos valores mudam com o progresso tecnológico, mas acredito que essas mudanças são ajustes sutis; elas não se tornam repentinamente perceptíveis. As emoções humanas, desde o “Dom Quixote” de Cervantes, escrito há centenas de anos, até os romances que escrevemos hoje, permanecem fundamentalmente consistentes. Como leitores contemporâneos, ainda nos comovemos com as representações sinceras das emoções nas obras de escritores antigos.”
Ou seja, a literatura age de outro modo, mais lento e profundo ao se voltar para as emoções humanas.
Ao longo da entrevista, que você pode conferir aqui, o autor falou sobre outros temas, como seu pseudônimo, já que seu nome de nascença é Guan Moye e, como eu sempre gosto de lembrar, um nome chinês nunca é “só” um nome e “莫言” (Mo Yan) significa “não fale”. Ele citou outros motivos para a escolha, mas destacou que, em primeiro lugar, acredita que uma pessoa, especialmente um escritor, deve falar o mínimo possível e escrever o máximo possível; o ideal é colocar tudo o que se tem a dizer por escrito.
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A visita do autor ao Brasil se dá em razão do Fórum Unesp 50 Anos. Na fala de abertura da conferência, Mo Yan, traçando paralelos entre a escrita literária e o fluxo de um rio, sugere que a água simboliza o tempo, e as margens guardam contextos históricos e modos de vida que frequentemente inspiram narrativas ficcionais. Citou García Márquez e o rio Magdalena em “Amor nos Tempos de Cólera” como exemplo, conectando-o com memórias de sua infância, na China, onde ouviu pela primeira vez sobre o rio Amazonas, e com as lembranças da experiência de navegar por um afluente do rio durante sua primeira viagem ao Brasil, em 2014, por conta da final da Copa do Mundo.
Mo Yan também conversou com o jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto e falou sobre suas referências literárias, que incluem, além de García Márquez e outros latino-americanos, as narrativas orais ouvidas durante a infância.
“Na minha vila não havia eletricidade, então as casas eram iluminadas por lamparinas. Sob essas luzes, os idosos contavam histórias fantásticas para os mais jovens, muitas vezes envolvendo lendas antigas, fantasmas e outros seres mágicos”.
Na conversa, o autor destacou que, ainda que sua escrita, marcada pela mistura entre elementos fantásticos e pessoas e locais concretos, tenha sido impactada por essas tradições orais, ele é um atento observador da realidade, e que um escritor “não tira as coisas da cabeça”. “Quando descrevo rios, estou lembrando de todos os lugares que visitei. Quando escrevo um personagem, ele é composto por partes de várias pessoas que conheci ao longo da vida”, afirmou.
Como fala final, o escritor refletiu sobre uma de suas obras, na qual mistura elementos autobiográficos e ficcionais. “Os escritores têm o hábito de criar ficção e inventar histórias, por isso transformei minha autobiografia em um romance”, comentou. “Mas acredito que todo romance também é uma autobiografia. Para compreender um autor, é preciso reunir todos os seus livros, como peças de um quebra-cabeça.”
No Brasil, temos dois livros do autor traduzidos por Amilton Reis: o romance “As rãs”, pela Companhia das Letras, e “Mudança”, pela Cosac Naify, que o autor classificou como uma autobiografia romanceada. Além disso, na antologia “A nova literatura chinesa: Lume”, publicada pela Editora Unesp, há uma história curta do autor, “Um sonho”, com tradução de Giorgio Sinedino.
Fontes:
https://jornal.unesp.br/2026/05/12/a-utilidade-da-literatura-reside-precisamente-em-sua-inutilidade/