“Josephine”(2026) analisa o mundo infantil diante da violência

Gemma Chan, Mason Reeves and Channing Tatum appear in Josephine by Beth de Araújo, an official selection of the 2026 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Greta Zozula.

Qual o momento certo de se apresentar ao mundo tal como ele é para uma criança? Como dizer das diversas violências, injustiças e iniquidades que nos cercam? No caso de Josephine (Mason Reeves), de 8 anos, a escolha é feita por ela, do modo mais brutal possível. Enquanto caminhava pelo parque com o pai, Damien (Channing Tatum), a criança se afasta por um breve momento e acaba testemunhando um terrível crime sexual.

A situação logo é interrompida com a chegada do pai, que persegue o estuprador e chama a policia, que rapidamente captura o criminoso. Contudo, o estrago na psique de Josephine está feito, e a memória do evento causa uma série de problemas para a convivência familiar.

Josephine é o segundo filme da diretora sino-americana-brasileira Beth de Araújo, vencedor do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio da Audiência de Sundance. O longa é inspirado nas experiências da própria diretora, que assim como sua protagonista, testemunhou um crime similar quando era muito nova.

Gemma Chan, Mason Reeves and Channing Tatum appear in Josephine by Beth de Araújo, an official selection of the 2026 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Greta Zozula.

A produção navega a linha entre drama familiar e thriller. Os pais de Josephine, Damien e Claire (Gemma Chan) encontram enorme dificuldade em lidar com a situação, em parte pois possuem maneiras quase opostas de lidar com o caso. Damien quer buscar seguir a rotina de sempre, confiando que, com o tempo, tudo se ajeitará, além de sempre reafirmar sua posição como o protetor da família: “Nunca deixarei algo assim acontecer com vocês”, afirma ele às duas. Claire, contudo, sabe que a realidade é um pouco mais difícil – diversos momentos deixam claro que ela é sobrevivente de violência sexual –  e se divide entre ser franca com a filha e preservar um pouco da inocência.

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No meio dos dilemas enfrentados pelos pais, o comportamento da própria Josephine muda. Beth de Araújo firma o filme na perspectiva da criança – o filme abre com uma cena em primeira pessoa, algo que se repetirá ao longo da narrativa – e acompanhamos diretamente como a falha dos pais em comunicar corretamente a situação, muda a criança. “Nenhum de vocês vai conseguir me estuprar!” diz ela após vencer uma corrida entre os colegas da escola, um dos diversos comportamentos gerados pelo trauma. 

Josephine desafia a empatia do espectador ao expor as contradições de seus personagens. A postura protetora de Damien revela-se, aos poucos, uma forma de negação que isola ainda mais a filha, enquanto Claire, marcada por sua própria vivência de violência, tenta prepará-la para um mundo hostil e acaba projetando seus medos. O próprio comportamento de Josephine testa as nossas simpatias: parte do aspecto de thriller do longa se dá pela postura errática da protagonista, que toma forma de atitudes agressivas, explosões de raiva e reações imprevisíveis diante de situações cotidianas.

Nesse sentido, Josephine se encerra como um filme de rara honestidade emocional, que entende o trauma não como um obstáculo a ser superado rapidamente, mas como uma presença persistente que redefine afetos, rotinas e modos de ver o mundo.

Texto de Cobertura do Festival de Sundance 2026

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