Repensar os papéis de gênero a partir das metamorfoses de Orlando, de Virginia Woolf

A obra Orlando, da escritora britânica Virginia Woolf, de 1928, publicada em 2022 pela editora Darkside nos faz um convite a repensar os papéis de gênero através de uma narrativa bastante criativa e inovadora.
O livro é construído como se fosse uma biografia na qual seu narrador muitas vezes tece comentários peculiares e irônicos sobre as ações e sentimentos de Orlando, que é o protagonista deste enredo. A história se inicia com Orlando sendo um personagem masculino, um nobre jovem inglês. Contam-se acontecimentos sobre sua relação conturbada com os demais, sobre sua rebeldia e seus envolvimentos amorosos. Um dos casos mais marcantes, que é relembrado várias vezes no decorrer do livro é sua paixão por Sasha.


Em determinado momento da narrativa, entretanto, algo surpreendente acontece, ao acordar certo dia, Orlando percebe-se mulher. Tal alteração, embora tão drástica, não causa nenhuma mudança na personalidade ou modo de agir da personagem.


“Orlando havia se tornado uma mulher – não há como negar. Mas, em todos os outros aspectos, Orlando permanecia exatamente como ele havia sido antes. A mudança de sexo, embora modificando seu futuro, nada fazia para modificar sua identidade”

Leia também: As 10 melhores citações de Orlando, de Virginia Woolf



A partir desta mudança, a personagem percebe que há alterações no modo em que é tratada, o que a leva a questionar suas próprias concepções sobre as mulheres, que ela possuía quando era do gênero oposto. Orlando viaja sozinha e descreve seus sentimentos e percepções, analisando os prejuízos e privilégios de sua posição. Ela passa por diversas situações que se mostram como desafiadoras, porém que lhe permitem ampliar suas perspectivas.

Ela sente recaírem sobre si as expectativas da sociedade sobre o que deveria fazer para cumprir com o papel pertencente ao seu novo gênero, isto lhe provoca uma grande angústia:



“Relembrava como, quando era um rapaz, insistira em que as mulheres deviam ser obedientes, castas, cheirosas, e vestidas com requinte. “Agora, eu mesma tenho que pagar por esses desejos”, refletiu; “pois as mulheres não são (julgando por minha própria curta experiência do sexo) obedientes, castas, cheirosas e vestidas com requinte por natureza. Elas só podem alcançar esses encantos, sem os quais não desfrutam de nenhum dos deleites da vida, por meio da mais tediosa disciplina.”


Ao longo de sua vivência feminina, a personagem se dá conta de todos os sacrifícios que precisaria fazer para estar de acordo com o que se espera dela, de como deveria se empenhar em prol de agradar aos demais, abdicando de seus próprios desejos.


Apesar disso, ela foge dos estereótipos, agindo de maneira a desafiar as normas em muitos momentos, mantendo sua paixão pela liberdade e procurando viver do modo que lhe seja mais aprazível. A personagem, inclusive, dedica-se intensamente à escrita nos capítulos finais.

Esta edição conta com um artigo de Luci Collin, O amor que ousa, sim, dizer seu nome, no qual é possível conhecer mais sobre Vírginia, sobre o processo de escrita de Orlando, assim como obter análises mais profundas acerca das questões levantadas pela narrativa. É importante mencionar que esta obra é semi-biográfica, já que a personagem de Orlando teria sido inspirada em Vita Sackville-West, uma poetisa e romancista com quem Virginia havia vivido um romance.


Orlando é uma obra que merece ser lida e relida, pois nos coloca em contato com muitos dilemas ainda presentes na sociedade, nos faz refletir sobre todas as pequenas coisas que cercam as normas sociais do que seria o correto a ser seguido e também a dificuldade e a coragem em se libertar de tais regras. Além da questão de gênero, há ainda uma ponderação profunda sobre a busca de si mesmo, de como o eu constitui-se como sujeito e as teias presentes nesse espaço interno, íntimo, da qual somos feitos.

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