“A Metade de Nós (2024)”: filmar a perda de um filho é ouvir o grito do silêncio

Nos últimos anos, falei, li e assisti muita coisa sobre luto porque estive vivendo eu também um luto e tentando compreender como era aquilo que mexia tanto com nossa força de ver, viver e existir no mundo. Foi isto que me interessou em assistir A Metade de Nós, longa metragem dirigido e co-roteirizado por Flávio Botelho.

Ao procurar sobre o filme, acabei me conectando ainda mais ao saber que foi inspirado numa experiência pessoal do diretor cuja irmão se suicidou em 2007. Ele próprio disse que fez o filme pensando na forma como lidou com a perda e como foi esse processo. E o filme é realmente sobre um processo de perda, mas não apenas um, mas múltiplos, capturando através das imagens as diversas camadas do luto. 

Leia também: 1798: Revolta dos Búzios (2019): documentário didático sobre um episódio menos conhecido da nossa História

A Metade de Nós (2024), de Flávio Botelho, conta a história de um casal mais velho, proximos da terceira idade, que perde o único filho temporão vítima de suicídio. Após este ato, os dois precisam encarar a realidade e lidar com este sentimento de perda. Francisca e Carlos, aos poucos, vão entendendo que tratam a questão de forma muito diversa: ela prefere não falar sobre o que aconteceu, mas culpa o médico psiquiatra que deu ao filho os remédios. Francisca vê o absurdo na morte e não se conforma. Enquanto isso, Carlos prefere se voltar para o resto da presença do filho: os quadros pintados, o apartamento, os amigos e, se apegando a isso, se sente compartilhando um pouco do que ainda resta da vida de seu filho. 

O que é mais bonito no filme é que as escolhas estéticas de Botelho escaparam de fazer um filme frio, distante, como é comum em casos de suicídio. Pelo contrário, o filme tem algo de voyeurístico, na medida em que acompanha e espia com a câmera que treme próxima aos personagens não só o vazio da vida após a perda do filho, mas as nuances dos rostos e gestos pequenos, mas que saltam gigantes em nossos olhos. O filme cria, inclusive, uma recombinação entre o tédio dos pequenos gestos do cotidiano e o sentimento de perda, mostrando como essas camadas se sobrepõem na experiência dos dois idosos.

Além disso, registra com maestria um certo deslocamento social que o luto traz, fazendo com que os corpos daqueles personagens, por mais que estejam em ambientes cercados de pessoas, estão ali pela metade, sem uma parte que falta que lhes foi arrancada. 

Ainda, espelha a perda do filho através de imagens das perdas de si próprios com a passagem do tempo. Em uma das cenas mais belas do filme, Carlos, interpretado por Cacá Amaral, enche a cara e tem uma crise de choro embaixo do chuveiro. Francisca, personagem de Denise Weinberg, resgata-o e leva-o para o quarto. O corpo frágil, de cuecas, desse senhor mais velho bêbado que chora sem conseguir emitir nenhuma palavra clara, mostra que a passagem do tempo inescapável que só levou o filho antes, mas também está levando e levará aquilo que resta de vida.

A Metade de Nós não é um filme sobre grandezas. Até porque o luto é um grande vazio pequeno. Um eco seco dentro da gente. Vem, solapa sem deixar às vezes sequer dor. E quando vai a gente nem percebe que foi. Esses dois personagens, duas metades incompletas, perderam parte de si, assim como nós, que levamos conosco tanta gente também, andamos por aí sós, como metades. Metade de nós e metade de outros. 

Veja o trailer do filme aqui:

Related posts

9 filmes palestinos que você precisa conhecer (e ver)!

“Paradise Now” (2005): palestino Hany Abu-Assad retrata conflito e a paz dividindo o mesmo lado

“O que Resta do Tempo” (2009): identidade e pertencimento em uma Palestina tomada