Livro resgata histórias de censura no Brasil com Chico Buarque, Beth Carvalho e B. Negão

O nome do livro é “Mordaça” e o tema já foi amplamente abordado: a censura durante a ditadura militar. Porém, com o tema cada vez mais atual, João Pimentel e o jornalista e escritor Zé McGill encontraram novas formas de contar essa página terrível da nossa história.

No total, são 29 capítulos que trazem depoimentos dos próprios artistas como Chico Buarque, Beth Carvalho e B. Negão. São eles que relatam aos autores como viveram sob a ditadura e recordam as situações (algumas pouco conhecidas) vividas com a Censura. Mas qual seria a novidade desse livro?

A novidade está em reunir todos esses casos num livro só e pelas vozes dos artistas — diz McGill, em entrevista ao Globo — Não há a pretensão de ser um registro definitivo, mas é um registro histórico-musical importante, que poderia ser lido nas escolas. Não é apenas para os que viveram a época.

Um dos motivadores a lançar o livro é o momento atual do país. “Mordaça” relembra um período que é negado por muita gente que exalta o regime militar e seu período mais violento, o iniciado com o AI-5, em 13 de dezembro de 1968.

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— Acho que a gente fez o livro só por causa disso — afirma Pimentel. — Estamos vendo pessoas que negam censura, tortura, ditadura.

Depoimentos exclusivos do livro

O original da censura de Cálice, canção de Chico Buarque e Gilberto Gil

“Acho que toda aquela marcação com o meu nome começou mesmo quando aprovaram a letra de ʻApesar de Vocêʼ” – Chico Buarque

“As pessoas mais inteligentes não entram na atividade da censura porque é uma atividade bastante ridícula” – Caetano Veloso

“Ele não resistiu e morreu por lá mesmo, do nosso lado. Estávamos encapuzados, não víamos nada, mas ouvimos a conversa dos torturadores” – Geraldo Azevedo

“Lembro que, no dia do golpe, os vizinhos acenderam velas em apoio aos militares. Engraçado como o Brasil não muda mesmo” – Joyce Moreno

Sobre o livro

O livro reúne alguns dos casos mais emblemáticos sobre o incessante embate entre música e censura, arte e autoritarismo, no Brasil. Escrito a partir de depoimentos exclusivos de alguns dos nomes mais importantes da música brasileira, colhidos pelos autores entre 2018 e 2021, Mordaça é um registro amplo e contundente.  

Recheado de personagens marcantes e casos surpreendentes, dramáticos, trágicos ou até engraçados, mas sempre narrados com uma linguagem leve, o livro demonstra como artistas foram perseguidos e silenciados e como fizeram para burlar os absurdos impostos pela censura.

Nas páginas de Mordaça, histórias de personagens de gerações e gêneros musicais tão distintos quanto Chico Buarque (que explica, por exemplo, como o samba “Apesar de Você”, aprovado por engano, foi o estopim de seus problemas com a Censura nos Anos de Chumbo) e Philippe Seabra (da banda Plebe Rude, que, já no período de abertura política, teve a audácia de escrever uma música intitulada “Censura”);

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Paulo César Pinheiro (que misturava suas letras às de outros autores da gravadora para conseguir as liberações) e Leo Jaime (que fala sobre sua hilária relação com a censora Solange Hernandes, a Dona Solange); Beth Carvalho (em uma de suas últimas entrevistas) e Jorge Mautner (que conta que, quando esteve preso, os militares tentaram lhe dar LSD como parte de um “experimento”);

Geraldo Azevedo (que dá a sua visão sobre o que aconteceu com outro Geraldo, o Vandré, além de relatar as diversas torturas que sofreu enquanto esteve preso pelos militares) e o ex-funcionário da RCA, Genilson Barbosa (que diz como fazia para subornar censores); Gilberto Gil (que compara os censores a guardas de fronteira) e BNegão (que, fazendo uma ponte com o presente, denuncia um caso de censura ao seu show no Mato Grosso do Sul, em 2019).

Muitas vozes saem das páginas deste valioso registro histórico-musical. Vozes que servem como alerta para todas as gerações e que devem ser escutadas em tempos de censura velada ou no caso de a censura oficial voltar a assombrar o Brasil.

Fonte

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