As cidades.
São 20 folhas dobradas ao meio, (in) seguras por uma capa verde e “Desenhos para situações variáveis”, de Patrícia Stuart. Faz parte do Círculo de Poemas e recomenda-se que “toda sorte de matéria verbal pode ser lida como poema. E deve”, e eu acrescento que o que não for matéria verbal também deve ser lido como poema.
Em um formato nada convencional, As cidades é composto por poemas ainda menos convencionais, que podem ser lidos e relidos diversas vezes e nisso há mais poesia. Primeiro, porque os nomes das cidades brasileiras são lindos; em segundo, porque recitá-los traz uma satisfação sem igual.

Caetano W. Galindo, estudioso da língua portuguesa, nos contempla com palavras que fazem parte do nosso cotidiano e ainda mais do nosso imaginário. Assim, enquanto eu leio, reconheço as minhas cidades e outra pessoa que lê reconhecerá as suas: poesia.
A poesia que está presente nesses caminhos que nos afastam e nos aproximam. As cidades por onde passei, aquelas que desconhecia, mas gosto de pronunciar, porque me afeiçoei ao som: Lu-mi-ná-ri-as.
A ordem alfabética me deixa um suspiro guardado no peito, porque as cidades estão espalhadas, mas neste livro, se unem pelas letras. Como pode,
Ibiapina, Ibicuí
Ibirataia
Icém, Ichu, Icó, lepê
Imaculada
Inocência
Ipixuna
Iracema
Iraí, Irará, Irati
Irene
Irituia, Itaara, Itanhém
Itapipoca
Itobi, Itueta
Iuiu
Ivinhema (p.13)
todas elas juntas, quase amarradas e intercaladas pelos rios, matas, divisas e vales?
As cidades e suas ausências
A minha queixa ao passar pelas cidades de Galindo é não encontrar Canavieiras, Ilhéus, Itabuna, Itacaré, Porto Seguro. Desejei outras cidades, as grandes, mas descobri ao final da leitura, que o autor, preferiu as interiores, as menores, as queridas.

Sobre a escrita, não me recordo de ter visto algo assim em outro texto. Sobre a poética, apesar de incomparável, me traz uma lembrança de como encontrei poesia em outros textos, outros tempos. “Muitos Capões” (p. 17)
Ao ler “As Cidades”, nos deparamos com uma poética que está no campo da imprevisibilidade, como quando vemos poesia em uma casa antiga na rua lá de casa, ou no dente-de-leão isolado na grama verde, ou na fotografia colada em uma parede esquecida.
Ao tentar definir uma métrica perfeita entre as palavras, este talvez seja o primeiro passo para uma construção sem nenhuma poesia. Falta por vezes sentimento, pequenos deslizes e excede em organização. A métrica, entretanto, não precisa deixar de existir; ela só deve ser na medida do sentir, como podemos perceber no verso:
“Passabém, Passa-e-Fica, Passa Quatro
Passa-Sete, Passa Tempo, Passa Vinte” (p. 20)
E ao ler em voz alta, é possível perceber a sonoridade de cada sílaba, a partir do “passa”. Depois, ele faz de novo e nos oferece a cadência em “Soledade, Soledade, Solidão” (p. 23)
As cidades, é um desses livros que a gente deixa em algum cômodo da casa e como quem não quer nada, a gente pega, lê de novo e , vez em quando, recita em voz bem baixinha e se imagina nos lugares, lembra de uma ou outra cidade e pensa nos belos momentos vividos nesses lugares e no que se pode viver aqui ou acolá. Poesia pura.

