Há espetáculos que cruzam nossas vidas e nos deixam arrebatados, não pela sua complexidade técnica, sua execução perfeita, ou pelo seu tema da moda. Mas pela forma como os assuntos são conduzidos e nos atravessam. Triste! Triste…Triste? é um desses espetáculos, onde é difícil sair sem um atravessamento.
A peça narra a jornada de um filho que recebe a notícia de que sua mãe tem apenas um mês de vida. Uma descoberta inesperada o obriga a revirar o passado para conhecer quem essa mulher foi, antes que o tempo acabe. Obcecado em preencher essas lacunas, os limites entre as suas memórias e as da mãe começam a se confundir. Quando uma mãe deixa de existir, o que sobra de um filho?
A dramaturgia de Nicolas Ahnert em Triste! Triste…Triste? constrói uma experiência teatral profundamente comovente, devido à forma visceral e delicada como conduz temas como o luto antecipatório e a busca pela memória. A peça, inspirada na obra densa de Gabriel Abreu, “Triste não é ao certo a palavra”, estrutura-se como um mosaico narrativo metateatral que espelha o próprio conteúdo da trama: a investigação obsessiva de um filho sobre o passado da mãe em seu leito de morte. É justamente essa escolha formal – a fusão progressiva e confusa das memórias do filho com as da mãe – que materializa no palco a busca desesperada por significado e a pergunta central “o que sobra de um filho quando uma mãe deixa de existir?”. O resultado é um espetáculo que, com suas doses de humor, consegue “atravessar” o público, tornando-o parte integrante desse processo de construção e desvanecimento da memória.
Já na direção, o trabalho de Nicolas se revela notavelmente preciso e coeso, atuando como a força central que harmoniza todos os elementos da encenação em torno do tema central da memória líquida e do luto. Sua visão criteriosa é evidente na forma como articula a atuação equilibrada de Thalles Cabral com a potente metáfora visual dos elementos cênicos. O jovem diretor demonstra um domínio conceitual aguçado, traduzindo a estrutura de mosaico narrativo da dramaturgia em uma experiência cênica imersiva, onde a fusão entre as memórias do filho e da mãe não é somente contada, mas visceralmente sentida pelo público através da sintonia da interpretação, espaço e som. Sua direção, não se limita a organizar cenas, mas a conduzir com uma mão segura a jornada emocional que confunde os limites entre palco e plateia, lembrança e esquecimento.
O trabalho de Thalles Cabral constitui o pilar central que sustenta e materializa a complexa dramaturgia do espetáculo. Thalles, ao dar vida ao filho em busca das memórias da mãe, entrega uma atuação de notável nuance e profundidade, transitando com maestria entre a verborragia inicial — onde demonstra um domínio técnico e uma preocupação clara com a projeção e clareza vocal — e as camadas emocionais mais sutis que a trama exige.
Sua performance é dinâmica e orgânica, conseguindo equilibrar uma interpretação focada no texto com a quebra da quarta parede, guiando o público através do labirinto de memórias de forma interativa. Além da excelente incorporação vocal do texto, o ator complementa sua construção com uma plasticidade cênica delicada e refinada, que confere veracidade e peso emocional à jornada do personagem, tornando palpável a sua dor, sua obsessão e a confusão entre as próprias memórias e as de sua mãe, essencial para o “atravessamento” que a peça provoca.


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Os elementos cênicos de Triste! Triste…Triste? me intrigaram muito, pois operam em perfeita sintonia com a dramaturgia, transcendendo a função decorativa para se tornarem agentes narrativos fundamentais na construção da atmosfera de memória e luto. A cenografia de Pazetto, centralizada em um espelho d’água que atravessa o palco, é uma metáfora visual potente e orgânica: o ator, ao transitar dentro da água, materializa fisicamente a ideia de memória líquida e inapreensível, que escorre entre os dedos do filho em sua busca obsessiva.
Esta imagem poética é amplificada pela trilha sonora de Alê Martins e a iluminação de Nicolas Caratori, que atuam como entidades silenciosas e onipresentes, moldando sensações e guiando a emotividade do público com extrema precisão. Juntos, esses elementos técnicos não apenas sustentam, mas encarnam no palco o tema central do espetáculo, criando um ambiente sensorial imersivo onde a fronteira entre lembrança e esquecimento, assim como entre a realidade do filho e a da mãe, se dissolve de forma tão visceral quanto na narrativa.
Triste! Triste…Triste? é muito mais do que um espetáculo sobre a perda, é uma experiência coletiva sobre a construção e a fragilidade da memória. Nicolas Ahnert, com sensibilidade e precisão, entrega uma encenação na qual todos os elementos – da atuação sutil e potente de Thalles Cabral à cenografia simbólica e à atmosfera criada por trilha e luz – convergem para criar um todo orgânico e comovente. A peça não se contenta em narrar uma história de luto, ela nos convida a mergulhar, junto ao filho, nas águas turvas do passado, e nos faz sair do teatro não apenas reflexivos, mas transformados. É daquelas raras obras que, longe de somente serem assistidas, nos habitam – e é nesse atravessamento que reside sua maior conquista.
Para mim, essa é uma das principais obras do teatro paulistano de 2025, e acredito que temos dois jovens artistas que merecem atenção no cenário atual, pela sua entrega e potência. Nicolas Ahnert e Thalles Cabral não somente realizaram um espetáculo completo, mas se colocaram como vozes essenciais para o futuro da cena teatral brasileira, demonstrando que a grande arte nasce justamente quando a ousadia criativa e a profundidade humana se encontram.
Ficha Técnica:
Texto e Direção: Nicolas Ahnert.
Elenco: Thalles Cabral.
Cenário e Figurino: Pazetto.
Iluminação: Nicolas Caratori.
Trilha Sonora: Alê Martins.
Direção de produção: Nicolas Ahnert.
Produção: Laura Sciulli e Victor Edwards.
Realização: ZERO TEATRO.

