“Suçuarana”(2025) é road movie brasileiro sem destino certo

Talvez uma das narrativas mais antigas da história da humanidade seja a necessidade de encontrar, ou retornar a, algo que chamamos de “lar”. Na Odisséia, de Homero, seu herói, Odisseu (ou Ulisses) tem como objetivo maior tornar a Ithaca, sua terra natal. A jornada de Dora (Sinara Teles) em Suçuarana é parecida, com a protagonista em busca do local que dá título ao filme, mas que não se trata de seu lugar de origem, mas sim o de sua mãe, há muito falecida.

Contudo, a existência de Suçuarana é incerta. A única prova de sua existência é uma foto de sua mãe, com o nome do local escrito atrás, e a outra informação que recebe afirma sua inexistência. “Eu conheço tudo por aqui”, diz um motorista interpretado pelo ator Carlos Francisco, “mas nunca ouvi falar desse lugar”.

Contudo, Dora segue. Não sabemos sua motivação para chegar nesse lugar, só que ela está na jornada já há algum tempo. O longa abre com uma cena que será muito comum ao longo da narrativa, que é Dora se preparando para sair de onde está  rumo a outro canto. Sua vida cabe na mochila, e qualquer coisa fora disso precisa ser descartada. Sua primeira missão é encontrar um dono para o cachorro que a acompanha, Encrenca (Tony Stark), mas não obtém sucesso. Sem opção, ela o deixa na beira da estrada, enquanto pega um ônibus para sua próxima parada, seja onde for.

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Suçuarana possui a estrutura de um road movie, só que mais errante que o de costume. As localidades do filme são marcadas por sua natureza transicional, quase nunca de permanência. Uma rodoviária, um bar à beira da estrada, e por aí vai.

Temporários também são os personagens, com poucos durando muito mais que uma ou duas cenas, mas que mesmo assim dividem muitos sentimentos. Uma cobradora de ônibus relata a vida dura que vive, afirmando “não tá fácil para ninguém”, frase que se repete na boca de outra personagem mais à frente, a dona de um bar, mas em outro tom. Se a cobradora parece utilizar a expressão como modo de solidariedade, a proprietária é o oposto.

Mas nem a gentileza ou a rudeza alheia parece afetar muito a jornada da protagonista, que continua seguindo em frente. Eventualmente, ela encontra um lugar para, talvez, criar raízes. É um dos poucos momentos que Suçuarana para, mas a imobilidade segue carregando pautas presentes no movimento. A precariedade encontrada na estrada se faz presente na comunidade que a acolhe, que ocupa o espaço de uma antiga empresa de mineração, cujo maquinário só serve como ferro-velho, atividade que sustenta as pessoas que ali estão.

No fim, Suçuarana se afirma menos como uma narrativa sobre chegada e mais como uma reflexão sobre o deslocamento contínuo. Ao estruturar-se em passagens fragmentadas, em cenários e personagens transitórios, o filme recusa o arco clássico do road movie, que quase sempre implica em uma forma de destino, e se aproxima de uma experiência quase anti-narrativa, em que o movimento se torna o verdadeiro núcleo dramático. A suposta existência de Suçuarana funciona como motor simbólico, mas sua materialização importa menos do que a forma como a busca revela precariedades sociais, laços breves e a persistência de uma personagem que carrega apenas o essencial.

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