“A Ordem do Tempo”(2023): Frivolidades no pré apocalipse

Há algo de instigante na possibilidade do fim do mundo. Como o pensador Frederic Jameson já afirmou: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Não nos faltam obras que imaginem o apocalipse e o pós apocalipse de diversas maneiras, e a reflexão sobre esse cenário só se torna mais pertinente, afinal, quantos desses filmes não se assemelham ao cenário que todos nós encaramos durante a pandemia? Quantas cenas de destruição não vimos acontecer no Rio Grande do Sul que, em nossas mentes, até então eram reservadas para os filmes desastre de Hollywood, onde um pai de família, de alguma maneira, salvaria o dia, garantindo o amanhã de sua família?

A Ordem do Tempo (2023), de Liliana Cavani, aposta num caminho mais sutil para esse cenário, onde o armagedon é uma possibilidade que ronda seus personagens, um grupo de amigos que se reencontram numa casa de praia quando recebem a notícia que um gigantesco meteoro está vindo em direção à Terra, capaz de eliminar toda vida no planeta. Não há heróis, grandes planos para interceptar ou destruir o meteoro, só pessoas comuns encarando a possibilidade do fim da existência.

Pense em Melancolia (2011), de Lars Von Trier, onde a iminência do fim não é o foco, mas sim o impacto desse evento na vida das pessoas, mas troque o estudo da depressão por…bom, nada muito específico. A diretora e roteirista Liliana Cavani parece não estar interessada em emoções muito fortes nesse contexto, e seu grupo de personagens parece pouquíssimo afetado pelas circunstâncias.

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Apesar disso, há um interessante esquema de classes em jogo. A informação do meteoro aparece primeiro por meio de Isabel (Mariana Tamayo), empregada da casa que está preocupada com sua família no Peru, e anuncia que quer voltar para vê-los. Outro personagem, Viktor (Richard Sammel), percebe a pequenez de sua vida como corretor de ações, quando descobre que duas clientes suas cometeram suicídio. Uma pena que esses elementos logo saem de cena, no caso de Viktor, literalmente, enquanto Isabel volta a ser uma serviçal sem voz, servindo a todos da casa com um sorriso no rosto. Nem parece que, meia hora antes, ela estava pronta para pegar um avião para seu país natal.

Fora desses momentos mais emocionalmente intensos, A Ordem do Tempo se contenta em conversas mornas e cenas genéricas de “aproveitar a vida”. O grupo dança ao som de Frank Sinatra em um momento, riem juntos vendo Em Busca do Ouro (1925) ,de Chaplin, em outro, mas a pouco choque diante de um momento tão dramático. Até existem certas revelações, como a esposa de Viktor, Paola (Ksenyia Rappoport), tendo um affair com Enrico (Edoardo Leo), mas o desenvolvimento desse relacionamento acontece de modo tão casual que não chega a ser registrado.

Me pego pensando se a ideia de colocar a possibilidade da chegada do meteoro não foi um truque para manter os espectadores minimamente curiosos com o desenrolar da trama, pois fora esse elemento, há pouco o que se apegar. O fim do mundo é tão supérfluo ao filme que, ao final, o meteoro não colide com a terra, e isso muda muito pouco a narrativa. Os personagens acordam, comentam “estamos vivos”, e vão à praia. Não há transformações, conflitos, nem nada. É um quase fim do mundo educado, de bom gosto, e incrivelmente sem graça.

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