O tempo do Lobo (2003): Michel Haneke e o mundo das catástrofes



Hoje início minhas contribuições ao jornal Nota. Desse modo, decidi-me por escolher um filme que me marcou e que parece que ao passar dos anos seu assunto vai se tornando mais próximo de nós e por isso sua força reflexiva continua inesgotável. Assim acontece com o filme O tempo do lobo (2003), de Michel Haneke. O diretor alemão, em uma entrevista publicada no Le Monde no ano de lançamento do filme fazia uma crítica à indústria hollywoodiana sobre os “filmes de catástrofe” e enxergava o que tinha acabado de produzir como “um contra-projeto ao cinema hollywoodiano”.(1) De fato, nele não vemos nenhuma grande explosão espetacular, nenhuma invasão extraterrestre ou qualquer coisa do gênero. Sequer sabemos direito o que aconteceu para que a vida das pessoas chegasse àquelas situações limites.

Diante das câmeras, temos uma família composta por um casal, Georges e Anne, e pelos seus dois filhos, Eva e Benny. O filme inicia com a chegada deles a sua casa de campo. A princípio temos um estranhamento, pois a câmera nos dá a indicação de que alguma coisa aguarda aquela família em sua casa.

Com efeito, quando iniciam o descarregamento dos mantimentos e adentram na casa são surpreendidos por um homem que aponta uma arma em direção a Georges. Logo percebemos que não se trata de uma tentativa de roubo comum. Aquele homem está acompanhado de uma mulher, uma criança e um bebê. Numa tentativa de proteger seus filhos Georges e Anne negociam a saída deles e pedem que os esperem no carro. Georges tenta negociar com o homem e acalmar os ânimos, pois sabe que não há o que fazer, mas não adianta.

‘“Tudo o que faço não tem sentido se a casa queima’. E, mesmo assim, justamente enquanto a casa queima, é preciso continuar como sempre, fazer tudo com cuidado e precisão, talvez com ainda mais zelo – mesmo que ninguém perceba. Pode ser que a vida desapareça da face da terra, que nenhuma memória do que foi permaneça, para o bem e para o mal. Você continua como antes, é tarde para mudar, não há tempo”.
Giorgio Agamben

O homem dispara na cabeça de Georges sem qualquer motivo a não ser o da própria situação desesperadora. Após isso, Anne em estado de choque com o rosto manchado de sangue, é ordenada pelo homem a sair dali com os seus dois filhos e o corpo do marido, sem carro e sem qualquer mantimento. Percebemos ali que algo aconteceu e que a família parecia não saber até se deparar com a situação que acabamos de descrever. Notamos isso na cena seguinte, em que Anne busca a ajuda de um vizinho, conta o que havia ocorrido e afirma que era dever dele ajudar. Ele não ajuda e a expulsa dali questionando se ela realmente não sabia o que estava acontecendo. Nesse momento, percebemos que a ordem do mundo estava suspensa e que os valores da civilização tinham decaído.

Afinal, após buscar ajuda e esta lhe ser recusada pelo vizinho, Anne e seus filhos são obrigados a caminhar pelos dias cinzentos e opacos e noites de caligem em busca de refúgio. Vivendo esta situação acabam encontrando um menino que busca sobreviver diante o colapso do seu entorno e que os leva a uma estação de trem, onde ouviu dizer que os trens estavam parando. Lá se depararão com outras pessoas que têm a mesma esperança que o trem chegue e os receba em troca de “coisas úteis”.

Leia também: “Faustão” (1971): O cangaço Shakesperiano de Eduardo Coutinho

Notamos ao decorrer do filme o processo de descivilização e asselvajamento dos indivíduos. Como sinaliza Norbert Elias “Descivilização significa então uma transformação em direção oposta, uma redução do alcance da simpatia [por outros seres humanos]”.(2) Eis a deflagração do estado de natureza, em que os homens estão em uma disputa desenfreada pela sobrevivência. Os pactos estão todos quebrados e os únicos a assegurarem a convivência necessária para a autoconservação são aqueles que conseguem, mediante a força (no caso, uma arma de fogo no bolso da jaqueta), “proteger” os indivíduos que se submetem àquela “ordem” instaurada.

Todos estão sujeitos a lei do mais forte nesse estado e a sua insubmissão é a expulsão do grupo, que, de fato, significa a morte para muitos que estão ali. Obviamente, sob o estado calamitoso que se encontram, o “chefe”, além de racionar aquilo que distribui, não de modo generoso, mas mediante troca, quase uma extorsão, aproveita para garantir o seu ingresso no trem se não puderem os demais ingressarem. Afinal, aquilo que as outras pessoas do grupo detêm, é dado normalmente em troca de mantimentos conseguidos pelo mais forte diante de negociações com “quadrilhas” que se formam nessa situação. É o caso da água. Para se conseguir as coisas de que precisam, joias e relógios não parecem ser mais valiosos que bicicletas, isqueiros, mantimentos e sexo em determinadas situações a depender de quem esteja negociando.

O homem não regressa ao primitivo, mas recai nele com a mentalidade da sua sociedade em decomposição. É o “excesso de civilização” de Marx que lança o homem na barbárie diante a situação catastrófica e, para além do filme, não só dela, pois a concorrência desenfreada do mundo contemporâneo já dá o tom da catástrofe diária que estamos expostos. Descivilização então significa o excesso de civilização, a barbárie mediada pelas relações sociais do mundo civilizado.

Retornando ao filme, um grupo de novos refugiados chega ao local e ali teremos alguns encontros que nos mostrarão de novo que a justiça não existe mais no mundo. Além disso, a desconfiança que sempre recai no estrangeiro, o estupro e a denúncia descabida como arma da vingança, demarcam o horror da expressão em latim normalmente associada a filosofia de Thomas Hobbes “homo homini lupus est” (o homem é o lobo do homem). A impossibilidade da justiça é dada inclusive pela crença de algumas personagens que falam sobre quem seriam os “Justos”. O sacrifício seria a função destes homens? Mártires para que o globo continuasse girando? Parece que não.

Ainda assim, Haneke parece não abdicar da esperança que resguarda no ser humano. Exemplos de solidariedade e beleza são apresentados durante o filme, demarcando a ambiguidade do indivíduo. O compartilhamento do leite entre marido e esposa idosos, o companheirismo de Eva em relação ao menino que conheceram no meio do caminho, e novamente Eva quando pede ao rapaz para que ele mostre a música que estava ouvindo em seu pequeno toca-fitas e quando Benny objetivando fazer o sofrimento geral cessar, pretendia se lançar às labaredas e é impedido pelo vigia noturno. Neste instante, em minha memória, Haneke virou Beckett e seus personagens passaram a representar Vladimir e Estragon na esperança de que o trem ou Godot, a salvação, apareça: “Quem sabe amanhã?”.

Por fim, o trem parece estar se aproximando, mas não sabemos o que acontecerá. Tendo em conta que inúmeras situações podem impedir que o trem chegue, e, inúmeras situações para impedir que ele pare. Em homenagem ao centenário de morte de Franz Kafka, o qual Haneke adaptou o livro “O castelo”, tomo uma de suas frases que hoje talvez pontuem o filme de 2003 e guardem a sua contínua e assustadora atualidade: “Há esperança suficiente, esperança infinita – mas não para nós”.(3)

(1) Haneke, Michel. Mon film est un contre-projet au cinéma hollywoodien. Disponível em : https://www.lemonde.fr/archives/article/2003/05/21/michael-haneke-mon-film-est-un-contre-projet-au-cinema-hollywoodien_320961_1819218.html acesso: 02/06/2024.

(2) Elias, Norbert. Escritos e ensaios; 1: Estado, processo, opinião pública. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2006, p. 25.

(3) Benjamin, Walter. Kafka: a propósito do décimo aniversário de sua morte. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Tradução de Sergio Paulo Rouanet. – 3. ed. – São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 142.

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