“Margens e Travessias”: Boaventura Cardoso lança romance que protagoniza o povo de Angola

Como fazer um povo protagonizar uma história? Esta é a tarefa que assume Boaventura Cardoso em Margens e Travessias, livro publicado no Brasil pela Editora Kapulana. Nesta história ficcional, a história da formação de Angola e da identidade de seu povo é contada por meio das lembranças de dois “mais-velhos”: Kitekulu, um soba (chefe tradicional) e Manimaza, filho das águas.

As conversas entre eles acontecem enquanto percorrem os rios de Angola e suas aldeias ribeirinhas. Desse modo, fatos e mitos do país, desde os tempos pré-coloniais e da luta de libertação, até o período pós-independência, chegam ao leitor pelas vozes das personagens do romance. A capa é de Mariana Fujisawa, e o projeto gráfico é de Daniela Miwa Taira.

E os rios arrepiaram seus leitos de andanças. Primeiro foi o Chiloango, depois o Kwilu; Kambo, Lukala, Kwangu, Lwacimo, Dange, Keve e Kunhinga; mais o Zambeze, o Lwiana, o Kunene, o Kubangu, o Balombo, o Kuroka, o Mukope e o M’bridge; e finalmente o Kwanza. Todos kwanzando em seus kwanzas. Todos foram vindo em direção ao Ngola.

Os rios e suas margens não são apenas acidentes geográficos. São personagens que são fios condutores das vivências e narrativas do povo angolano numa viagem no tempo e no espaço.

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O romance conta com vários narradores que se expressam de maneiras diversas: troca de mensagens e cartas entre o soba, chefe de uma Zona de Acção, e o Comissário Distrital; relatos de uma mãe à procura e à espera de seu filho; e  lembranças e conversas entre Kitekulu e Manimaza. As narrativas em conjunto compõem o panorama da história de Angola, na forma de ficção. Presente e passado conversam nesse fluxo narrativo.

“Tinha a sensação de viver fora de mim, não em integração comigo. O trauma causado por essa falha de integração foi tão intenso e tão forte que não consegui me identificar com ele, resultando em um maior distanciamento de mim, de modo que não conseguia me identificar comigo mesma. Eu me sentia como uma sombra que na verdade não existia.”

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Sobre o autor:

Boaventura Cardoso é um escritor angolano e autor de contos e romances, com destaque para Margens e travessias, que recebeu o Prémio de Literatura dstAngola/Camões, 2022. É licenciado em Ciências Sociais e diplomata de carreira. Foi membro fundador da União dos Escritores Angolanos e o primeiro presidente da Academia Angolana de Letras.

Atualmente, é Deputado da Assembleia Nacional onde exerce o cargo de Presidente da Comissão para a Cultura, Assuntos Religiosos, Comunicação Social, Juventude e Desportos. Foi Governador de província em Angola e exerceu vários cargos em instituições de cultura em Angola, tendo sido Ministro da Cultura e da Informação do país.

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