ESTA CRÍTICA TEM SPOILERS
Começamos com uma cena comum dos Natais em família quando se é queer: o descontentamento por um relacionamento homoafetivo. Na foto oficial, Bethânia (Veronica Cavalcanti) tenta mudar o enquadramento da câmera para que a namorada de sua irmã Laura (Maria Lima) não apareça na foto. Laura percebe e age. É só uma amostra grátis da animosidade constante entre as irmãs.
Aquele foi o último Natal de José Lauro (Everaldo Pontes), o patriarca. Ele estava na cidade com Bethânia tratando problemas respiratórios, mas Laura insiste que o pai seja enterrado em sua cidade natal. A filha de Bethânia, Isadora (Isadora Gibson), se adianta, libera o corpo do avô e o coloca a caminho de Campina Grande. Os responsáveis pela travessia são Renata (Rita de Cássia), funcionária novata da funerária, e um motorista.
Em paralelo ao périplo fúnebre, temos uma trama de desmascaramento. Isadora está trabalhando, ao lado de Benício (Clecio Vilanova), num exposed cujo sucesso envolve o traslado do corpo do avô. O problema é que Renata consegue conversar com os mortos – ou seria com este morto em particular?

Uma estratégia curiosa usada mais de uma vez é, quando dois personagens estão conversando por telefone, colocá-los num mesmo ambiente. Risque aqui o “mais de uma vez” da frase anterior: o recurso é usado à exaustão, de modo que o estranhamento inicial se dissipa com cada nova inserção.
Outra constante no filme, que justifica seu título, é o cigarro. Por causa de campanhas de conscientização, inclusive impressas nos maços, é relativamente raro vermos pessoas fumando no Brasil e no cinema brasileiro, se comparado, por exemplo, com o cinema europeu. No filme, Isadora, Laura, Bethânia e o morto José Lauro fumam, e ele até mesmo canta a famosa “fumando espero…”
O cineasta pernambucano Taciano Valério comenta, sobre o pontapé inicial para o projeto:
“Estava gravando uma série com o saudoso Jean-Claude Bernardet quando me veio a ideia de duas irmãs, uma que morava em Caruaru e outra, em Recife, que entravam em um impasse sobre onde o pai deveria ser enterrado, no interior ou na capital”
Boa parte do que Isadora edita em seu computador são vídeos caseiros. Este gênero cinematográfico – se é que pode ser chamado assim – é tão antigo quanto o próprio cinema. Dentre os primeiros curtas exibidos pelos Irmãos Lumière, estava um que mostrava o café da manhã da filha bebê de um dos cineastas. Uma cena amável, mas que se torna trágica quando descobrimos que a menininha ali filmada, Andrée Lumière, morreu jovem em decorrência da gripe espanhola. Os filmes de Isadora parecem bem mais inofensivos que este, em comparação, mas escondem uma família fragmentada.

Descobrir que uma pessoa da sua família, ou uma pessoa que você ama, fez algo terrível pode tirar seu chão. Já vimos isto anteriormente este ano em “O Drama”. Mas ao contrário do filme com Zendaya, aqui a coisa terrível se concretizou e gerou um sentimento de vingança que nem os laços de sangue conseguiram acalmar.
E quando a arte imita a vida, hein? Os bacanais organizados por José Lauro encontram eco, na vida real, nas orgias de Epstein ou Daniel Vorcaro, ou, se quisermos ficar no ramo da ficção, na seita que Tom Cruise descobre em “De Olhos Bem Fechados” (1999).
Talvez o maior defeito de “Ao Sabor das Cinzas” seja querer amarrar três tramas fortes – o relacionamento entre as irmãs, a investigação de Isadora e a viagem derradeira de José Lauro – em apenas 84 minutos. Sim, tudo converge no fim e fica bem explicado. Mas o melhor filme brasileiro sobre a morte continua sendo “Sinfonia da Necrópole”.
“Ao Sabor das Cinzas” chega em 22 de outubro aos cinemas. Confira o trailer:
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