Maurício Rosa é poeta e vive em São Paulo. No final do ano de 2025, ele publicou seu quarto livro de poesia, intitulado “Meu corpo é testemunha”, lançado pela Laranja Original. A obra foi finalista do Prêmio Caio Fernando Abreu e vem recebendo as primeiras impressões positivas do público e da crítica.
O editor do Jornal Nota, Luiz Antonio Ribeiro convidou o autor para uma entrevista que você confere agora:
Olá, Maurício. Tudo bem? Para começar nossa entrevista, eu gostaria que você respondesse à pergunta mais difícil de todas: o que é o seu livro “Meu Corpo É Testemunha”?

Sim, é a pergunta mais difícil. Acredito que o livro é uma pequena investigação sobre a masculinidade. No princípio, seria apenas uma história de paixão desbragada — partindo de uma revisão irônica das cantigas de amor e amigo do Trovadorismo. Mas aos poucos, levando em consideração que eu inverti a lógica da lírica amorosa tradicional (neste livro não é a mulher quem sofre e morre de saudades), me dei conta de que não era possível mergulhar na fragilidade de um homem sem entrar no jardim selvagem do patriarcado.
No livro, as ideias de virilidade, força e heroísmo são questionadas e, invariavelmente, desfeitas para mostrar que todas essas armaduras servem para encobrir sujeitos fraturados emocionalmente, sexualmente irrealizados e não alfabetizados em nenhuma linguagem que esbarre na ternura.
O que acontece no livro é uma barbárie íntima e gradual, quando um homem, cuja tábua de salvação é o amor da sua vida, se vê sem domínio nenhum, apartado, solitário e sem respostas. A partir daí ele passa a cumprir um destino trágico porque não tem ferramentas, além das mínimas que o masculino oferta, para lidar com a ausência e a dor. Apenas o corpo dele pode revelar, delatar e expor a violência dessa experiência.
Quando a gente ouve esse título, automaticamente vem à mente a canção “O Meu Amor”, do Chico Buarque, parte da “Ópera do Malandro”. No refrão, ele canta: “Eu sou sua menina, viu? / E ele é o meu rapaz / Meu corpo é testemunha / Do bem que ele me faz”. O Chico também aparece nas suas epígrafes com o poema “Pedaço de Mim”. Você diria que sua obra tem alguma influência da música, especialmente da música popular brasileira? Se sim, qual?
Total influência da música popular. Ela me formou esteticamente. Continuo descobrindo discos e compositores que me despertam para uma ideia de Brasil que se aproxima muito da minha poética. Quando eu era adolescente, ganhei uma antologia, um greatest hits da Elis Regina, e tive ali aulas de história, de ritmo, de narrativa por meio de versos… Os professores? Tom Jobim, Aldir Blanc, Joyce, Ivan Lins, Gilberto Gil, Sueli Costa etc etc. Para quem topa aprender, a canção é o material literário mais próximo do povo. Todo mundo sabe de cor vários poemas incríveis que tocaram no rádio. Amo os grandes poetas dos livros, mas os poetas da música popular são a minha turma.
Apesar de ser uma obra de poemas, é possível notar em seu livro uma continuidade na experiência de perda amorosa. Gostei muito da forma como você dividiu os capítulos, quase como um jogo de quebra-cabeças da vida amorosa, algo próximo a um “escravo de Jó do amor”. Como foi pensar essa estrutura de composição?

O que gosta de escrever, e é nesse subgênero que “meu corpo é testemunha” se encaixa, se chama poesia narrativa (aquele livro de poemas que se apropria dos elementos da prosa como personagens, cenários e flashbacks, por exemplo, para contar uma história por meio de versos, mas sem perder de vista o trabalho de linguagem que é próprio da poesia). Tem tudo a ver com Homero e Camões, mas minha conversa é mais com Noel Rosa e Paulo César Pinheiro do que com o cânone.
Tendo essa possibilidade em mãos, quis brincar com o tempo como uma forma de revelar aos poucos a vida desse eu lírico — como o seu passado revela/oculta/deixa subentendido os seus dramas do presente. E também é uma construção de tensão segurar e retomar esse quebra-cabeças para que o leitor, eventualmente, se sinta curioso para saber como aquilo vai se resolver.
Em um dos poemas, você escreve que “tudo que aprendeu de geografia foi a partir do corpo dela”. Pode falar um pouco mais sobre essa ideia?
O sujeito poético desse livro perambulou muito antes e depois do seu encontro com Maria, o seu grande amor. Há pelo menos três poemas-pé-na-estrada. Os lugares (cidades, regiões) também estão muito presentes em vários momentos. Digo isso porque a ideia de espaço me interessa muito. O espaço onde se está, o espaço no qual abandonamos alguma coisa, o espaço impossível de chegar. Pensando nisso, o corpo também tem uma geografia própria com os seus relevos, buracos, brechas, jazidas.
Certamente, o corpo de Maria foi a melhor paisagem que ele pode visitar, o território mais apaziguado.
Uma coisa que pode passar despercebida para muitos leitores é que vários poemas seus fazem referência a títulos de peças de teatro, como “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, e “Vestir os Nus”, de Luigi Pirandello — para mim, uma das cinco melhores dramaturgias já escritas. Por que trazer essas camadas do teatro para dentro dos poemas?

Feliz demais que você notou! Enquanto elaborava o livro, estava lendo a biografia da Ruth Escobar, grande atriz e produtora de teatro. Batizei os poemas com os nomes de várias peças que a Ruth produziu ou participou como atriz. Dentro do meu processo de escrita, eu reúno os títulos antes de escrever os poemas.
Pode parecer estranho, mas depois esses títulos serão os meus disparadores criativos e eu escreverei a partir do que eles me suscitam. Embora os poemas não tenham nada a ver com as peças, encaro como uma homenagem à dramaturgia.
Como falei da música anteriormente, acho que a pergunta aqui cabe também ao teatro: o que tem também do teatro — Lorca, Pirandello, Dürrenmatt e até Arrabal (no poema “Cemitério de Automóveis” — em sua obra “Meu corpo é testemunha”)?
Eu tive a oportunidade de ler a maioria dessas peças. Embora muito diferentes entre si, formam um painel humano riquíssimo, assombroso, bonito demais. Eu comecei a ler por gosto e prazer, para além das obrigações da escola, por volta dos 14, 15 anos, e Nelson Rodrigues foi a minha Turma da Mônica.
Assim como falei da música, a dramaturgia também me formou porque, depois do Nelson, fui ler a turma que fez teatro na década de 70 (Leilah Assumpção, Consuelo de Castro, Plínio Marcos, Flávio Márcio…). Tudo muito voltado para a realidade brasileira, para os problemas do país. Sem dúvida, para a minha escrita, para o “meu corpo é testemunha”, teve uma importância enorme.
Uma característica interessante da sua escrita é a riqueza de referências aliada à fluidez dos versos livres, um equilíbrio que não é simples. Qual é o seu processo de escrita? Os poemas nascem inspirados por essas referências? Conte para a gente!
Já falei um pouco sobre o começo do processo, a parte dos títulos. Depois dessa etapa, eu começo a escrever. Determino metas para dar conta: em tal dia vou escrever dois poemas, no final da tarde vou escrever três poemas, hoje vou escrever um poema. Eu realmente não espero a inspiração chegar. Acho que é mais uma questão de estar disponível para as palavras, para o jogo e para o trabalho. É na manufatura que eu descubro o poema.
Só quando eu coloco o meu macacão de estivador que eu sei quais metáforas posso carregar. Tem que entrar na fábrica do poema que o Waly Salomão falou, sabe? Então eu me sento e escrevo. Simples e terrível assim. Pode dar muito certo de primeira, pode dar completamente errado, pode ter um poema que vou tentar melhorar e outro que, apesar de tentar muito, não ficará legal. Mas a disposição pra labuta eu tenho e fico muito empolgado ao ver o livro crescer, tomar forma, ganhar tônus. Acontece que eu confio plenamente na minha língua brasileira. Ela me confia tudo, de graça. Eu só preciso dar um passo de cada vez e ter fé no verso.
leia também: Entrevista com Denise Zmekhol, diretora de “Pele de Vidro”: “me fez refletir sobre um país que fui ensinada a ignorar”
Existem algumas outras referências que passaram despercebidas e que você acha relevante mencionar nessa entrevista para nossos leitores?
Acho que vale uma menção a alguns termos presentes no vocabulário do livro. “meu corpo é testemunha” se passa em algum lugar do norte ou nordeste no Brasil, em uma época não definida. Muitas expressões vieram da minha família e eu nunca tive oportunidade de usar antes. Meu pai é do Ceará e minha avó materna é do Rio Grande do Norte, por exemplo. Também cresci ao lado de baianos, pernambucanos e piauienses. Tentei trazê-los em vários momentos na fala do meu personagem. O fato de misturá-los, talvez ditos muito específicos de uma região só, me deu gosto por uma integração profunda, um só Brasil ali retratado. Essas vozes na voz do meu eu-lírico foram muito importantes para o livro.
Por fim, conta um pouco da sua trajetória como poeta até chegar a “Meu Corpo É Testemunha”. Você já está preparando alguma nova obra para o futuro?
Eu comecei a escrever com 15, 16 anos, e, de cara, ganhei dois prêmios na minha cidade. Cheio de confiança com esse pequeno aval, pensei que escrever poderia ser a minha área. Àquela altura, eu queria ser contista. Os anos seguintes foram de muita frustração porque eu não sei escrever prosa, mas insistia. Fiz algumas oficinas, todas muito proveitosas, mas o prosador não vinha. Demorei muito para descobrir que minha cabeça era de poeta. Talvez tivesse medo do cânone, da Rosa do Povo, da Pauliceia Desvairada. Tateando o terreno da poesia, publiquei dois livros “O longo cochilo da ursa” e “Vamos orar pela vingança”. Mas só com “Na proa do trovão”, um livro em homenagem ao meu avô, que tudo mudou.
Entendi que sempre estive próximo da poesia — aquela das canções — e que meu repertório poderia dar conta de um texto literário que eu realmente acreditava. Com esse livro, me aproximei dos meus temas mais caros: o homem e o corpo no mundo (no Brasil, mais honestamente). Foi pisando com mais firmeza no meu terreiro que veio “o meu corpo é testemunha”. Eu tenho um livro pronto (desejo que seja o próximo a ser publicado), talvez o trabalho mais pessoal que já escrevi. E comecei a escrever outro recentemente. Esse em produção é primo-irmão do “meu corpo é testemunha”. Trata-se de um embate entre pai e filho. Vou trabalhar para que seja um livro intenso e, na medida do possível, bastante perturbador.

