Descobri há pouco tempo que Louca Normalidade (2025), de Plácido Berci, publicado pela Editora Mondru, era na verdade Bloco de Notas. Soube recentemente que se passaram sete anos desde que Plácido começou a escrevê-lo.
Eu amo escrever notas por aí, e quem me conhece sabe: tenho cadernos e canetas sempre ao meu alcance; também tenho blocos de notas e uma caneta na bolsa, onde quer que eu vá. Inclusive paro durante minhas caminhadas para escrever. Assim, me aproximo de Francisco.

Francisco Solano é o personagem central deste romance com tons de mistério e sensibilidade. No começo, fui caminhando em passos lentos, aos poucos entre as letras superlativas de Plácido e a peculiar vida de Francisco, jornalista aposentado, cheio de história para contar.
Confuso, Solano não se deixa entender facilmente, mas aos poucos, ele vai inserindo a pessoa leitora em sua vida, dias comuns do seu cotidiano e leva você pela mão para dentro do seu apartamento, pequeno, n. 44 no Edifício Laureus em Copacabana.
Mesmo após sofrer um AVC e passar por programas de reabilitação fonoaudiológica e fisioterapêutica, Francisco Solano conseguiu se restabelecer por meio daquilo que mais fazia sentido em sua vida: a escrita.
“Francisco ainda não se acostumou a ser velho. Talvez nunca se acostume. Internamente se sente jovem, até porque depois do derrame suas lembranças ficaram embaçadas como um espelho de sauna. É como se ele não tivesse memória suficiente para preencher os seus 67 anos de vida. Com um meio sorriso, agradece a simpatia da moça e aceita o convite. Afinal, mesmo negando a velhice, os joelhos lhe confirmam que o tempo é implacável. Perante o inevitável incômodo físico, costuma dizer que “a dor é inerente ao existir”. Ao se sentar no assento oferecido pela desconhecida mulher, Francisco puxa o bloquinho do bolso e escreve”. (p. 54)
Com um bloco de notas sempre à mão, Solano escreve poemas, pensamentos aleatórios, informações importantes e enigmas que instigam seu instinto jornalístico investigativo, como a nota: 00KMF.
Uma anotação solta, que se une a uma imagem de uma mulher loira de olhos castanhos que o assombra. A incerteza do que viu e de como obteve essas informações. É assim que nos apegamos à história e vamos junto à Solano em busca de desvendar mais esse mistério.
Mas não somente o mistério e o suspense por trás das anotações de Solano nos prendem na leitura. Há uma simpatia pelo protagonista dessa história, que faz a gente querer acompanhá-lo e entender o que se passa na cabeça de Francisco.
Das coisas que fiquei sabendo sobre Plácido Berci e sobre a escrita do seu livro, há uma forte conexão entre o nosso herói Francisco e o pai do autor. Um encontro que Plácido Berci nos proporcionou no capítulo 21. Sebo Sol Poente:
“Após um tempinho viajando através dos títulos, se hipnotiza pela capa de um livro de poemas. Vermelha, com o desenho de uma delicada fórmula química. Não conhece o autor. Na orelha da publicação descobre que se trata de Pedro Berci Filho, químico e poeta que só teve seu material literário publicado póstumamente. Passa, então, a folhear as páginas, até que um certo conjunto de letras lhe convoca a atenção.
BREVE
Quase um segundo.
Quase uma hora.
Quase uma vida.
Quase um menino.
Quase um moço.
Quase um ancião.
Quase nada.
Quase nada.
Quase eu.
A poesia de Pedro Berci Filho inunda todas as células do corpo de Francisco Solano. Eternos segundos de introspecção se passam enquanto o velho homem analisa cada frase escrita na página amarelada. Admira o fato de toda a experiência temporal humana ter sido colocada em palavras de maneira tão objetiva e reveladora. Sente como se os versos tivessem sido escritos por ele próprio, tamanha a conexão com o conteúdo absorvido. É tomado pela emoção” (p.141-142).
Saber destas conexões faz uma grande diferença na leitura. Mesmo quando nos confundimos por não entender muito bem o limiar entre o que é realidade e o que não é na investigação do Solano, Plácido Berci brilhou! Entre o que é realidade e ficção ele nos mostra que há muitas realidades possíveis, e de como não perceber isso, pode nos conduzir para lugares estereotipados e banais.

Nos alerta também sobre o quanto ser diferente nesse mundo pode ser difícil e como a cultura em que estamos inseridos nos impede de reconhecer pontos de vista diferentes. Francisco Solano não estava louco, mas era assim que a sociedade o percebia, apenas por fugir dos padrões estabelecidos.
Louca normalidade é um passeio na corda bamba. No começo a pessoa leitora sente a visão um pouco turva e desconfia do que é de fato; em seguida ela fixa o olhar em um ponto e continua seguindo de braços abertos sem hesitar até chegar do outro lado da corda, ciente de que a normalidade é, na verdade, uma verdade loucura.

