Jasão e Medeia já vivem juntos em terras gregas. Com filhos pequenos, ele planeja largar a mulher para se casar com a filha de Creonte, rei de Corinto, e reorganizar a hierarquia do poder. Traída e exilada após ajudar o marido a recuperar o velocino de ouro, Medeia impõe uma duríssima vingança: mata primeiro Creúsa e o rei, seu pai, e, a seguir, mata os filhos que tivera com Jasão.
Nesta montagem de “Medea”, de Sêneca, em cartaz no Sesc Consolação, em São Paulo, o diretor Gabriel Vilela trabalha a atemporalidade do texto colocando a plateia para se olhar no espelho.

Durante o espetáculo, Medeia senta-se diante de uma penteadeira, de costas para o público, mas encarando um rosto marcado pela violência contra as mulheres através dos séculos. Há um palco no centro da cena, por onde a Medeia de Mariana Muniz – usando uma máscara – surge e igualmente desaparece. O coro também age como contra-regra, movendo as peças como se outros mundos estivessem sendo encaixados ali.
A cenografia criada por J.C Serroni e a iluminação de Wagner Freire bagunçam as linhas temporais para transformar a tragédia grega em um fato contemporâneo. Talvez seja por isso que os demais elementos teatrais, o figurino e até mesmo a visão de uma protagonista encenada por três atrizes diferentes (Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros, excelentes em cena) convergem para uma espécie de metalinguagem da fúria.
É possível dizer que Gabriel Vilela incorpora o efeito-v de Brecht à encenação, ferindo as convicções do público e seus julgamentos morais a respeito do ato extremo de Medeia. Esse distanciamento produzido por uma encenação que deixa o texto carregado falar por si, para nós, que assistimos à peça e vivemos em um país que dizima mulheres com facilidade, enxerta a história de Medeia no caso do secretário de Itumbiara, no interior de Goiás, que matou os filhos para causar o maior tormento possível à ex-esposa.
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Em questão de horas, as notícias falsas se espalharam: ele foi traído, em um ato de loucura, matou os filhos e se matou em seguida. A mãe foi enxotada do velório, e em nenhum momento o fato de a relação ter sido encerrada por ela meses antes do crime foi levado em conta pelos críticos.

Então, qual a diferença entre Medeia e o assassino de Itumbiara? Ao homem, a defesa da honra, a loucura, a dor e a tristeza de “perder sua família cristã” servem para limpar a imagem, dignificando a violência vicária como alternativa, não como um crime.
Os milhares de comentários postados nas redes sociais durante a repercussão do caso não só atestam a realidade fora do teatro, como desmontam a “encenação” de sucesso desses homens. Por exemplo, segundo reportagem da BBC que apresenta os dados públicos contidos no Mapa Nacional da Violência de Gênero, foram registrados 904 casos de violência vicária – quando o agressor atinge os filhos ou pessoas próximas com a intenção de causar sofrimento emocional à mulher – em 2023 e 794 em 2024, mostrando o quanto “Medeia” permanece isolada na ficção, como uma eterna “estrangeira”.
Como feiticeira – uma figura que não é humana – Medeia, pra ter sua humanidade reconhecida, comete um ato que a desumaniza totalmente. Essa devolução de fúria e desprezo que a personagem faz ao mundo que a condena antes de qualquer rompante é um dos pontos mais potentes da montagem de Gabriel Vilela. Não por acaso, a figura vampiresca do cartaz da peça, para mim, remete mais ao homem do que a mulher.
Assim, o estranhamento que o diretor causa no palco, entregando para a plateia \as engrenagens que compõe seu trabalho, ilumina que o que vemos não é real, mas uma obra de arte que libera o pesadelo real. ( “A boa alma de Setsuan”, escrita por Brecht, inclusive, é um texto que versa como poucos sobre o material em questão.) Ou seja, ao teatro, não cabe o papel de juiz, promotor ou advogado das personagens. O teatro não impõe, mas expõe.
Porque se diante de nós, há o mito de uma mulher renegada, exilada, traída, que vê sua família ser destruída pela ambição do marido e soterrada por séculos de humilhação e violência contra a mulher, fora do teatro são outros personagens que encenam o verdadeiro horror.
Ficha Técnica
Autor: Séneca
Diretor e Figurinista: Gabriel Villela
Elenco: Rosana Stavis, Mariana Muniz, Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro
Participação especial: Walderez de Barros
Cenografia: J C Serroni
Iluminação: Wagner Freire
Trilha sonora: Carlos Zimbher
Diretor Adjunto: Ivan Andrade
Assistente de Direção: Gabriel Sobreiro
Serviço
Medea
Temporada: 29/1 a 8/3/2025
Horários: Quintas, Sextas e Sábados, às 20h. Domingos, às 18h
Sessões em horários diferenciados:
Dia 14/2. Sábado, às 18h
Dias 26/2 e 5/3. Quintas, às 15h
Duração: 80 minutos | Classificação: 16 anos
Ingressos: R$70 (inteira) R$35 (meia entrada) e R$21 (credencial plena)

