“Brevíssimo itinerário de uma existência absurda”, escrito por Simões e Silva e publicado pela editora Mondru, segue Jean, um jovem brilhante, mas depressivo, obcecado pela dexistência, um estado de transcendência obtido pela consciência da ausência de propósito.

A história se estrutura em três partes que narram a trajetória de diversas personagens (incluindo um vírus) em meio a questionamentos, descobertas, perplexidades, escolhas e decepções. O que eles procuram não é necessariamente um sentido, mas uma identidade que, de alguma forma, represente de forma mais coerente o que sentem no íntimo…
Na primeira parte, acompanhamos o mergulho profundo de Jean em sua concepção existencial que denomina “dexistência” (s.f.: “Estado de transcendência de quem ou do que adquire consciência plena da ausência de propósito”). Testemunhas profundamente impactadas por essa vida são Toshio e Maria B.. Três colegas do curso de Direito cujas vidas se entrelaçam e derivam trajetórias distintas.
“Dias conformam semanas, que se acumulam e produzem meses: assim se contabiliza o tempo perdido… Alheio ao susto que sentimos com seu esvair, o tempo cicatriza horrores e aprofunda outros tantos. As escadas do prédio antigo foram vencidas incontáveis vezes por moradores submissos e altivos, alegres ou não, fracassados e obstinados. Todos eram
peças da engrenagem sem descanso, do ciclo que ainda não encontrou seu fim, e cujo propósito é segredo: mistério de alguma fé…”
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A segunda trata da formação de Galeano, filho de Maria B. e Jean. O acaso e o fado moldando as experiências de pessoa sensível e vulnerável.
“Aquela revelação de um passado omitido por sua mãe fez com que passasse a carregar a sensação de que a vida era um constante estado de vulnerabilidade, em que sabemos, ou pensamos saber, apenas parte do contexto em que estamos inseridos. Um teatro em que atuamos, mas não dispomos de todas as falas, das personagens e da visão mais ampla de
quem vê do balcão. Passou a sentir o peso de uma onisciência que não existe, mas determina os desígnios de uma vida!”
Um capítulo em destaque é a viagem onírica denominada “Baixio do São Roque”, onde o fantástico expõe a crueza do real.
“Isso já faz muito tempo: um dos casais mais queridos que por essas bandas fizeram morada foi Rita e Isaac. Ela cafuza, ele judeu, ambos agricultores de escolas diferentes, mas que produziam a mesma coisa: alimento. Não alimento para gado. Alimento de verdade, para fazer crescer e encher de gosto a vida! Mas corria pela vila que ambos eram sensitivos e também era dito e muito divulgado que, por força da degradação das terras da Chapada mais ao norte, uma encantada flanava por entre as montanhas e rios de lá para cá, assim como decorrente da diáspora do povo de Isaac, um dybbuk malicioso espreitava quem suscetível fosse à suas demandas por existir. Não se sabe se apenas por afinidade ou característica atribuível às entidades, mas o fato é que o dybbuk só encarnava em Isaac, assim como a encantada em Rita. “
Na terceira, temos uma parábola do existir absurdo em nossos dias. Contradições e perplexidades são expostas sob vários pontos de vista. Diferenças sociais são exploradas, coexistindo a perspectiva de uma manicure, servidor público, líder religioso, dona de casa e intelectuais, todos em meio a uma mesma tensão. Trabalhadores e um vírus (cuja consciência é revelada) expõem suas verdades, explicitando a complexidade do nosso tempo e quão frágil nossa compreensão.

Sobre o autor:
Márcio Luiz Silva, advogado, assina Simões e Silva seus textos literários. Publicou em 2024, pela Caravana Grupo Editorial, a coletânea de contos “O que importa não tem nome”.

