“Um dia, todos terão sido contrários a isso”: Ao receber o National Book Award 2025, Omar El Akkad faz contundente discurso contra genocídio em Gaza

A cerimônia do National Book Award 2025, realizada em Nova York, terminou marcada não apenas pelos vencedores, mas pelo tom político de quem subiu ao palco. O destaque da noite foi o escritor e jornalista egípcio-canadense Omar El Akkad, premiado na categoria não ficção pelo livro One Day, Everyone Will Have Always Been Against This, obra que confronta diretamente a cumplicidade ocidental diante do genocídio em Gaza.

O livro nasceu de um tweet publicado por El Akkad em 25 de outubro de 2023, poucas semanas após o início dos bombardeios israelenses sobre a Faixa de Gaza. A frase — “Um dia, quando for seguro, quando já não houver risco pessoal em dizer o que é, quando for tarde demais para responsabilizar alguém, todos sempre terão sido contra isso” — viralizou e tornou-se o eixo de um ensaio sobre a falência moral do liberalismo ocidental frente à violência sistemática contra palestinos.

Ao receber o prêmio, El Akkad rejeitou qualquer celebração:

“É muito difícil pensar em termos festivos sobre um livro escrito em resposta a um genocídio”, afirmou. “É difícil celebrar quando sei que o meu dinheiro de impostos financia isso, e quando muitos dos meus representantes eleitos apoiam esse massacre sem hesitação.”

O autor prosseguiu mencionando a repressão contra ativistas que denunciam o genocídio — entre eles estudantes detidos nos Estados Unidos por protestarem em defesa da Palestina. “É difícil celebrar quando vejo pessoas sendo levadas das ruas por agentes mascarados do Estado por ousarem sugerir que palestinos talvez sejam seres humanos.”

El Akkad ainda agradeceu “os escritores que têm se levantado”, numa referência ao crescente movimento de autores que pressionam organizações literárias, como a PEN America, a romper a neutralidade histórica e condenar formalmente as ações de Israel.

Assista o discurso completo aqui:

Livros que tensionam o debate sobre Gaza

A obra de El Akkad integra um conjunto cada vez maior de livros que discutem, de modo explícito, o papel do Ocidente na destruição de Gaza. Entre eles está Being Jewish After the Destruction of Gaza, do escritor judeu Peter Beinart, que explora a forma como a história, os textos religiosos e o vocabulário do judaísmo foram e continuam sendo usados para justificar o genocídio Palestino, e reflete sobre a responsabilidade dos judeus de adotar uma nova posição frente ao mundo árabe e buscar compreender seu lugar em Gaza de maneira diferente.

Outros escritores do Oriente Médio foram contemplados nessa edição: na categoria de literatura infantojuvenil, o prêmio foi para The Teacher of Nomad Land: A World War II Story, de Daniel Nayeri. O romance acompanha duas crianças iranianas órfãs que, em 1941, ajudam um garoto judeu a fugir de um espião nazista -uma história inspirada na pouco lembrada presença de cerca de 6 mil refugiados judeus poloneses enviados pela União Soviética ao Irã durante a Segunda Guerra Mundial. Apresentando o livro, a cantora Laufey afirmou que a obra ensina “o valor do entendimento intercultural e da educação”.

O prêmio de ficção foi para o libanês Rabih Alameddine, autor de The True True Story of Raja the Gullible (and His Mother), romance que acompanha várias gerações de uma família libanesa com humor e ironia. Em seu discurso, Alameddine lembrou o recente bombardeio israelense a um campo de refugiados palestinos no Líbano: “Eu ficava pensando: eles fazem a desolação e a chamam de cessar-fogo. Às vezes, como escritores, precisamos dizer: basta.”

O livro de El Akkad: uma acusação moral

One Day, Everyone Will Have Always Been Against This aprofunda a reflexão iniciada no tweet que viralizou e foi republicado mais de 10 milhões de vezes. El Akkad, que migrou para o Ocidente acreditando na promessa de liberdade e justiça, revisita duas décadas de cobertura jornalística — da Guerra ao Terror aos protestos do Black Lives Matter, passando pelas crises climáticas — para revelar o abismo entre os ideais proclamados e a realidade vivida.

O massacre em Gaza, segundo ele, expõe de forma incontornável que vastos segmentos do Ocidente jamais pretenderam tratar certos grupos humanos — árabes, muçulmanos, imigrantes e todos fora do círculo da branquitude privilegiada — como plenamente humanos. A obra é, nas palavras do autor, um esforço para compreender o que significa tentar manter qualquer esperança num momento em que a carnificina é transmitida em tempo real, com o aval de governos que se dizem defensores dos direitos humanos.

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