Editores negros criticam duramente Sérgio Camargo pela exclusão de obras na Fundação Palmares: “erro crasso!”

Um erro que começa já no começo: pensar que existe uma “temática negra”, um compartimento separado, que influenciasse apenas externamente a formação da sociedade brasileira. Foi assim que Fernando Baldraia, historiador e editor de diversidade da Companhia das Letras, explicou ser o “erro crasso” cometido por Sérgio Camargo ao optar de excluir obras da Fundação Palmares por “não conterem temática negra”. De maneira contundente, Baldraia afirma:

Não existe uma “temática negra”, porque a “questão negra” é constitutiva da sociedade brasileira. Pertence, de saída, à nossa formação. É difícil sair dessa lógica da temática porque o negro foi sempre constituído como um “outro”. Enquanto o negro for “tema/temática”, seremos “tematizado” e postos em caixinhas (ou acervos).

Este é o motivo alegado pela Fundação Palmares para retirada de obras do acervo, principalmente ao excluir autores como Celso Furtado, Florestan Fernandes e Caio Prado Jr. Segundo levantamento da própria instituição, como conta o Jornal o Globo, 46% das obras que constituem o acervo da Palmares abordam a “temática negra”. No entanto, segundo o relatório, mais da metade desses livros (2.678 títulos) versa sobre “militância política explícita ou divulgação marxista, usando a temática negra como pretexto”.

Além disso, Camargo pretende tirar também obras que “não tenham a ver com a temática negra” e inclui nisso obras “marxistas “que não remetam à “temática negra logo no título, como “Eros e civilização”, de Herbert Marcuse, “Marx: lógica e política”, de Ruy Fausto, e “História e consciência de classe”, de Georg Lukács. No entanto, todos esses autores são marxista que estão revisando o marxismo, repensando ele por fora do marxismo tradicional, buscando abrir espaço para outras questões, como o racismo, seja considerado também como uma categoria de análise para além da classe.

— Toda e qualquer obra que pretenda pensar a constituição das sociedades humanas, inclusive as orientadas pelos marxismos, pela teoria feminista e/ou queer ou pela psicanálise podem ajudar a “promover e apoiar a integração cultural, social, econômica e política dos afrodescendentes no contexto social do país”, como determina o regimento da Palmares — afirma Baldraia.

Outros editores também fizeram duras críticas a iniciativa da Fundação Palmares. Veja a matéria completa aqui!

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