Leituras #65: Fahrenheit 451, de Ray Bradbury

            Publicado em 1953 nos Estados Unidos, é incrível e ao mesmo tempo um tanto assustador como esta obra de Ray Bradbury permanece atual – principalmente no Brasil, nos dias de hoje, em que lidamos dia após dia com constantes ameaças ao progresso da educação e com a contínua desvalorização da cultura. A narrativa é situada em uma realidade na qual as casas são à prova de fogo, e o trabalho dos bombeiros não é apagar as chamas, mas sim causá-las, sempre que houver um alarme devido à presença de livros – os quais são proibidos. O protagonista se chama Montag, um bombeiro que, até então, não questionava o que havia de tão “perigoso” em livros para que eles precisassem ser queimados. Até que ele presencia uma bruta cena que não sai de sua memória: quando ele e seus colegas do corpo de bombeiros são chamados para incendiar uma biblioteca de uma senhora, ela se recusa a deixar a casa e prefere padecer nas chamas junto aos seus livros.

            Além disso, Montag também conhece uma menina cheia de vida, chamada Clarisse McClellan, que o faz começar a questionar alguns aspectos de sua vida, não somente a respeito do motivo de queimarem livros, mas a respeito de comunicação e conexão humana em geral: Clarisse é parte de uma família de novos vizinhos, os quais têm o “estranho” hábito de ficar conversando uns com os outros, algo que Montag e sua esposa, Mildred, nunca faziam, pois se entretinham sempre com as telas interativas que cobriam o salão de sua casa – uma clara alusão a uma realidade em que a tecnologia, de uma forma fria e automática, substitui o contato humano. Outro acontecimento também faz com que Montag desperte, que é chegar em casa e encontrar Mildred inconsciente, após uma overdose de medicamentos.

                Montag começa a sentir-se estranho neste mundo que o cerca, começa a sofrer a distância à qual todos parecem viver uns dos outros, e isso o faz buscar algo além. Ele revela, em um momento, haver escondido consigo um livro, e lembra-se de quando, um dia, conversou com um senhor, chamado Faber, em um banco de uma praça, que trazia consigo um livro de poesias. Montag lembra-se de ter anotado o número de Faber, considerando se deveria ou não denunciá-lo por possuir livros, mas acabara por simplesmente guardar o contato, como se de alguma forma soubesse que um dia poderia precisar dele. Faber é um velho professor, o qual acaba por se tornar seu maior aliado em sua busca por mais humanidade, quando, após enfrentar a caótica ordem imposta pelo corpo dos bombeiros, ele se torna fugitivo e se une a um grupo de forasteiros que decidem por viver à margem da sociedade para que possam desfrutar do conhecimento – fruto proibido em uma sociedade que despreza qualquer forma de reação espontânea ou de pensamento próprio. No entanto, como o que proíbem são os livros, o que queimam são livros, eles começam cada um memorizar uma obra completa, de forma que a literatura viva através deles, os quais vão recontando as histórias uns aos outros, unindo esforços para manter a cultura viva. Mesmo em um mundo em guerra, eles sobrevivem, e carregam consigo o que os torna humanos.

                Muitas passagens desta obra parecem bastante chocantes quando observamos o quão se parecem com eventos dos dias atuais, como quando o chefe dos bombeiros, Beatty, revela a Montag a verdadeira origem dos bombeiros que queimam livros (pois Montag acreditava no que lhe havia sido contado: que bombeiros sempre serviram para queimar livros e casas sempre haviam sido à prova de fogo!). A explicação de Beattie sobre o desprezo da sociedade por livros e pelo pensamento é assustadoramente próxima ao que podemos ver acontecendo nos dias de hoje quando ele diz que tudo se tornara “resumos de resumos de resumos” (p. 78) até que a mente humana se dissolvesse no ar, livre de “todo pensamento desnecessário, desperdiçador de tempo” (ibid.) e a “palavra intelectual tornou-se o palavrão que merecia ser” (p. 81), pois, para eles “um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma” (p. 82), aconselha Beattie, pois ele questiona Montag “quem poderia ser alvo de um homem lido?” (ibid.) e assim justifica a existência dos bombeiros que queimam livros: eles eliminam o “legítimo e compreensível sentimento de inferioridade” daqueles que desprezam o conhecimento em frente aos que o buscam e o valorizam. Uma realidade triste, mas terrivelmente próxima dos dias de hoje.

                Porém, o livro traz uma mensagem de esperança com seu final, o qual nos mostra ainda o porquê de a temática nos soar tão atual: vivemos em uma eterna repetição, mas podemos sempre ressurgir das cinzas e retornar à luz. Ainda que queimem os livros, a essência que os nutre pode ser conservada em nossas mentes e passada adiante, se assim desejarmos, se lutarmos para expandir, solidificar e compartilhar a sabedoria. O livro compara a história humanidade à Fênix, com a exceção de que nós temos que a Fênix não tem: ao ressurgirmos das cinzas, podemos contar com a memória dos erros passados, e aprender com eles, com as gerações anteriores e com seus legados:

            “Nos tempos antes de Cristo, havia uma ave estúpida chamada Fênix que, a cada cem anos, construía uma pira e se consumia em suas chamas. Deve ter sido prima-irmã do homem. Mas, toda vez que se queimava, ressurgia das cinzas e novamente renascia. E parece que estivemos fazendo e refazendo inúmeras vezes a mesma coisa, só que com uma vantagem que a Fênix nunca teve. Nós sabemos a estupidez que acabamos de cometer. Conhecemos todas as coisas estúpidas que estivemos fazendo nos últimos mil anos. Desde que não nos esqueçamos disso, que sempre tenhamos algo para nos lembrar disso, algum dia deixaremos de construir as malditas piras funerárias e de saltar dentro delas. A cada geração, escolheremos mais algumas pessoas que se lembrem disso.” p. 197

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