Espetáculo inspirado no romance de Elisama Santos está em cartaz no Sesc Copacabana
Até que ponto conhecemos de verdade as pessoas da nossa própria família? Em “Mesmo Rio”, escrita por Rafael Souza-Ribeiro e dirigida por Renata Tavares, a partir do romance homônimo de Elisama Santos, uma mãe e suas duas filhas se encontram diante de lembranças, conflitos e diferentes versões de uma história que acreditavam conhecer. Em cartaz no Teatro de Arena do Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro, até 18 de outubro, o espetáculo coloca em cena o desafio de enxergar o outro para além do lugar que ele ocupa dentro de uma família.
Um dos conflitos de “Mesmo Rio” nasce justamente da distância entre quem o outro é e quem gostaríamos que ele fosse. Mães, filhas, pais e irmãos podem passar anos presos aos papéis que aprenderam a ocupar dentro de uma família, sem necessariamente conhecer aqueles que estão por trás deles. A peça questiona também a ideia de que o amor ou o laço familiar bastam por si sós: relações precisam de escuta, disponibilidade e espaço para que o outro possa existir para além das nossas expectativas.

A transformação do romance em teatro surpreendeu até Elisama Santos. Depois de assistir à estreia, a autora confessou que “nunca pôde imaginar o que aconteceria” naquele teatro. A reação dá a dimensão da distância entre a história imaginada na literatura e aquilo que ela se tornou ao ganhar o palco.
Para entender o processo de criação de “Mesmo Rio” e os caminhos que levaram o romance ao palco, conversei com a autora Elisama Santos, o dramaturgo Rafael Souza-Ribeiro e a encenadora Renata Tavares. Confira a conversa na íntegra:
Elisama Santos – autora
Esta peça marca a primeira vez que uma história sua, criada para os livros, expande-se para os palcos. Elisama, como foi para você participar dessa experiência desde o convite até assistir à história que você criou ganhar vida? Você imaginou que isso seria possível quando escreveu essa história?
Aguardar o início do espetáculo foi uma experiência de extrema vulnerabilidade. Eu não tinha qualquer controle sobre o que seria feito da história, eu simplesmente não sabia como as coisas aconteceriam. À medida que o espetáculo se desenrolava o meu corpo relaxava e o coração se alegrava. Me emocionei, chorei e me encantei com a forma que a história foi contada, com a potência das atrizes, com a sintonia delas. Não imaginei que viveria algo parecido e sou grata por ter tido a oportunidade de experimentar algo tão rico!

Rafael Souza-Ribeiro – dramaturgo
A peça conta com elementos diferentes do texto original, como a escolha de centrar a história em três personagens femininas — a mãe e as duas filhas —, enquanto o livro apresenta uma família formada por mãe, pai, duas filhas e um filho. Qual é a responsabilidade de levar uma história do livro para o teatro e, nesse processo, quais são as escolhas necessárias para preservar a essência da obra, ao mesmo tempo em que se amplia a narrativa para além das margens do livro e se cria algo original?
Na verdade, eu faria uma distinção aí. A família na peça continua sendo formada por mãe, pai, duas filhas e um filho. O que muda na dramaturgia é quem ganha corpo em cena. Os homens não foram retirados da história: eles permanecem profundamente presentes nela, mesmo sem aparecer fisicamente no palco.
Enquanto dramaturgo, eu parto de dois princípios: um romance não precisa do teatro para continuar existindo e nem toda boa história é, por si só, teatro. Então, quando escrevo a partir de uma obra literária, não me interessa reproduzi-la no palco, mas descobrir quais possibilidades dramatúrgicas existem dentro daquela matéria. O que ali pode se tornar ação, presença, conflito, jogo. Isso exige liberdade para reorganizar estruturas, tempos, situações e presenças, sem perder aquilo que me parece pulsar no coração da obra.
Em Mesmo Rio, eu soube desde o início que a montagem teria três atrizes, e essa premissa das idealizadoras abriu uma possibilidade muito potente: contar a história inteira de uma família a partir dessas três mulheres. Mas me interessava que a ausência física dos homens não significasse ausência dramatúrgica. Eles não têm corpo em cena, mas sua presença atravessa a história dessas mulheres.
Essa concentração me permitiu fazer uma operação que foi fundamental na escrita: reunir mãe e filhas numa mesma noite e transformar a memória no próprio presente da peça. O passado não é apenas narrado. Ele invade a cena, é revivido, contradito, reorganizado. Cada uma guarda uma versão daquela família, e o teatro acontece no choque entre essas versões.
Manter a essência de uma obra não significa necessariamente preservar sua forma. Às vezes é justamente transformando a forma que conseguimos permanecer fiéis ao que nos mobilizou naquela história. Meu trabalho foi procurar o teatro que existia em Mesmo Rio e encontrar uma forma possível para que ele acontecesse diante do público.

Renata Tavares – encenadora
1) Um dos pontos principais da peça trata de questionar a ideia de que os vínculos familiares, por si só, bastam. Mais do que debater a necessidade de manutenção desses vínculos, como vocês abordam a maneira como os indivíduos, membros dessa família, se enxergam para além do papel que desempenham nessa estrutura?
Quando o público entra no teatro, a individualidade dessas mulheres já está posta, inclusive pela própria estética das personagens. São mulheres diferentes, com pensamentos, histórias e pontos de vista diferentes.
Para além dos títulos de mãe e filhas, existe uma circunstância importante: o pai e o irmão estão ausentes. É uma conversa entre mulheres, e os homens se abstiveram de participar das decisões dessa família. Isso faz com que essas mulheres sejam obrigadas a desempenhar outros papéis, que não são apenas os de mãe e filha, para conseguir performar satisfatoriamente dentro da estrutura familiar.
Cada uma carrega sua própria história e seu ponto de vista, e é justamente nesses pontos de vista que aparecem os atravessamentos da cultura, da educação e do afeto. Talvez o que as una seja justamente o afeto — com ele ou sem ele.
A peça também coloca uma questão sobre a formação dos indivíduos: para que uma pessoa possa se constituir sem perpetuar seus traumas, essa família precisa atravessar uma conversa e uma transformação. Essas mulheres se desdobram para performar na vida e, infelizmente, também dentro da própria família, quando esse deveria ser justamente o lugar do acolhimento.
2) A peça foi ambientada no Natal, considerado o feriado mais popularmente familiar. É possível considerá-lo um personagem dessa história?
Eu vejo o Natal mais como o ambiente e o motivo que reúnem essas pessoas para performar aquele momento familiar. Ele não é propriamente um personagem.
As personagens são aquelas mulheres: suas vidas, seus atravessamentos, suas conquistas, seus desejos e seus amores. Poderia ser outro feriado, outra ocasião, outro motivo para aquela família se reunir. O que permanece são as relações que elas continuam tentando manter, mesmo quando são tortas, mal resolvidas e, às vezes, chegam a situações absurdas.
O Natal funciona como esse dispositivo de reunião e de manutenção daquilo que, dentro daquela família, precisa ser revisto.
3) Vocês disseram que essa família interpretada na peça “é uma família que existe e que pode ser reconhecida em muitas casas brasileiras”, e esta é uma história que retrata uma família marcada pelas desigualdades sociais. De que maneira vocês abordam como os fatores sociais externos afetam o núcleo familiar e, muitas vezes, contribuem para os ruídos ou até mesmo para a quebra desses vínculos?
Do ponto de vista das relações mal resolvidas, essa família pode ser reconhecida em muitas casas brasileiras. Se não é uma relação com a mãe, com o pai ou com um irmão, pode ser com um tio, uma tia, um avô. Existe, em muitas famílias, essa necessidade de querer que o outro seja aquilo que pensamos que ele deveria ser. E isso destrói relações por incompreensão e também pela necessidade de dar satisfação à sociedade, de pertencer a determinado modelo e a determinada classe social.
A peça traz uma família negra de classe média em ascensão, e essa ascensão também produz atravessamentos. Conviver em uma classe média que não é negra pode trazer silenciamentos e uma necessidade constante de se encaixar: na aparência, na roupa, na maneira de falar, de agir e de se comunicar.
Às vezes, para ocupar esse lugar social, você deixa de lado aquilo que gostaria de vestir, de fazer ou de ser para corresponder a determinado padrão. E isso pode chegar ao apagamento de elementos da própria ancestralidade — inclusive desse lugar de festa, de comemoração e de celebração da vida que vem do nosso povo.
Existe também um movimento de apagamento histórico que pode ser reproduzido dentro da própria família. Quando uma família negra ascende socialmente, pode existir o desejo de não reviver as experiências dolorosas vividas pelas gerações anteriores e, nesse processo, algumas raízes acabam sendo deixadas de lado. Há, claro, famílias que ascendem e fazem questão de preservar suas raízes e sua ancestralidade, mas esse atravessamento social existe.
A questão racial aparece em todos esses espaços: no elevador, na rua, na praça, em uma festa, no bairro, em um consultório, no shopping. Quando você passa a enxergar a racialidade, começa a percebê-la em todos os lugares. E existe uma escolha cotidiana entre discutir aquilo naquele momento ou deixar passar, sabendo que, mais uma vez, você foi atravessada por aquela experiência.

4) Qual tipo de provocação vocês esperam que a apresentação desperte nas pessoas e quais debates vocês gostariam que surgissem a partir da interação dos espectadores com essa história?
A provocação é colocar o espectador dentro da casa de uma família, acompanhando aquilo sem poder interferir, defender ou julgar e, em algum momento, fazer com que ele se reconheça ali.
As frases do espetáculo são muito poderosas porque estão sempre perguntando alguma coisa e revelando silêncios. Existe uma frase: ‘Um pouco de amor teria mudado tudo.’ Mas como falar de amor quando não se tem amor para oferecer? Quando não se aprendeu a oferecer esse afeto ou quando se criou uma casca para não lidar com ele?
Talvez a provocação seja justamente essa: reconhecer um pouco da própria família e perceber que ainda existe a possibilidade de mudar enquanto há tempo.
As identificações que já aconteceram com o espetáculo mostram que as pessoas encontram ali alguma coisa de suas próprias vidas. E existe também uma reflexão sobre a responsabilidade pelas próprias atitudes. Por mais que a gente queira encontrar um culpado para aquilo que fazemos, o espetáculo não está culpando ninguém. Ele está propondo um acerto de contas enquanto há tempo.
Talvez seja essa a principal pergunta que fica: o que eu ainda tenho coragem de fazer, dizer ou reparar? Pedir desculpas, dizer “eu te amo”, permitir que o outro escute esse “eu te amo”.
Porque estamos falando de um sentimento aparentemente simples, mas muito delicado: o amor. Tão difícil de conquistar e, muitas vezes, tão difícil de assumir. E, quando se assume o amor, ele pode libertar muita coisa na vida.
Mesmo Rio
Serviço
Temporada: 17 de setembro a 18 de outubro de 2026
Não haverá apresentações: de 1º a 4 de outubro
Dias da semana: de quinta a domingo
Horário: quinta e sexta, às 20h; sábado e domingo, às 18h
Local: Teatro de Arena do Sesc Copacabana
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ
Duração: 75 minutos
Classificação: 12 anos
Ingressos: R$ 40 (inteira); R$ 36 (conveniados); R$ 31 (conveniados empresário); R$ 28 (credencial plena Sesc); R$ 20 (meia-entrada); gratuito (público PCG)
Venda online: ingresso.com
Capacidade: 260 lugares
Gênero: drama
Acessibilidade:
Libras: 26/9 e 10/10 (sábados)
Audiodescrição: 27/9 (domingo)
Ficha técnica
Da obra Mesmo Rio, de Elisama Santos
Dramaturgia: Rafael Souza-Ribeiro
Encenação: Renata Tavares
Elenco: Graciana Valladares, Mila Moura e Sirléa Aleixo
Direção Musical: Ifátókí Maira Freitas
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenário: Jovanna Souza
Figurino: Teresa Abreu
Assistente de direção: Bianka Carrilho
Assistente de figurino: Nayara Pereira
Costureira: Francisca Sabóia
Assessoria de imprensa: Lyvia Rodrigues | Aquela Que Divulga
Mídias Sociais: Camila Monteiro e Lore | Camarujo
Designer gráfico: Ludmila Valente
Fotografia: Renato Mangolin
Produção executiva: Maduh Cavalli
Produção: Marina Dib e Ana Flávia Massadas
Direção de produção: Bárbara Galvão e Fernanda Pascoal | Pagu Produções Culturais
Idealização e coordenação de produção: Bárbara Galvão, Carolina Bellardi e Fernanda Pascoal | Pagu Produções Culturais

