Lançado pela editora O Zezeu em 2026, O Boneco é o romance de estreia do escritor, ator e bacharel em psicologia Pedro Sanches Virgolino, de 23 anos, natural de Macapá (AP).
O romance é ambientado no Rio de Janeiro de 1969, em um dos períodos mais sombrios da ditadura militar brasileira, e combina suspense, horror e elementos de investigação para construir uma narrativa em que a paranoia individual se confunde, pouco a pouco, com os medos e as tensões de uma sociedade marcada pela repressão.
O protagonista, Severino, é um jovem de origem humilde que conseguiu ingressar na faculdade graças a uma bolsa de estudos. Entre os estudos, o estágio na biblioteca da instituição e o relacionamento com uma jovem pertencente a uma família abastada, sua vida parece seguir um caminho relativamente previsível. Essa aparente estabilidade, porém, começa a ruir quando acontecimentos cada vez mais estranhos passam a interferir em sua rotina.
É nesse momento que o romance começa a explorar uma de suas questões mais interessantes: até que ponto aquilo que Severino percebe corresponde, de fato, à realidade? À medida que se sente observado e perseguido, passa a ter sonhos inquietantes e a identificar sinais que parecem apontar para algo que escapa à sua compreensão. Gradualmente, o protagonista se transforma em uma espécie de “boneco” de sua própria paranoia, incapaz de distinguir se está sendo manipulado por forças externas ou se está sendo conduzido pelos próprios medos.
Essa dúvida se estabelece já no início da narrativa, quando, após um pesadelo, Severino sente-se observado e, diante da própria incapacidade de compreender o que está acontecendo, questiona-se: “será que estou ficando demente?” (p. 18). A pergunta sintetiza a crescente instabilidade de sua percepção e introduz uma das principais tensões do romance: a possibilidade de que aquilo que parece perseguição seja, na verdade, fruto de sua imaginação — ou, mais inquietantemente, de que sua paranoia esteja fundamentada em acontecimentos reais.
A própria condição de Severino contribui para intensificar essa ambiguidade. Jovem de origem humilde, inserido em um ambiente universitário e social ao qual não pertence originalmente, ele ocupa uma posição ambígua: é, ao mesmo tempo, observador e intruso. Seu relacionamento com Nadja, uma jovem de família abastada, permite-lhe aproximar-se de um universo que lhe é estranho, mas também o coloca diante de aspectos perturbadores dessa realidade. Ao longo da narrativa, Severino descobre, por exemplo, ligações inquietantes entre a família da namorada e o nazismo.
A suspeita ganha contornos mais concretos quando ele confronta Nadja sobre as misteriosas origens de um médico, amigo da família, que veio da Alemanha, mudou de nome e mantém relações próximas com os militares. Diante da situação, Severino não consegue esconder sua incredulidade:
“E como você e sua família são amigos dele normalmente? Quer dizer, ele é literalmente um nazista…” (p. 56).
A resposta de Nadja, porém, torna a situação ainda mais perturbadora justamente por sua aparente naturalidade: “Ah, querido, as pessoas são assim. Elas têm defeitos…” (p. 56). A banalidade com que a jovem trata a revelação contrasta radicalmente com a gravidade daquilo que Severino descobre e contribui para aprofundar sua sensação de estranhamento. Assim, o que inicialmente poderia ser interpretado como uma sucessão de coincidências ou mesmo como fruto de uma imaginação cada vez mais perturbada passa, gradualmente, a adquirir contornos muito mais sinistros.
Sanches utiliza esse processo para construir um suspense que depende menos de respostas imediatas e mais da sensação constante de que existe alguma coisa escondida sob a superfície. A atmosfera de O Boneco é marcada justamente por essa incerteza: o leitor acompanha Severino sem jamais ter plena segurança de que está interpretando os acontecimentos corretamente. Sonhos, suspeitas, perseguições e descobertas se misturam, fazendo com que a própria realidade adquira uma qualidade quase onírica, construindo assim um suspense que remete a obras como A Volta do Parafuso, de Henry James.
Nesse sentido, o contexto histórico não funciona apenas como pano de fundo. O Rio de Janeiro de 1969 é uma cidade atravessada pela violência política, pela censura, pela vigilância e pelo medo. Em uma sociedade na qual a sensação de estar sendo observado fazia parte da experiência cotidiana, a paranoia de Severino ganha uma dimensão que ultrapassa o indivíduo. O suspense sobrenatural ou conspiratório encontra, assim, um terreno particularmente fértil na realidade histórica brasileira: em meio a uma ditadura, afinal, o que poderia parecer delírio também poderia ser verdade.
Outro elemento que chama a atenção é a maneira como o romance aproxima diferentes imaginários ligados ao mal — a ditadura, o nazismo, sociedades secretas e o universo do ocultismo. Pedro constrói a narrativa a partir do encontro dessas referências, levando o protagonista a uma jornada que progressivamente abandona o terreno das simples suspeitas para revelar uma trama muito mais obscura.
É a partir desse conjunto de elementos — a paranoia de Severino, a atmosfera histórica e a sucessão de acontecimentos que parecem desafiar uma explicação racional — que também se torna possível observar com mais atenção as escolhas estilísticas do autor. A linguagem de O Boneco participa da construção desse universo de estranhamento, embora de maneira bastante particular.
Um dos aspectos que mais chama a atenção é a presença de descrições minuciosas, especialmente quando se trata das roupas e da aparência das personagens. Peças de vestuário, tecidos, cortes e acessórios recebem atenção considerável ao longo da narrativa. Mais do que simplesmente situar a história no Rio de Janeiro de 1969, esse recurso contribui para conferir materialidade ao período e para marcar as diferenças sociais entre os personagens, o que demonstra um domínio do assunto pelo autor, evidenciando um árduo trabalho de pesquisa por trás do processo de escrita e de cada descrição presente na prosa. O vestuário torna-se, assim, uma espécie de instrumento de caracterização, ajudando a delinear tanto a posição social das figuras que circulam pela narrativa quanto os ambientes aos quais elas pertencem.
Ao mesmo tempo, esse investimento descritivo pode tornar determinados momentos da narrativa mais densos. Há passagens em que a descrição das roupas e da aparência assume uma extensão significativa, fazendo com que a atenção aos detalhes se sobreponha temporariamente à progressão da ação. Esse procedimento confere à narrativa uma cadência própria, mais interessada em observar e construir uma cena do que simplesmente conduzi-la rapidamente adiante. Para um romance de suspense, no qual a expectativa depende em grande medida do ritmo, trata-se de uma escolha que produz efeitos curiosos: em vez de acelerar constantemente a narrativa, Sanches por vezes a faz permanecer sobre determinados elementos, prolongando a sensação de que há algo a ser percebido ou decifrado.
A mesma característica pode ser percebida na adjetivação e em determinadas estruturas sintáticas. O autor frequentemente opta por construções que fogem de uma prosa inteiramente convencional, seja pela maneira como organiza as frases, seja pelas combinações de palavras utilizadas para descrever pessoas, objetos e situações. O resultado é uma linguagem que, em alguns momentos, provoca um estranhamento no leitor. As frases nem sempre parecem buscar a maior economia ou fluidez possível; ao contrário, há nelas uma espécie de insistência descritiva que chama atenção para a própria construção do texto.
Esse estranhamento, contudo, dialoga de maneira interessante com o próprio projeto do romance. Afinal, O Boneco é uma narrativa construída sobre a dificuldade de distinguir o familiar do perturbador, a realidade da imaginação e a coincidência da conspiração. Uma escrita que ocasionalmente desloca as expectativas do leitor em relação à construção de uma frase ou à descrição de uma cena acaba contribuindo, ainda que de maneira não necessariamente deliberada, para essa atmosfera de desorientação. A linguagem participa, portanto, da experiência de instabilidade que caracteriza a trajetória de Severino.
Há também, nessas escolhas, a impressão de uma voz autoral ainda em processo de consolidação. Como romance de estreia, O Boneco revela um escritor experimentando diferentes possibilidades de descrição, ritmo e elaboração sintática, em busca de uma maneira própria de construir sua narrativa. Em alguns momentos, essa experimentação torna a prosa mais carregada do que seria necessário para a progressão da história; em outros, porém, produz imagens e combinações que contribuem para a personalidade do texto. É justamente essa tensão entre o excesso e a experimentação que torna o estilo de Sanches particularmente interessante de observar: a escrita ainda parece estar descobrindo seus próprios limites, mas já demonstra uma preocupação evidente em construir uma voz que não seja inteiramente neutra ou transparente.
O Boneco revela, portanto, um autor interessado sobretudo em criar atmosfera e em brincar com as fronteiras entre realidade e paranoia. Seu maior mérito está justamente em fazer com que o leitor compartilhe da crescente insegurança de Severino: conforme a história avança, torna-se cada vez mais difícil distinguir aquilo que é fruto de sua imaginação daquilo que efetivamente está acontecendo.
O resultado é um suspense que utiliza o contexto histórico brasileiro não apenas para situar sua trama, mas para potencializar seu horror. Porque, em O Boneco, o medo não está somente naquilo que se esconde nas sombras ou nas conspirações que Severino começa a descobrir. Está também na possibilidade de que, em determinados momentos da história, a realidade seja suficientemente perturbadora para tornar a paranoia perfeitamente plausível.

