Em sua primeira encíclica papal, Magnifica Humanitas, o papa Leão XIV citou “O Senhor dos Anéis”, de J. R. R. Tolkien, para ilustrar o dever coletivo de lutar contra os males de nossa época.

Enquanto governos e corporações continuam a encorajar o uso indiscriminado da Inteligência Artificial, o ministério do Papa Leão XIV tem sido caracterizado por sua forte oposição à avanços tecnológicos que venham às custas dos direitos humanos e da dignidade individual e coletiva; o papa, assim, tem falado abertamente sobre a IA em várias ocasiões.
Em sua primeira encíclica papal, o Papa Leão XIV enfatizou a importância de preservar a pessoa humana frente ao aumento da utilização da Inteligência Artificial – e citou “O Senhor dos Anéis” ao fazê-lo. Abaixo, o parágrafo completo:
Papa cita Tolkien em encíclica:
“O escritor católico do século XX J. R. R. Tolkien, nas palavras de um protagonista de um de seus livros, descreveu nossa responsabilidade da seguinte forma: ‘Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer aquilo que está ao nosso alcance para socorrer os anos em que nos foi dado viver, arrancando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois tenham uma terra limpa para cultivar’.
A civilização do amor não virá de um gesto único ou espetacular, mas da soma total de pequenos e constantes atos de fidelidade que servem como um baluarte contra a desumanização. Por essa razão, vale a pena parar para refletir sobre alguns aspectos de como nós, cada um à sua maneira, podemos cooperar na construção da civilização do amor. Sem pretender esgotar esse tema, gostaria de propor cinco caminhos para uma responsabilidade cotidiana e pública: a necessidade de desarmar as palavras, construir a paz no meio da justiça, adotar a perspectiva das vítimas, cultivar um realismo saudável e reviver o diálogo e o multilateralismo.”
O Papa e Gandalf
A frase citada por Leão XIV vem do livro “O Retorno do Rei”, última parte de “O Senhor dos Anéis”. Ela pode ser encontrada no “Último Debate” (Livro 5, capítulo 9 de O Senhor dos Anéis), onde Gandalf conclama os Homens do Oeste à oporem sua derradeira resistência às forças de Sauron. A passagem completa diz:
“Outros males existem e podem vir; pois Sauron nada mais é do que um emissário ou servo ele próprio. Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer aquilo que está ao nosso alcance para socorrer os anos em que nos foi dado viver, arrancando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois tenham uma terra limpa para cultivar. Que clima terão não é nossa prerrogativa controlar.”

Nessa fala, Gandalf pede aos Homens que reúnam toda a sua coragem e força para enfrentar o mal que ameaça o tempo em que vivem. Ao mesmo tempo, ele admite que outros males podem surgir no futuro, e que, entretanto, está fora de seu controle fazer qualquer coisa à respeito deles. O conselho de Gandalf nesse momento ecoa o conselho que ele dá a Frodo no início da aventura. Em “A Sociedade do Anel”, Frodo lamenta “Eu queria que isso não tivesse acontecido no meu tempo”, e Gandalf responde: “Eu também, e todos os outros que vivem para ver tais tempos. Mas isso não é para eles decidirem. Tudo o que podemos decidir é o que fazer com os tempos que nos são dados.”
“Os campos que conhecemos”
Os heróis de Tolkien são personagens que, de maneira altruísta, não procuram dominar, mas sim cultivar e manter, os “campos que eles conhecem”. Personagens virtuosos, como Gandalf, Aragorn, Galadriel, Tom Bombadil e Sam Gamgee lembram os leitores que “todas as coisas que crescem e vivem na terra pertencem à si mesmas”, e que a verdadeira liderança exige humildade, misericórdia, e confiança na Providência. Em contraste, os vilões de Tolkien buscam a soberania total, o poder e o domínio – representados de maneira mais óbvia no personagem de Sauron, que se tornou “uma coisa que deseja o Poder Total – e portanto consumido profundamente pelo ódio”.
No parágrafo 212, o papa Leão XIV admite que cada um de nós tem uma capacidade diferente de fazer a diferença – e entretanto todos devemos fazer nossa parte para construir uma “civilização de amor.” Essa mensagem não é dissimilar à sabedoria de Elrond no Conselho de Elrond: “Essa aventura pode ser tentada pelos fracos com tanta esperança quanto pelos fortes. Assim com frequência é o curso dos feitos que movem as rodas do mundo: pequenas mãos os fazem por que devem, enquanto os olhos dos grandes voltam-se para outras partes”. Mais tarde, ele diz dos hobbits: “Essa é a hora do povo do Condado, para sair de seus campos silenciosos e sacudir as torres e conselhos dos Grandes.”
Tolkien e a tecnologia bélica na Primeira Guerra Mundial:
J. R. R. Tolkien nasceu em 1892 e morreu em 1973. Durante seu tempo de vida, ele testemunhou os efeitos da Revolução Industrial, a Primeira Guerra Mundial (na qual lutou), a Segunda Guerra Mundial, a bomba atômica e a Guerra Fria, dentre muitos outros eventos históricos que uniram tecnologia, mudança e, eventualmente, violência.
A experiência de Tolkien na Primeira Guerra Mundial foi fundamental, como inspiração, para a composição de O Senhor dos Anéis e O Hobbit. A Primeira Guerra foi particularmente marcada pelos efeitos nocivos dos avanços tecnológicos da Revolução Industrial à dignidade humana em conflito: a introdução de novas tecnologias de guerra (como tanques, armas químicas, metralhadoras, aviões, morteiros de trincheiras, bolas de estilhaço e artilharia pesada moderna) ao arsenal dos grandes exércitos europeus foi devastadora. A experiência dos soldados de trincheira – como Tolkien – na Grande Guerra esteve invariável e visceralmente conectada ao tipo de combate formado pelos avanços tecnológicos tão fundamentais para a situação aterradora vivida pelas tropas.
Muitos veteranos da Grande Guerra relataram viver aquilo que Wilfred Owen definiria como “Insensibilidade”: parte de uma desumanização inerente à Grande Guerra, fruto desse salto tecnológico da violência. O tipo de guerra vivido por Tolkien, com sua dependência inédita das armas mecanizadas, trincheiras, armas químicas e bombardeios impessoais, transformou a guerra em um evento de aniquilação massiva e sofrimento psicológico sem precedentes.
Em última instância, homens na Grande Guerra matavam menos, muito menos, que seus equivalentes medievais ou napoleônicos, que muitas vezes olhavam nos olhos de seus inimigos e sentiam as lâminas perfurarem os corpos – mas as granadas que atiravam e metralhadoras que controlavam causavam massacres que para seus ancestrais seriam impensáveis. Há um elemento intensamente enervante e psicologicamente devastador nas ordens sem rosto, tão inéditas – na escala em que se apresentaram – até a Grande guerra, que resultavam com frequência na corrosão silenciosa da consciência de quem as executava.
Esse elemento do conflito contemporâneo que a Grande Guerra inaugurava estava no centro da consciência dos homens que lutaram, exatamente por sua novidade, e seria a característica definitiva, e cada vez mais extrema, de todo grande conflito posterior. A morte na guerra moderna é rendida cada vez mais impessoal, e essa impessoalidade exacerba o desperdício humano de maneira desesperadora. O grotesco, o atroz, o incompreensível se torna naturalizado na luta contra o enlouquecimento completo; o luto é diluído, resultando em um tipo de trauma coletivo que poucos outros eventos mundiais foram capazes de convocar, e a humanidade tanto das vítimas quanto dos perpetradores de toda e qualquer ação é parcialmente obscurecida no processo.

Dessa forma, não é de se surpreender que os escritos de Tolkien conversem tão diretamente com questões ligadas à tecnologia, (des)humanização e o desgaste da dignidade humana frente à avanços descontrolados e sem regulamentação. Essa questão estava no centro – consciente ou não – de suas preocupações, e surge no centro de O Senhor dos Anéis. Essas mesmas questões ressurgem hoje – quando a tecnologia bélica já chegou a tal ponto que as preocupações se movem em direção à outros tipos de tecnologia, menos vistosos, mas talvez mais insidiosos – como a IA.
Tolkien, Tecnologia e Tempos de Grandes Mudanças
Leitores de Tolkien hão de reconhecer temas de misericórdia, cuidado, dignidade humana, ambientalismo e anti-industrialização como presentes em toda a saga de O Senhor Dos Anéis, onde a palavra “mágica” é utilizada para descrever tanto o poder sobrenatural dos elfos quanto as ferramentas dos vilões de Tolkien. Apesar do mesmo nome, eles não são a mesma coisa; Tolkien explica que os Hobbits, cuja perspectiva informa a escrita de O Senhor dos Anéis, não tem uma palavra adequada para descrever os poderes naturais dos elfos, e então o termo “Mágica” é usado. Para melhor expressar essa diferença, entretanto, o próprio Tolkien, em suas cartas, descreve os poderes élficos como “Arte” e as ferramentas do Inimigo como “Máquina”.
A decisão de Tolkien de descrever a magia do inimigo como uma “Máquina” ilustra seu desprezo pela industrialização massiva, enquanto a descrição da magia élfica como “Arte” reflete seu amor por ideias de criação, derivação, e contação de hisórias.

Em uma carta de 1944 para seu filho Cristopher, Tolkien escreveu “Aí estão a tragédia e o desespero de toda maquinaria desnudados. Ao contrário da arte, que se contenta em criar um mundo novo e secundário em sua mente, [a maquinaria] tenta materializar desejos, e assim criar poder nesse Mundo; e isso não pode ser de fato atingido com qualquer satisfação real. Máquinas para poupar trabalho apenas criam trabalho pior e sem fim. E adiciona-se à essa deficiência fundamental da criatura a Queda, que faz com que nossos dispositivos não apenas falhem em seus desejos, mas se voltem para males novos e horríveis.”
Tolkien lamentou o avanço da utilização de máquinas tanto na guerra quanto na produção em massa, resultando em condições de vida miseráveis para muitos operários, destruição física e psicológica de soldados, e contribuiu para a depredação do campo inglês tão amado pelo escritor. Enquanto os Hobbits de Tolkien se esquivam de máquinas complicadas, o mago caído Saruman é descrito como tento uma “mente de metal e rodas: e ele não se importa com coisas que crescem, exceto por como elas podem lhe servir naquele momento.”
Ao fim da Segunda Guerra Mundial, Tolkien observou que o conflito tinha sido uma “Guerra das Máquinas” na qual o único vencedor tinha sido as próprias máquinas. Em outra carta para seu filho, em 1945, ele pareceu prever o futuro que afora confrontamos: “Como os servos das Máquinas estão se tornando a classe privilegiada, as Máquinas serão enormemente poderosas. Qual será o próximo passo delas?”
Tolkien e o papado
Quando eleito papa em 2025, o então cardeal Robert Prevost escolheu o nome papal de Leão XIV como uma “referência clara e deliberada ao papa Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum, de 1891. Aquele documento marcou o começo da doutrina social moderna da Igreja.”. O papado de Leão XIII durou de 1898 á 1903. Leão XIII enfatizava a dignidade e os direitos dos trabalhadores na era da industrialização, e essa visão se alinhava com as crenças expressadas por Tolkien tanto em sua ficção publicada quanto em suas cartas pessoais.

O predecessor de Leão XIV, o Papa Francisco, citou Tolkien várias vezes ao longo do próprio papado, que também se alinhava com as preocupações ambientalistas e humanitárias defendidas pelo autor. Em sua homilia de Natal de 2023, Francisco citou Tolkien – chamado por ele de “um grande contator de histórias épicas” -, lendo uma passagem de uma carta de Tolkien para seu filho Michael, onde ele enfatizava a importância da eucaristia. Francisco também citou Tolkien brevemente no posfácio de um livro italiano de 2022, “Weaving the World”, escrevendo que “Como Frodo, o personagem principal de ‘O Senhor dos Anéis’ de Tolkien, diz: os contos nunca acabam”.
Renovação da coragem:
Embora cada tempo tenha seus próprios males, o conselho de Gandalf pode ser aplicado de forma universal: mesmo que o futuro permaneça firmemente fora do nosso controle, cada um de nós é um guardião de certa medida de tempo, recursos e responsabilidades. A sabedoria do papa Leão XIV e de J. R. R. Tolkien é um chamado para renovar a coragem na luta pelos direitos humanos e pela dignidade frente à desumanização. Eles nos lembram de priorizar as necessidades do ser humano, e não as da Máquina, buscando construir um mundo que permanecerá limpo e inteiro para gerações futuras.
Regulações devem ser postas e estritamente observadas para temperar a ganância, o desejo pelo poder e o progresso descontrolado. Embora os grandes contos da Terra Média sejam ficção, eles são baseados em eventos reais, e oferecerem um retrato sombrio das consequências do poder desregulado. A inclusão dessa passagem de “O Senhor dos Anéis” na encíclica do Papa Leão XIV também lembra à seus leitores que cada um de nós tem um papel, pequeno ou grande, e que é através das pequenas ações diárias que podemos fazer mudanças reais e duradouras. “A civilização do amor não vai surgir de um gesto único ou espetacular, mas da soma total de pequenos e persistentes atos de fidelidade que servem como um baluarte contra a desumanização”.
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Matéria baseada em matéria do site Tea With Tolkien e no livro Into The Heart of Middle Earth.

