Nesta nova investida no gênero do ensaio, a consagrada escritora e atriz argentina Camila Sosa Villada demonstra uma disposição ainda maior para explorar a potência do não dito. Por meio de fragmentos, ela nos guia por um delicado fio de navalha que, ora se constrói com memórias da infância e da relação com os pais, ora se adensa com a intensidade sensorial de uma sexualidade pulsante.

Repleto de passagens marcantes, o livro apresenta lampejos de ficção e articula temas como a descoberta sexual, o prazer da leitura, a liberdade, a vergonha, o trabalho sexual, a violência presente no amor e a identidade travesti, entre outros. Tudo isso em diálogo constante com referências literárias, investigando a linguagem em busca de uma verdade essencial, seja na ideia de que não vivemos para ser felizes, mas para trabalhar, seja na concepção do erotismo como “aproximar-se da morte sem sucumbir a ela”.
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“Algo impossível: privar-me do luxo de escrever, escrever muito, em vão, até mesmo sem ter nada a dizer. Não sei qual porta deve ser aberta para a boa escrita, mas cada fechadura que forço me leva a um lugar diferente: a luxúria das palavras, a infância dolorosa, o deleite das mulheres, o deleite das travestis e o desejo fracassado pelos homens. Não sei fazer outra coisa, por isso busco na fenda da ficção a proposta de um mundo que não existe, um mundo que se nomeia pela primeira vez.”
A traição da minha língua, publicada pela editora Fósforo, revela-se uma obra preciosa, composta por textos intensos que nos observam “como uma loba à espreita, próxima a uma fogueira”. Ou, como a própria autora sugere em sua expressão mais potente, sem pudores e sempre impactante: “uma daquelas flores que carregam veneno em vez de seiva”.
Sobre a autora:

Camila Sosa Villada nasceu em 1982 na cidade de La Falda, em Córdoba, na Argentina. É autora de diversos contos e romances, entre eles As malditas (Companhia das Letras, 2025), que recebeu o prêmio Sor Juana Inés de la Cruz pela Feira Internacional do Livro de Guadalajara. Também é atriz, tendo estrelado a adaptação cinematográfica de seu romance Tese sobre uma domesticação (Companhia das Letras, 2024). Na Fósforo, além deste A traição da minha língua, publicou A viagem inútil: trans/escrita (2024).

