Marcelo Crivella terá de pagar R$ 100 mil por discriminação e censura a HQ com temática LGBT em Bienal do Rio

A Justiça do Rio de Janeiro confirmou a condenação do ex-prefeito Marcelo Crivella pelo caso de censura ocorrido na Bienal do Livro de 2019. Com a decisão, Crivella foi obrigado a pagar R$ 100 mil por danos morais coletivos, após determinar a apreensão de publicações que retratavam beijos entre pessoas do mesmo sexo.

O episódio se tornou um dos símbolos mais marcantes da gestão de Crivella. Durante a Bienal, a Prefeitura do Rio tentou recolher exemplares da HQ “Vingadores: A Cruzada das Crianças”, da Marvel, que continha uma cena de afeto entre os personagens Wiccano e Hulkling. A ação gerou forte reação pública, aumentou ainda mais a procura pela obra e acabou chegando ao Supremo Tribunal Federal (STF), que suspendeu a apreensão de materiais com temática LGBTQIA+.

No acórdão da 4ª Câmara de Direito Público, o relator, desembargador Guilherme Braga Peña de Moraes, destacou que a conduta do então prefeito foi além de qualquer debate sobre classificação indicativa e revelou um tratamento discriminatório. Segundo o magistrado, “ao mobilizar a máquina pública para lacrar revistas em quadrinhos cujas capas exibiam representações de afeto entre pessoas do mesmo gênero, o ex-prefeito demonstrou uma compreensão desigual sobre as diferentes formas de afeto”.

Os desembargadores também entenderam que apenas anular o ato administrativo não seria suficiente para reparar o dano causado. O julgamento registra que “a grande repercussão nacional do caso, inclusive pela exposição voluntária do réu nas redes sociais, justifica a conclusão de que a simples cassação do ato ilegal não repara adequadamente a lesão aos interesses difusos envolvidos”.

Com isso, foi mantida a indenização de R$ 100 mil, que será destinada a fundos de políticas públicas de combate à discriminação por orientação sexual no Rio de Janeiro. O que começou como uma tentativa de censura em uma feira literária terminou como uma significativa derrota judicial para Marcelo Crivella e como um forte posicionamento do tribunal contra o uso da máquina pública para fins discriminatórios.

Com informações do Portal Tempo Real.

Related posts

Manuscritos de Luiz Gama podem ser reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Documental Mundial

Justiça nega pedido do Escola Sem Partido para proibir livros que tratam de racismo e mantém lista de leituras da UFRGS

“Nau de Urano”: Matheus Nachtergaele e Bete Mendes mergulham na vida e no imaginário de um dos maiores nomes da poesia brasileira