“A Mensageira”(2026) constrói emoção sem recorrer a atalhos narrativos

Toda a narrativa de A Mensageira parece existir em função de um único momento, próximo ao final da obra. Anika (Anika Bootz), uma jovem que possui o poder de se comunicar com animais, corre em direção à sua cuidadora, Myriam (Mara Bestelli) e a informa que falou com um pássaro, e o animal pediu que transmitisse a seguinte mensagem: “Mamãe te ama muito”. Essa simples frase causa um impacto enorme na mulher. Mesmo estando de perfil, podemos ver e absorver suas expressões: ela pisca rapidamente, sua respiração fica pesada. A cena muda, agora para um close, e seus olhos estão marejados. As duas se abraçam.

Essa cena reconfigura a relação dos personagens com os poderes de Anika. Até então, seu uso era voltado para questões comerciais: clientes pagavam para que a criança se comunicasse com seus animais mortos ou próximos de partir. Boa parte do filme dirigido por Iván Fund se volta para mostrar essas interações, com a paranormalidade de Anika revelando um pouco da vida interior dos animais, domésticos ou não. Apesar do viés financeiro, os personagens não possuem uma vida de luxo, e sua casa é uma van que usam para cruzar o interior argentino.

Entre um encontro e outro, há os momentos de domesticidade, como Anika lidando com um dente de leite, problemas respiratórios e sugestões de uma complicada história familiar, com sua irmã mais velha internada em um hospital psiquiátrico. Mas A Mensageira não está muito focado em alinhar todos esses aspectos, numa estrutura narrativa rígida ou em oferecer resoluções definitivas para cada um dos dramas apresentados. Pelo contrário, o interesse do realizador recai sobre a observação atenta e paciente do quotidiano destas figuras marginais, privilegiando os silêncios, os gestos contidos e as entrelinhas.

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Até o elemento sobrenatural é trabalhado nessa chave. Não há algo evidenciando que essa habilidade é real para o espectador de forma inquestionável. Não existem efeitos visuais, distorções sonoras ou qualquer artifício cinematográfico que ateste o fantástico para além da fé de quem escuta a menina.

O que é deixado claro como real é a relação das pessoas com seus animais. São nesses momentos que o filme busca mais artifícios para enfatizar os sentimentos em cena. Uma trilha sonora um pouco mais incisiva, ou a câmera se demora de forma mais detida e empática nos rostos daqueles que encontram nas palavras da garota o alento que tanto buscavam.

A Mensageira é, à sua maneira, um filme frustrante, pois não oferece grandes dramas ou suspense, somente uma silenciosa observação do cotidiano e das pequenas fissuras emocionais de seus personagens. No entanto, é justamente nessa recusa em seguir caminhos mais convencionais que reside sua singularidade. Iván Fund parece menos interessado em conduzir o espectador por uma narrativa tradicional e mais disposto a convidá-lo a habitar aquele universo, a compartilhar do tempo e da intimidade dessas vidas errantes.

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