Um longo voo. É assim que poderíamos, talvez, definir a infância, se é que a infância pode ser definida de alguma forma tão simples. É porque, embora ocupe um espaço que deixe muitas marcas e cicatrizes, ela nem sempre pode ser capturada por quem somos hoje em dia. Ela aparece no que sobrou do que a gente é.
Por isso, quando a gente pensa em infância é muito importante preservar, promover, guardar e, principalmente, cultivar em toda criança essa possibilidade: que toda criança possa voar. Pois é isso que faz Eliana Curado Barbosa em seu livro Myana Na Fazenda dos Avós.
Myana na Fazenda dos Avós, de Eliana Curado Barbosa, com ilustração de Francisco Veiga, é um livro infantil publicado pelo selo Asinha, da editora Ases da Literatura, que conta a história de Myana, uma menina que acabou de entrar de férias e é enviada pelos pais pela primeira vez de avião para a casa dos avós.
Após curtir o voo sozinha, com um pouco de medo e muita ansiedade, Myana, fecha os olhos, se inspira ao imaginar que passeia pelas nuvens. Ao chegar lá, ainda inspirada pela imaginação, é recebida pelos avô no aeroporto e é levada de carro até a fazenda em que passeia reconhecendo a paisagem, sendo recebida por um lanche da vovó.
Leia também: “Myana e o Segredo das Emoções”: livro de Eliana Curado Barbosa retrata infância como lugar de construção de identidade e singularidade
E assim se passam os dias: com muitas brincadeiras, lanches da vovó e muitos passeios ao lado do vovô, até chegarmos a um momento chave da obra em que Myana encontra uma grande árvore tradicional conhecida como Espatódea. Ao acompanhar a vida de Myana, e isto talvez seja a principal característica da escrita de Eliana, vamos encontrando alguns elementos, algumas marcas que vão se tornando pontos-chave do livro.
O primeiro deles é a nuvem com que Myana exerce sua imaginação dentro do avião. O segundo deles é o algodão do campo cuja imagem se reduplica à nuvem do avião. Porém, o principal deles é mesmo a árvore que dá à Myana uma noção também de sua própria genealogia:
Myana sorriu encantada e, passando sua mãozinha pelo tronco largo e áspero, disse com doçura:
–Olé Espatódea!
Vovô contou que aquela árvore foi plantada pelo avô de seu vovô e estava na família há muito tempo. Na primavera, ela se cobria de flores vermelhas brilhantes. E, além de tudo, era mágica!
E é justamente nessa árvore mágica e na junção do elemento nuvem/algodão que o livro vai construir no imaginário infantil o que seria o sonho e a possibilidade de habitar o mundo das crianças com essa possibilidade de sonhar.
Com isso, Eliana Curado Barbosa está não apenas criando um mundo em que as coisas são mágicas, mas permitindo que as coisas reais possam ser também mágicas e que, por exemplo, nossa infância, onde habitam pessoas importantes, como nossos avós, possa conter elementos antigos, ancestrais cujas histórias guardam segredos que nem mesmo a gente sabe. Por exemplo:
Em seu sonho, ela via crianças aconchegadas em suas camas, ouvindo seus pais contarem a história das travessuras dela na fazenda dos avós. Cada uma das crianças imaginava um final diferente. Algumas a viam voando sobre campos de algodão, como se fossem nuvens; outras a imaginavam descobrindo um novo segredo da árvore falante. O mundo dos sonhos era um turbilhão de histórias, onde cada criança criava sua própria versão daquela aventura.
Nesse sentido, Myana na Fazenda dos Avós ensina também que imaginação é parte também de uma brincadeira que se compartilha e a mágica se instaura quando se compartilha o jogo com quem se ama. Imaginar é parte de uma lógica amorosa e lúdica em que a infância se permite abrir-se a alguém. Myana, então, encontra na Fazenda dos Avós um ambiente mágico onde pode descobrir camas de algodão, árvores mágicas e muito mais…
Myana na Fazenda dos Avós, um livro que permite que a criança possa fantasiar e que sua imaginação possa voar. Daqui pra acolá!