Nas últimas duas décadas, vem ocorrendo uma discussão sobre o papel do homem na sociedade e como a masculinidade afeta as relações sociais e íntimas desses homens. O coletivo A Motosserra Perfumada, liderado por Biagio Pecorelli, coloca em pauta a alegoria dessa masculinidade em sua nova montagem.
A Culpa é dos Javalis se inicia em um ponto de ônibus isolado, onde cinco homens se reencontram após uma desastrosa festa de casamento. A responsável pela “barbárie” é Betty Braite, uma feminista radical e traficante de prazeres ilícitos.
A dramaturgia de Biagio Pecorelli em A Culpa é dos Javalis constrói-se de forma inteligente e política, partindo de uma premissa aparentemente simples — cinco homens isolados num ponto de ônibus — para criar um espaço alegórico de vulnerabilidade masculina. Ao empregar o conceito psicológico de Zick Rubin sobre a abertura entre estranhos, Biagio estabelece um dispositivo narrativo que permite aos personagens transcenderem a superficialidade e adentrarem um diálogo verborrágico e engraçado, porém progressivamente profundo. Essa estrutura conduz habilidosamente a conversa de confissões íntimas para críticas sociais amplas, como a consciência de classe, transformando o cenário minimalista em um microcosmo da crise da masculinidade e das suas contradições na sociedade contemporânea.

O elenco, formado por Camila Ríos, Victor Moretti, Bernardo Mendes, Carcarah, Afonso Bispo Jr. e Ernani Sanchez, atua como um organismo coeso e essencial para materializar a dramaturgia proposta, onde a ausência de um destaque individual é precisamente sua maior força. A qualidade da performance coletiva reside na forma como cada ator se encaixa perfeitamente em seu “tipo”, não como uma simplificação, mas como uma porta de entrada para a vulnerabilidade e a complexidade de seus personagens, permitindo que a dinâmica de grupo – baseada no conceito de abertura entre estranhos – flua com credibilidade e ritmo. Essa sintonia conjunta é fundamental para que o diálogo verborrágico e a progressão temática, do íntimo ao político, ocorram com a naturalidade necessária.
A luz concebida por Dugg Mont atua como um elemento narrativo e psicológico fundamental, transcendendo sua função técnica para tornar visível a própria estrutura dramática da peça. Ao iniciar com focos precisos e isolados sobre cada homem no ponto de ônibus, a iluminação espelha sua condição inicial de indivíduos fragmentados e encapsulados em suas próprias máscaras sociais. A ampliação progressiva desse círculo luminoso, no entanto, realiza uma tradução visual perfeita do conceito central da obra: à medida que os personagens se abrem em diálogo íntimo, a luz literalmente expande o espaço de vulnerabilidade compartilhada, transformando a cena em um campo de exposição mútua. A inclusão de LEDs, que empresta um ar de sofisticação contemporânea ao ambiente rústico, adiciona uma camada de ironia e tensão, realçando o contraste entre a crueza das confissões e a estetização do mundo que esses homens habitam, guiando assim o olhar do espectador através da jornada emocional e política que se desenrola na penumbra.

A direção de Biagio Pecorelli, suportada por Fernanda Comenda e pela preparação de elenco de Brunna Martins, demonstra-se absolutamente fundamental para concretizar a complexidade da obra, funcionando como a força de síntese que harmoniza e potencializa todos os seus elementos constituintes. Ao alinhar a dramaturgia cheia de nuances com um trabalho de atuação refinado e coletivo, a direção traduz o conceito psicológico de Rubin em uma dinâmica cênica orgânica e crível, onde o ritmo das revelações e a progressão dos diálogos são meticulosamente orquestrados. Essa condução precisa é o que permite a transição fluida do cômico para o político, do íntimo para o social, garantindo que o microcosmo do ponto de ônibus se consolide como uma poderosa e coerente alegoria da crise da masculinidade, sem jamais perder a naturalidade ou a tensão dramática.
A Culpa é dos Javalis é uma obra de notável coerência e força, na qual todos os elementos — da dramaturgia inteligente e política à direção sintetizadora, passando pela atuação orgânica do elenco e pelo desenho de luz narrativo — convergem com precisão para construir uma poderosa alegoria sobre a masculinidade contemporânea. Ao transformar um cenário mínimo e uma situação circunstancial em um microcosmo de exposição íntima e crítica social, o espetáculo da Motosserra Perfumada vai além do entretenimento para oferecer um espelho inquietante e necessário, convidando o público a refletir sobre as fragilidades, contradições e possíveis transformações do papel do homem no mundo atual.
Ficha Técnica:
Texto e Direção: Biagio Pecorelli
Elenco: Camila Ríos, Victor Moretti Bernardo Mendes, Carcarah, Afonso Bispo Jr e Ernani Sanchez
Assistência de Direção: Fernanda Comenda
Preparação de Elenco: Brunna Martins
Coreografia: Marcio Filho
Cenografia: Rafael Bicudo FIGURINO: Mariana Cypriano
Desenho de som: Dugg Mont
Desenho de luz: Biagio Pecorelli
Produção: Jessica Oehlerick
Fotos: Léo Pinheiro
Arte: Bruno Caetano
Trilha original: Ernani Sanchez, com participação de Jonnata Doll e Edson Van Gogh
Apoio: Cemitério de Automóveis, Corpo Rastreado, Josefa Restaurante

