Livrarias na Irlanda encontraram uma maneira de contornar a decisão da editora britânica Faber de suspender a distribuição dos romances da autora irlandesa Sally Rooney no Reino Unido, após a autora decidir doar os lucros das vendas de seus livros à Palestine Action.
Alegando dificuldades na transferência de seus royalties dentro do Reino Unido após o governo britânico ter designado a Palestine Action como organização proibida nos termos da legislação antiterrorista em julho de 2025, a Faber decidiu, de comum acordo com a autora, suspender a distribuição dos livros de Rooney em meados de outubro.
Porém, Jenni Doherty, proprietária da livraria Little Acorns, em Londonderry, continuou a estocar os best-sellers de Rooney por meio de fornecedores na República da Irlanda.
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“Não estamos proibidos de vender os livros. Ainda temos acesso a eles”, disse Doherty, de 55 anos, à AFP News, cercada por títulos de Rooney como “Pessoas Normais”, “Intermezzo” e “Belo Mundo, onde você está”, publicados no Brasil pela Companhia das Letras.
Londonderry, conhecida como Derry pelos republicanos da Irlanda do Norte, faz parte do Reino Unido, mas fica próxima à fronteira com a Irlanda, país membro da União Europeia. Sua localização permite que Doherty encomende estoque por meio de distribuidores irlandeses antes de enviar livros para clientes em todo o mundo, inclusive na Grã-Bretanha.
Os livros em si não foram proibidos, e os exemplares já em poder dos varejistas britânicos podem permanecer à venda. No entanto, as lojas não podem reabastecê-los por meio da rede normal de distribuição da Faber no Reino Unido.
As restrições de fornecimento atraíram novos clientes para a loja de Doherty.
“Recebi muitos clientes novos que nunca tinham vindo aqui antes”, disse ela, acrescentando que a controvérsia levou a obra de Rooney a um público mais amplo.
Antes, os livros ficavam nas prateleiras gerais, em ordem alfabética. Agora, eles estão em destaque no balcão da frente.
Ela também foi consultada por livrarias britânicas em busca de fornecedores alternativos.

“Você não precisa ler se não quiser. Você não precisa comprar se não quiser”, disse ela.
O boom se estendeu além da fronteira irlandesa, com a livraria Kenny’s Bookshop, em Galway, relatando um aumento de dez vezes nas vendas dos romances de Rooney após a decisão da Faber.
Doherty disse que a disputa teve forte repercussão em uma cidade moldada pelas campanhas pelos direitos civis e pelo conflito de décadas na Irlanda do Norte, conhecido como “The Troubles”. O começo da guerra entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte em 1968 foi marcado pela manifestação dos moradores de Derry, para os protestantes, Londonderry. A violenta repressão da polícia protestante contra os manifestantes resultou em cinco mortos e 120 pessoas feridas.
A controvérsia também a fez lembrar-se da história de censura literária da Irlanda, que afetou escritores famosos, incluindo Edna O’Brien, Samuel Beckett e John McGahern.
“É como se estivéssemos retrocedendo em vez de avançar”, disse ela.
Mas as restrições muitas vezes despertam a curiosidade dos leitores e podem levá-los a conhecer Rooney e outros escritores irlandeses, disse Doherty.
“Um livro proibido é um livro comprado”, disse ela. “Isso simplesmente atrai uma atenção totalmente nova.”
Fontes:
https://www.instagram.com/p/DfTwdEHMi-p/?vrfl=YXQzaDF6Y2NhZXgx
https://www.barrons.com/news/irish-bookshops-help-meet-uk-demand-for-sally-rooney-novels-7e38ab14

