Em 1784, o maior meteorito brasileiro e um dos maiores do mundo, foi encontrado pelo menino Domingos da Motta Botelho, no sertão da Bahia. Mas somente um século depois, em 1888, a engenharia foi capaz de remover o Bendegó de dentro das águas do rio que o batizara.

Liderada pelo Comendador José Carlos de Carvalho, com apoio dos engenheiros Vicente José de Carvalho Filho e Humberto Saraiva Antunes, o aporte financeiro do Barão de Guahy e o auxílio de outros profissionais, como o fotógrafo e alguns homens escravizados, cujos nomes se perderam na história, a jornada narrada neste livro durou cerca de 8 meses no calendário tradicional. No entanto, cada um dos personagens principais dessa história (o homem, a pedra, o país), levou muito mais tempo para que seus destinos se cruzassem.
“Registrar o mundo era seu jeito de permanecer nele” (p121)
Publicado em fevereiro de 2026 pela Editora Relógio de Papel, a obra “Bendegó” do autor Francisco Gabriel Rêgo é um relatório do processo dessa diáspora que relata, não somente os esforços físicos empregados nessa missão, mas, principalmente, os emocionais. Com base nos registros deixados pelos responsáveis pela expedição, o autor recria os momentos vivenciados pelo grupo, entendendo que, a dedicação daqueles indivíduos, era também um anseio de não virar poeira no tempo.
No meio do caminho tinha uma pedra e a pedra tornou-se o caminho.
A história começa em 10 de setembro de 1887, com o Comendador José Carlos de Carvalho sendo designado a se responsabilizar pela remoção e locomoção do meteorito Bendegó do sertão da Bahia até a Estação Ferroviária de Jacurici, onde seguiria rumo à capital do império, no Rio de Janeiro, para ser estudado e, posteriormente, exposto no Museu Nacional.
Retratada em um momento em que o regime imperial enfrentava forte pressão popular, a obra recupera fragmentos da história que vão além dos registros dispostos em arquivos burocráticos preservados em instituições como o Museu Nacional e a Biblioteca Nacional. O que o autor faz questão de recriar nessas páginas são justamente as memórias das figuras que vivenciaram a história e que, no entanto, não foram consideradas importantes o suficiente para serem preservadas.
“[..;] seria uma das que o inscreveriam na memória da nação, não herói, nem comandante, apenas fragmento daquele tempo destinado a desfazer entre os dedos da história.”
O autor, então, conta os motivos que levaram aqueles indivíduos a serem encarregados a participar do trabalho: uns por competência profissional, outros, pelo infortúnio de não poderem traçar o próprio destino. E quando entendemos o papel de cada um naquela missão, passamos a acompanhar a transformação dos sujeitos ao longo do processo de translado do objeto.
Diante daquela pedra, cada um daqueles homens é obrigado a olhar para dentro de si mesmo e repensar sua condição no mundo, pois “compreendia-se que o sentido da missão se inscrevia nos silêncios partilhados.” (p80). A pedra era como um espelho que causava vertigem, pois refletia o quão inapropriados eram seus pares. Portanto, esse processo de deslocamento, é também um processo de auto reflexão e conhecimento.
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A partir desse pensamento, é possível imaginar que assim como aquela pedra, que viera de um lugar tão distante e que requeria tanto esforço para ser compreendida, também seria possível que aqueles homens que haviam sido escolhidos para movê-la, deveriam ter lá os seus mistérios.

“No fim, pertencemos ao mesmo tecido, feitos da mesma poeira, movidos pelo mesmo impulso de encontrar sentido no que nasce e desaparece.” (p36)
Outro importante personagem apresentado nessa história é o Sertão da Bahia — uma figura esquecida pelo resto do país. Palco de grandes momentos históricos para a formação da identidade nacional, com o passar dos anos, o estado foi abandonado pelos regimes. E, embora tenha sido o primeiro estado registrado pelos portugueses quando a frota de Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, a Bahia acabou perdendo espaço na hierarquia, uma vez que passaram a resumir o país ao sudeste, principalmente, aos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Ao longo da história contada pelo autor baiano, é possível sentir o amor empregado à sua terra natal em cada descrição da paisagem. Com uma linguagem que evoca o naturalismo presente nas obras do maranhense Luís de Azevedo, a obra descreve os cenários por onde o comboio que levava o Bendegó passara, com uma precisão tão detalhista, que é impossível não fechar os olhos a imaginar os lugares onde o grupo se encontra e as sensações que eles exprimem. Muitas vezes, inclusive, a descrição da geografia e do clima, se confunde com a turbulência dos pensamentos que acompanham aqueles homens feito sombra.
“Quem visse de longe, quem olhasse sem escutar os silêncios profundos daquele sertão vasto e imóvel, diria haver ali um erro, uma falha de simetria, um engano do olhar, por linhas que se evitavam, em cores que não se tocavam, num cenário em desordem.” (p7)
Por se tratar de uma narrativa que busca recuperar os momentos daquela que foi a primeira expedição científica brasileira, outra temática presente nesse livro é justamente como a nossa sociedade mensura a importância da comunidade científica no nosso país. Para além do cenário abordado, a discussão se expande para todo o processo de construção dos valores da nossa sociedade e a relevância reservada ao trabalho dos pesquisadores responsáveis pela manutenção da cultura, da identidade e da memória do nosso povo.
Encomendada pela corte, a Expedição Bendegó ficou marcada pela sua falta de recursos, um presságio de como o trabalho de pesquisa e a preservação da memória do povo brasileiro seria tratada pelos anos que se seguiriam — mesmo depois que o nosso país se tornasse uma república, totalmente independente de Portugal.
“[…] Sei que estamos aqui por algo muito maior do que mover uma pedra” (p.36)
Por meio dessas figuras representadas pelos trabalhadores da missão Bendegó, a narrativa expõe o descaso deste país com a sua própria história: vivemos em um sistema que explora o desejo de profissionais que dedicam seu tempo para manter o tempo coletivo preservado, na crença de que esse sacrifício diário, tenha algum propósito. E é a crença nesse propósito que move o Comendador e seus companheiros durante toda a missão no Sertão da Bahia.
O livro, no entanto, termina com uma nota de frustração ao nos lembrar de que boa parte do sacrifício feito por eles é em vão, visto que muitos desses registros foram parar em uma gaveta esquecida e que a pedra para eles tão preciosa, foi abandonada por um sistema que falhou em preservá-la — assim como tantos outros objetos importantes para a nossa identidade coletiva. A pedra resistiu ao fogo e ao tempo, outros, não tiveram a mesma sorte.
“Um engenheiro atento aos desvios, mais interessado no caminho torto das dúvidas do que na linha reta das soluções.”(p22)
O fim dessa viagem nos conduz para “um intervalo entre a ordem e o mistério” (p52), nos levando à compreensão de que existem perguntas para as quais nunca teremos respostas. Contudo, ao seguirmos esse caminho guiados pela dúvida, ele nos revela como todos os pequenos desvios e decisões tomadas ao longo de uma vida podem alterar o curso de um objeto — seja ele feito de carne e osso ou de ferro e níquel.
Foi assim que os registros esquecidos da jornada do Bendegó encontraram o pesquisador Francisco e os inspirou a escrever esse livro. Foi assim que o Comendador José Carlos encontrou o Bendegó. Foi assim que o Bendegó encontrou o Sertão da Bahia. É assim que você encontra a sua nova leitura: um pouco de acaso e um tanto de intencionalidade.

