O estado de Mato Grosso do Sul geralmente é lembrado por suas belezas naturais, pelo Pantanal e, em especial, pelo ecoturismo em Bonito, na região sudoeste do estado, na Serra da Bodoquena. No entanto, assim como boa parte do território brasileiro, é um estado que foi gestado como resultado de um processo violento de expropriação. Pensando na formação e na relação dessa região com nosso tempo atual, Gilberto Arsiolli Júnior, autor de “Volte quando o eco acabar”, constrói um romance experimental que vai da epopeia ao relato de viagem, misturando gêneros, línguas e tempos.

Dividido em quatro partes: Parte I – 1669 – Ano 170 do Encobrimento; Parte II – Entre trincheiras e fronteiras; Parte III – Arrabalde; e Parte IV – A volta da espiral, o “Eco” apresenta uma narrativa dessa formação histórica, mas também simbólica do território e da identidade sul-mato-grossense, mesclando história, mito, memória e ficção.
Começando com a invasão do território indígena que encobre a história dos povos que já ocupavam a região, temos o primeiro marco de uma violência que será reproduzida e ecoada ao longo de todo o livro. Nomes como Domingos Jorge Velho, Fernando Raposo Tavares e Borba Gato surgem na narrativa avançando território adentro levando fogo e destruição. Era a queda do céu, porém, “o mundo seguia funcionando, e essa normalidade era uma afronta.” O fim se tornou o começo e o começo se tornou o fim.
Acredito que essa citação adaptada de “Dark”, série alemã de ficção científica, conversa muito com o livro do Gilberto, não pela viagem no tempo, mas sim pela ideia de ciclos. Afinal, o eco também é uma forma de promover exatamente repetição, retorno.
A invasão e o avanço dos bandeirantes reverberam na Guerra do Paraguai (1864-1870), que reverbera na ocupação da região da Serra de Maracaju, que reverbera na Revolução Constitucionalista de 1932 e na criação do breve Estado de Maracaju, uma espécie de embrião do que ainda viria a ser o Mato Grosso do Sul décadas depois.
No meio disso tudo, personagens lutam, desejam, se perdem, se reencontram, morrem e até ressurgem.
Temos Gaspar, um estrangeiro que chega sem mapa em busca de um tesouro antigo. Na cabeça, o nome de um rio e uma lenda mal contada. No peito, muita ambição. Jasy, cujo nome aparece logo nos primeiros capítulos, mas ecoa por todo o romance. Alejandro e Amélia, uma espécie de Romeu e Julieta em meio à Guerra do Paraguai. Soldados e burocratas brasileiros que travam batalhas muito diferentes nessa mesma guerra. Emaíra e Guavira Bravo, que funcionam como ímãs, se puxam e se repelem ao longo da narrativa. Por fim, Sr. Jigorokoshi, imigrante japonês que chega à Serra de Maracajú levando disciplina e respeito junto aos seus conhecimentos culinários e de artes marciais.
Além disso, personagens históricos também são convidados para além de Domingos Jorge Velho, Fernando Raposo Tavares e Borba Gato, já citados. Dom Pedro II, Dona Teresa Cristina, Princesa Isabel e Condessa de Barral têm uma participação especial em um tenso baile que antecede a Guerra, Solano Lopes e Caxias até jogam uma partida de xadrez metafórica.
O Pantanal, a Serra de Maracajú e locais famosos por sua natureza exuberante, como a Lagoa Misteriosa e o Buraco das Araras, também se apresentam como sujeitos da própria história, agentes determinantes no destino de uma terra que cobra.
“Aproximei-me devagar, sentindo algo puxar os pés e o pensamento.
— Não muito perto — disse Jasy, sem elevar a voz.
— E não muito tempo.
Perguntei por quê. Ela se ajoelhou, tocou a água com a ponta dos dedos e retirou a mão.
— Porque aqui a água é antiga e olha de volta.”
“Jasy explicou, com paciência, que ninguém voltava trazendo tudo. Que a água permitia escolhas, não excessos. Concordei com a cabeça e desobedeci com o corpo.”
É uma narrativa longa e complexa, são vários personagens, várias posições e movimentos que envolvem dimensões culturais, temporais e espaciais.
Apesar das partes separarem de certa forma os períodos históricos, a narrativa não é exatamente linear. Há o que o Gilberto chama de Encobrimento, fazendo uma crítica ao que durante muito tempo foi chamado de Descobrimento, que nada mais foi do que a invasão e o genocídio dos povos originários; a Guerra do Paraguai, que seria a Ilíada do livro; o início da modernização da região com a chegada das estradas de ferro a Campo Grande; e o envolvimento de uma resistência local durante a Revolução de 1932 que resultou na criação do Estado de Maracaju.
Contudo, não há uma linearidade temporal, tampouco ele vai e volta ao passado, em um movimento de pêndulo. Ele vai além e elabora uma narrativa helicoidal, ou seja, em espiral, semelhante à imagem de um DNA.

A imagem da espiral também foi utilizada pelo filósofo francês Henri Bergson ao trabalhar a ideia de tempo não como uma linha reta, mas como um fluxo único no qual o passado não desaparece, mas se acumula para criar o presente.
Gilberto também parece recorrer a Bakhtin e ao conceito de cronotopo da estrada ao conferir ao espaço físico, a região na qual o romance se passa, a força para que tempos e pessoas diferentes se encontrassem. Porém, dando muito mais poder e força ao espaço, a esse território que opera como agente narrativo.

Falando em referências, Walter Benjamin e a ideia do narrador viajante, aquele que vive e volta modificado para contar o que viu, parecem completar essa visão helicoidal do autor de “Eco”.
Inclusive, Gilberto traz essa proposta de narrativa em dois momentos dentro do próprio livro. Primeiro como documento no capítulo chamado “Da Theoria Helicoidal da Psyche”, na Parte II, apresentado como se fosse um espólio de Guerra. E em um segundo momento, na Parte III, ela aparece em formato de tese sob o título de “Contar, Narrar, Mostrar: uma filologia em espiral”.
Unindo essas referências, a narrativa em hélice em conjunto com a reverberação desses processos históricos violentos cria o que o autor chama de eco. Sendo assim, o tempo não segue uma linha reta; ele gira, retorna, se desloca, enquanto o que volta não volta igual, há sempre um ruído. Os personagens se movimentam no espaço e no tempo e retornam sempre modificados.
Como exemplo, acho que posso citar dois dos principais personagens: Emaíra e Guavira-Bravo. Ela surge como uma enfermeira improvisada durante a Guerra do Paraguai e rascunha em carvão o que viria a ser a memória coletiva vencedora que fica da Guerra: as imensas pinturas carregadas de heróis que na narrativa de Gilberto não têm espaço. Ele, como um soldado: Guavira, o Bravo.
“Mais afastado, perto de uma coluna, Guavira-Bravo inclinou-se em direção a Caxias. Não havia cordialidade; havia reconhecimento.
— Prazer, pode me chamar de Guavira, o bravo.
— Então agora Solano anda distribuindo títulos? Quem lhe disse que o senhor é bravo?
— Eu lhe conheço, senhor Alves de Lima. Sua fama correu o Império e o Paraguai.
— Por causa do Norte ou do Sul?
— O senhor ainda vai conhecer glória. Muita. Mas não será limpa.
— Glória nunca é.
— Vai matar muito. E ainda assim dormir bem.
— É o ofício.”
Ambos, Emaíra e Guavira, ressurgem na “Volta da Espiral” em outro campo de batalha em uma Campo Grande ainda em desenvolvimento e em busca de autonomia na década de 1930.

Gilberto deixa claro no prefácio que não há mapa, que precisamos entrar sem pressa em entender tudo de imediato. Porém, ele deixou inúmeras pistas, inúmeros easter eggs ao longo das espirais da narrativa. Um nome aqui, uma citação acolá. Vou dar um exemplo:
Quincas Ñe’ẽ, um sobrevivente da fome e da cólera durante a Retirada de Laguna, episódio que ficou marcado na campanha da Guerra do Paraguai, envia seus diários para serem entregues em mãos ao Senhor Taunay, o Alfredo d’Escragnolle Taunay, dando a entender que nessa realidade são esses relatos que darão origem ao famoso livro do Visconde.
Além das posições ocupadas pelos personagens e dos easter eggs, uma das formas do autor colocar essa narrativa helicoidal em prática é permear o livro com enxertos de documentos e recortes de jornais fictícios de um tempo apartado da narração, fragmentos poéticos, trechos de músicas, histórias da cosmologia indígena etc. Esses enxertos aparecem ao longo de todo o livro e têm um papel importante no deslocamento do espaço-tempo, mas não só isso.
Através dessa miscelânea, Gilberto apresenta temas caros à identidade da região, como a erva-mate que aparece como parte do mito de criação da humanidade, mas em o “Eco”, com Adão e Ivo, o charque e as charqueadas, e a música popular, resultado do encontro com o interior de Minas e de São Paulo e também com a região do Rio da Prata.
“Serviram mais carne. Abriram mais vinho. A cachaça correu. O limão brilhou em fatias. O mel colou nos dedos. O mate passou de mão em mão. As músicas se revezaram como marés: Polca para levantar, Vanerão para gastar o corpo, Chamamé para abraçar, guarânia para guardar no peito.”
A identidade sul-mato-grossense surge desse hibridismo, inclusive linguístico. Português, castelhano, guarani-kaiowá. Inclusive, há referências a essas línguas na narrativa e os personagens paraguaios falam e escrevem em castelhano, aliás.
Gilberto faz um trabalho muito inventivo em “Volte quando o eco acabar”, inclusive colocando o próprio livro sob o jugo do cânone da literatura, como Machado de Assis, Lima Barreto, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Borges, mas também por Policarpo Quaresma e Don Quixote. E nesse ponto, tendo a concordar com último quando diz:
“Vuestro libro, a veces, confía tanto en la coherencia de su propio sistema que trata al lector como a alguien ya iniciado; y yo, que estoy iniciado sólo en la manía de creer, sentí el peso del régimen.”
Não é uma leitura fácil, exige, além da suspensão da descrença clássica, tempo, paciência e atenção. Em um momento no qual narrativas chegam cada vez mais mastigadas aos leitores, é interessante ver um autor independente experimentando e ousando a tal ponto.

Sobre o autor:
Gilberto Arsiolli (Três Lagoas, MS) é escritor e graduado em Direito pela USP. Atuou no ensino de línguas e trabalhou em Manaus (5 anos) e Macapá (1 ano e meio). Atualmente cursa Letras na UnB. É autor dos romances inéditos “Volte Quando o Eco Acabar” e “Capitolina – Memórias Pervertidas” e do livro de poemas inéditos “Poemas para Assistir ao Fim do Mundo”.

