O ministro André Mendonça, do STF, recorreu ao livro “1984”, de George Orwell, ao comentar a crise atual no tribunal e afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. A informação foi divulgada pelo blog de Andrea Sadi no G1, que destacou o seguinte trecho da decisão:
“Diante do quadro ora apresentado, que mais se assemelha ao cenário concebido por George Orwell em sua célebre distopia, intitulada “1984”, verifica-se, a mais não poder, que a produção dos “relatórios de inteligência” em questão, o fato de sobre eles ter sido dada ciência prévia ao Ministro Alexandre de Moraes e a posterior divulgação desses “documentos”, revelam fatos de extrema gravidade, com repercussões não apenas no plano institucional, mas também quanto à segurança e integridade pessoal de integrante deste Supremo Tribunal Federal, além de outras autoridades públicas”, escreveu Mendonça.
Lançada há 77 anos, a obra de ficção de Orwell descreve uma sociedade vigiada pelo “Grande Irmão”, que controla atos e falas das pessoas, e por um “Ministério da Verdade”, que filtra as notícias e só permite a propaganda oficial do governo.
No livro, Winston, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O’Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que “só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade: só o poder pelo poder, poder puro”.
Como Orwell era um homem de esquerda, Mendonça parece não ter entendido a mensagem de Orwell. É que a decisão de Mendonça ocorre no contexto da tensão entre ele e o ministro Alexandre de Moraes, ambos enrolados com o caso Master, mas Mendonça fazendo a vez de daquele que age com Grande Irmão, tendo poder de todos os relatórios e vazando seletivamente pra imprensa aquilo que quer.
Relator do Caso Master, Mendonça havia retirado, na terça-feira da semana anterior (1º), o sigilo de investigações da PF que apontavam a proximidade entre Moraes e o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, dono do Master.Além de afastar Andrei Rodrigues, Mendonça também suspendeu a elaboração e o compartilhamento de relatórios de inteligência da PF que analisassem a atuação funcional de ministros do STF. Será que ele leu mesmo o livro?
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Reviravolta no caso
Felizmente, nesta quarta-feira (9), o ministro Flávio Dino, do STF, determinou a volta de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal. Leandro Almada da Costa também retornou à direção de Inteligência da corporação.

Dino argumentou que o afastamento inicial partiu de um pedido do partido Novo. Pelo Código de Processo Penal, partidos políticos não têm legitimidade para pedir medidas cautelares em processos penais — essa atribuição cabe ao Ministério Público, à autoridade policial ou às partes envolvidas.
O ministro também ressaltou que a suspensão da cúpula da PF interrompeu a produção de relatórios de inteligência, o que configurou uma “interferência inédita na história da corporação”. Essa paralisação, segundo ele, gerava risco de “danos irreparáveis” e atrasava procedimentos urgentes sob sua própria relatoria.

