Tem domingo que é dia de clássico. Meu último domingo foi dia de épico. Três filmes assistidos, com elementos em comum. O primeiro foi o soviético “Alexander Nevsky”, de 1938. Foi a segunda vez que eu o vi, mas fiquei menos empolgada que da primeira. O segundo filme foi “O Retorno”, de 2024. Uma adaptação d’A Odisseia bem mais introspectiva que a de Nolan que está nos cinemas, me provocou uma reflexão. E o terceiro foi o filme brasileiro “Aquele Que Viu o Abismo”, que é épico à sua maneira.
Nosso protagonista é um homem negro atormentado que se veste com um sobretudo escuro. Na primeira cena, o encontramos enfiando uma pistola na boca, pronto para acabar com tudo. Ele se acovarda e dá um tiro para baixo, acertando talvez o pé, talvez a perna, talvez a coxa. Mas nada aconteceu. Pode ser um flashback, pode ser um flash-forward.
Tremelicando, ele fuma um cigarro enquanto conversa com uma mulher em inglês, e novamente se dedica ao tabaco em frente a um grande prédio iluminado com luzes amarelas, enquanto rememora situações de um hospital psiquiátrico no qual foi internado. A linha do tempo não é uma linha reta, mas uma fita de Moebius.

Em sequências animadas com luzes, surgem questionamentos e provocações sobre a monotonia da rotina, o desejo por experiências emocionantes, as viagens que podem ser físicas ou virtuais, o túnel que nos leva / o buraco negro que nos suga para contatos imediatos com outros seres humanos.
“Aquele Que Viu o Abismo” é dedicado a Paula Gaitán, José Roberto Aguilar e Sérgio Villafranca. Paula é nossa Chantal Akerman, que fez de “Luz nos Trópicos” (2020) seu “Jeanne Dielman”. José Roberto Aguilar é um multiartista considerado o primeiro a usar o vídeo como linguagem artística no Brasil. Sérgio Villafranca, por sua vez, é pianista e compositor com trabalho que também tangencia as artes performáticas.
Para Gregorio Gananian, um dos diretores, o protagonista funciona como “um xamã contemporâneo, que entende as frequências da vida”. Negro Leo, o outro diretor, recomenda que o filme seja visto e ouvido para que o público possa sentir a essência da obra.

E é esse o filme: uma experiência para ser sentida e não compreendida. Cada interpretação dele será única, bem como cada fruição do produto filme, que existe há mais de 130 anos, mas continua surpreendendo. Por isso, desligue o modo racional e só aproveite a viagem. Porque aquele que viu o abismo não volta a ser como antes.
“Aquele Que Viu o Abismo” é distribuído pela Embaúba Filmes e estreia nos cinemas em 30 de julho. Confira o trailer:
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