Romance de estreia de Iara da Silva narra a vida sentimental de Perpétua, personagem idosa que revê o passado com saudosismo ao se aproximar da morte

Já nas primeiras linhas, o leitor é convidado ao universo terno e duro do romance O jacarandá na esquina: “Todas as manhãs, Perpétua contemplava, por instantes, o espelho da penteadeira em frente à cama. Sentia-se como um lençol velho, desses que ficam amarelados, no fundo do armário, cheirando a passado”.
A personagem reconhece na fragilidade da pele e de seus movimentos o rastro da passagem do tempo. À perda do vigor físico somam-se outras, como a perda da autonomia, de amigas, da memória e do marido Domingos, por quem ainda sente a mesma paixão da juventude. O livro retrata um cotidiano de solidão e acontecimentos ordinários, atravessado, algumas vezes, por arrebatamentos inesperados.
Através de digressões, a narrativa ilumina não só a personalidade de Perpétua, como as gerações de figuras femininas da família. Figuras femininas são, aliás, um dos interesses literários da autora Iara da Silva: “Minha maior referência literária é Lygia Fagundes Telles, tanto por explorar profundamente personagens femininas, quanto pela especial atenção às características psicológicas delas.”
Em “O jacarandá na esquina”, a linguagem clara e poética conduz o leitor por temas como passagem do tempo, família, velhice, desejos e ancestralidade, com a sensibilidade de quem, apesar das perdas, busca o lado apaixonado da vida.
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Leia trechos do romance:
Trecho 1
“As portas do supermercado se abriram e um sopro do ar-condicionado jorrou sobre sua cabeça, espatifando os cabelos cuidadosamente arrumados. Praguejou qualquer coisa entre os dentes. Ângela riu, ajeitando algumas mechas de Perpétua sob seu arco de margaridinhas amarelas.
Conforme o carrinho ia ficando pesado e difícil de empurrar, a filha se oferecia a cada curva das gôndolas para guia-lo, ao que Perpétua respondia com um não veemente. Recusava-se a delegar a tarefa. Será possível que nem para isso eu presto mais? Arfava, ofegante.
Se dependesse de mim, viria sozinha ao mercado. Ângela retrucou. Sim, eu não posso mais dirigir, mas eu viria a pé, oras. A filha argumentou que as calçadas estavam cheias de buracos, e que não queria saber de mãezinha caindo na rua, não, que é perigoso demais. Perpétua levantou a voz, rouca, alegando que Ermelinda, a vizinha, tinha rachado a cabeça no meio fio porque era burra. Gesticulava num monólogo caloroso e quase sem fim. Ângela,
paciente, esperou que ela terminasse a palestra e, com a calmaria que lhe era caraterística, impôs que estaria à porta de sua casa na segunda-feira da semana seguinte, explicando que dona Ermelinda, pobre coitada, sofrera a queda porque tinha problemas de mobilidade. E fazer o que, Ângela? Ao menos eu não sou uma velha que usa bengala.”
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Trecho 2
“Vestida em sua camisola, com meias nos pés, Perpétua passava os canais na televisão. Nada lhe interessava o suficiente. Entre um biscoito de polvilho e outro, enchendo o sofá e a própria roupa de farelos, sentia os olhos com uma crescente vontade de se fecharem.
Gostava de dormir — dormindo, sonhava que não era velha.
Quando quase pegava no sono, Manjericão latiu, inquieto, fazendo os ombros de Perpétua pularem sobressaltados. Depois que o caminhão de lixo foi embora, sossegou, enrolando o corpo sobre a caminha ao lado do sofá.
Não eram nem onze da noite. Levantou-se devagar e com dificuldade, carregando o pote de biscoitos contra o peito. Faria um chá de erva cidreira. Quando voltou à sala, com a xícara fumegando entre as mãos, sentou-se com as costas apoiadas em duas almofadas floridas, ajeitando-se sob as cobertas felpudas. Esgueirou-se em direção à mesinha de centro, onde estava o controle remoto, quase caindo do sofá.
Não tinha muita habilidade com aqueles botõezinhos pequenos. Em uma breve luta, saía apertando-os um pouco a esmo, sem enxergar direito o que fazia. Alguns quadrados e retângulos saltavam na tela. Confusa, atrapalhava-se toda, xingando e metendo os dedos com cada vez mais força sobre as teclas.”
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Sobre a autora:

Iara da Silva é caiçara, nascida em 1995 na cidade de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo. Graduada em Direito pela UNESP, é servidora pública e reside na capital paulista. Caçula entre três mulheres, sonhadora inveterada e comovida em excesso, já na graduação escrevia crônicas para a revista Obvious Magazine, com a coluna “Entre a palavra e o mundo”.
Em 2015, foi premiada no Concurso de Contos José Cândido de Carvalho, na categoria infanto-juvenil, com o conto “O Pássaro”. O jacarandá na esquina é seu romance de estreia.
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Para saber mais sobre o livro, acesse:
https://www.editorapatua.com.br/o-jacaranda-na-esquina-romance-de-iara-da-silva

