Com a aprovação do PL 2.120/2022, que institui o dia 12 de março de 2027 como o primeiro Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19, redes públicas e privadas de ensino enfrentam um desafio inédito: como discutir com as crianças uma das maiores tragédias de nossa história de forma sensível, pedagógica e pautada no rigor da ciência? A resposta chega através da literatura com o lançamento do livro infantil “E aí, como foi na pandemia?”, de autoria da pesquisadora Ana Maura Tomesani e publicado pela editora Telha.
Ciência e Literatura de Mãos Dadas: Um Livro Baseado em pesquisa e escuta

Diferente de obras ficcionais convencionais, “E aí, como foi na pandemia?” nasce diretamente da pesquisa científica e da escuta comunitária. A obra foi inspirada no acervo do projeto Memorial Periferias na Pandemia desenvolvido pelo Centro de Estudos em Conflito e Paz do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (CCP/NUPRI/USP) em parceria com a Fundação Perseu Abramo. Durante seis anos, a iniciativa reuniu testemunhos de moradores de periferias de todo o país sobre suas vivências na crise sanitária.
A autora transformou essa base de dados factual e socioterritorial em uma narrativa acessível, afetuosa e profundamente realista para o público infantil. A história acompanha o menino Kauan, de 12 anos, morador da zona sul de São Paulo, que participa de um projeto escolar de troca de cartas com crianças de diversas regiões do Brasil — de comunidades quilombolas no Tocantins a territórios indígenas em Roraima, passando pelo campo em Alagoas, periferias do Pará e bairros urbanos no Rio de Janeiro.
“Este livro foi construído baseado em relatos de sobreviventes. Queremos mostrar às crianças que a ciência e a memória coletiva nos ajudam a entender o mundo e a transformar a dor em solidariedade e aprendizado.”
— Ana Maura Tomesani, autora e pesquisadora do CCP/NUPRI/USP
Um Instrumento Pedagógico Fundacional para o Dia 12 de Março de 2027
À medida que os anos passam, ocorre uma inevitável mudança geracional: as crianças que hoje estão nos anos iniciais do Ensino Fundamental eram bebês durante o ápice da crise sanitária ou nem haviam nascido. Para elas, a pandemia deixará de ser uma lembrança direta para se tornar uma memória social transmitida.
Para os professores, abordar o tema exige cuidado e metodologia. O livro “E aí, como foi na pandemia?” foi estruturado para atuar justamente como esse disparador pedagógico, servindo de ponte entre o passado recente e a sala de aula. Ele apoia educadores em duas frentes estruturantes:
- Acolhimento dos Professores: Incentiva a realização de rodas de conversa prévias entre os próprios docentes — que também foram fortemente impactados no período — para que reconheçam suas histórias antes de mediarem a conversa com as crianças.
- Troca de Cartas e Escrita à Mão: Estimula a criação do projeto Cartas da Pandemia, em que alunos registram suas memórias em cartas manuscritas, promovendo o resgate da escrita à mão, o exercício da empatia, a expressão pelo desenho e a integração entre diferentes escolas e territórios.
POR QUE ESTE LIVRO É UM INSTRUMENTO ESSENCIAL PARA AS ESCOLAS?
- Ancorado em Relatos Reais: Traduz dados e evidências sociológicas em uma linguagem infantil tocante, sem romantizar as desigualdades socioterritoriais.
- Diversidade e Empatia: Apresenta realidades plurais (falta d’água, acesso a vacinas em quilombos e assentamentos, desafios do ensino remoto, luto, solidariedade comunitária).
- Valorização do Registro Manuscrito: Defende a importância pedagógica da escrita à mão e do desenho como registro histórico pessoal e afetivo.
- Apoio ao Educador: A autora se compromete a oferecer workshops gratuitos aos professores que decidirem utilizar o livro em sala de aula, com guia pedagógico, fichas de leitura e orientações para rodas de conversa e montagem de murais escolares.
O Enredo: A Jornada de Kauan e a Força da Memória
No livro, Kauan relembra as dificuldades vividas em sua casa com o fechamento das escolas e a paralisação do trabalho de sua mãe. Ao ler as cartas de colegas de outros estados, ele descobre que, embora a pandemia tenha afetado a todos, o acesso a recursos como água, internet, máscaras e vacinas variou drasticamente pelo país. O livro aborda com delicadeza o medo da perda, o papel da ciência e das vacinas, e a importância decisiva das associações de bairro e do apoio mútuo. Ao final, inspirado pela troca, Kauan propõe expandir as cartas para crianças de todo o mundo.
Disponibilidade e Projetos com Redes Municipais de Ensino

Com as primeiras cópias impressas chegando em meados de agosto, a obra já possui um projeto educativo estruturado para adoção em redes municipais e privadas de ensino. O projeto prevê a distribuição de exemplares, formação de professores, montagem de murais colaborativos com as cartas registradas pelas crianças e a criação de acervos históricos locais. Escolas e secretarias interessadas nos livros e nos workshops com a autora podem entrar em contato pelo email anamaura@gmail.com.
Sobre a Autora
Ana Maura Tomesani é pesquisadora do Centro de Estudos em Conflito e Paz (CCP), vinculado ao Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (NUPRI/USP). É cofundadora da Plataforma Periferias na Pandemia (projeto em parceria com a Fundação Perseu Abramo). Este é seu primeiro livro infantil, nascido da urgência de manter viva a memória coletiva e oferecer ciência e afeto para as futuras gerações.

