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“O Corvo”, de Edgar Allan Poe, faz 180 anos

por Amanda Leonardi 29 de janeiro de 2025
por Amanda Leonardi 29 de janeiro de 2025 0 comentário

Em 29 de janeiro de 1845, Edgar Allan Poe publicou, no jornal norte-americano The Evening Mirror, o poema que o tornaria imortal: com seus 108 versos em uma complexa estrutura que combina métricas em octâmetro acatalético, heptâmetro catalético e tetrâmetro catalético, “O Corvo” é um poema narrativo com um ritmo marcante e que trata de temáticas universais, o amor e a morte.

O narrador sem nome nos conta que, certa noite fria de dezembro, estava quase dormindo enquanto lia seus livros quando escuta um barulho. Primeiramente, ele não sabe o que causa o barulho, abre a porta e não encontra nada, a escuridão apenas e nada mais. Até que um corvo entra por sua janela e pousa no busto de Atenas que decora o seu cômodo. O pássaro é um corvo, que repete a palavra “nevermore” (nunca mais) como resposta para tudo o que o narrador fala. O homem lembra que “nunca mais” foram suas palavas de despedida com sua amada, Lenore, e segue a lamentar-se, verso após verso, torturando-se em sua melancolia, pois no fundo sabe que a ave o responderá sempre com “nunca mais”.

Com a publicação do poema, Poe tornou-se famoso nos círculos literários, e todos lhe pediam que declamasse a obra em todo lugar. O poema foi republicado diversas vezes nos anos seguintes, e foi traduzido por poetas como Charles Baudelaire e Stéphane Mallarmé, fazendo com que Poe se tornasse um grande nome na Europa.

Por que não esperar (só) terror ao ler Edgar Allan Poe

Para o português, temos duas traduções famosas do poema, uma feita por Machado de Assis, publicada em 1883, na Gazeta de Notícias, e uma por Fernando Pessoa, em 1924, na revista Athena.

Mais recentemente, tivemos uma nova tradução do poema feita por Marcia Heloisa para a edição do poema lançada em 2024 pela Darkside, que acompanha as ilustrações de Gustave Doré, bem como as traduções de Machado e Pessoa, além de uma introdução por Marcia Heloisa e cartas de Poe em tradução inédita para o português. Conheça mais e adquira a edição pelo site da editora.

Além de tornar Poe famoso em vida (ainda que não tenha lhe trazido grandes retornos financeiros), e ser traduzido para outros idiomas, O Corvo se tornou um ícone da cultura pop: a obra já foi adaptada em diversas formas de mídia, desde um episódio de Os Simpsons (A Casa da Árvore dos Horrores I – 1990), a filmes como O Corvo (Mc Teigue, 2012), e álbuns inteiros de música de bandas como The Alan Parsons Project, Nox Arcana e Lou Reed, e até mesmo pela dupla sertaneja brasileira Conde e Drácula.

No ano seguinte à publicação de O Corvo, Poe publicou no periódico Graham’s Magazine o ensaio intitulado The Philosophy of Composition, em que o poeta revela o seu processo criativo para compor o poema. Poe explica como planejou cuidadosamente a escrita da obra, definindo previamente a sua extensão, temática, tom, refrão, etc. Alguns críticos consideram o ensaio exagerado e acreditam que tenha sido uma forma de divulgar ainda mais o poema, o que talvez tenha realmente funcionado. No entanto, ainda que talvez contendo realmente um pouco de exagero na metódica descrita, o ensaio pode ser lido como uma boa aula de escrita criativa, bem como funciona como um bom material de apoio para a leitura e compreensão do poema em seu contexto.

Para celebrar os 180 anos de “O Corvo”, fique com a leitura do poema, seguido das traduções famosas de Pessoa e Machado:

The Raven

Edgar Allan Poe

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,

Over many a quaint and curious volume of forgotten lore—

    While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,

As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.

“’Tis some visitor,” I muttered, “tapping at my chamber door—

            Only this and nothing more.”

    Ah, distinctly I remember it was in the bleak December;

And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.

    Eagerly I wished the morrow;—vainly I had sought to borrow

    From my books surcease of sorrow—sorrow for the lost Lenore—

For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore—

            Nameless here for evermore.

    And the silken, sad, uncertain rustling of each purple curtain

Thrilled me—filled me with fantastic terrors never felt before;

    So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating

    “’Tis some visitor entreating entrance at my chamber door—

Some late visitor entreating entrance at my chamber door;—

            This it is and nothing more.”

    Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,

“Sir,” said I, “or Madam, truly your forgiveness I implore;

    But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,

    And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,

That I scarce was sure I heard you”—here I opened wide the door;—

            Darkness there and nothing more.

    Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,

Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;

    But the silence was unbroken, and the stillness gave no token,

    And the only word there spoken was the whispered word, “Lenore?”

This I whispered, and an echo murmured back the word, “Lenore!”—

            Merely this and nothing more.

    Back into the chamber turning, all my soul within me burning,

Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.

    “Surely,” said I, “surely that is something at my window lattice;

      Let me see, then, what thereat is, and this mystery explore—

Let my heart be still a moment and this mystery explore;—

            ’Tis the wind and nothing more!”

    Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,

In there stepped a stately Raven of the saintly days of yore;

    Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;

    But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door—

Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door—

            Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,

By the grave and stern decorum of the countenance it wore,

“Though thy crest be shorn and shaven, thou,” I said, “art sure no craven,

Ghastly grim and ancient Raven wandering from the Nightly shore—

Tell me what thy lordly name is on the Night’s Plutonian shore!”

            Quoth the Raven “Nevermore.”

    Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,

Though its answer little meaning—little relevancy bore;

    For we cannot help agreeing that no living human being

    Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door—

Bird or beast upon the sculptured bust above his chamber door,

            With such name as “Nevermore.”

    But the Raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only

That one word, as if his soul in that one word he did outpour.

    Nothing farther then he uttered—not a feather then he fluttered—

    Till I scarcely more than muttered “Other friends have flown before—

On the morrow he will leave me, as my Hopes have flown before.”

            Then the bird said “Nevermore.”

    Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,

“Doubtless,” said I, “what it utters is its only stock and store

    Caught from some unhappy master whom unmerciful Disaster

    Followed fast and followed faster till his songs one burden bore—

Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore

            Of ‘Never—nevermore’.”

    But the Raven still beguiling all my fancy into smiling,

Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird, and bust and door;

    Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking

    Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore—

What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore

            Meant in croaking “Nevermore.”

    This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing

To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom’s core;

    This and more I sat divining, with my head at ease reclining

    On the cushion’s velvet lining that the lamp-light gloated o’er,

But whose velvet-violet lining with the lamp-light gloating o’er,

She shall press, ah, nevermore!

    Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer

Swung by Seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.

    “Wretch,” I cried, “thy God hath lent thee—by these angels he hath sent thee

    Respite—respite and nepenthe from thy memories of Lenore;

Quaff, oh quaff this kind nepenthe and forget this lost Lenore!”

            Quoth the Raven “Nevermore.”

    “Prophet!” said I, “thing of evil!—prophet still, if bird or devil!—

Whether Tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,

    Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted—

    On this home by Horror haunted—tell me truly, I implore—

Is there—is there balm in Gilead?—tell me—tell me, I implore!”

            Quoth the Raven “Nevermore.”

    “Prophet!” said I, “thing of evil!—prophet still, if bird or devil!

By that Heaven that bends above us—by that God we both adore—

    Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,

    It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore—

Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore.”

            Quoth the Raven “Nevermore.”

    “Be that word our sign of parting, bird or fiend!” I shrieked, upstarting—

“Get thee back into the tempest and the Night’s Plutonian shore!

    Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!

    Leave my loneliness unbroken!—quit the bust above my door!

Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!”

            Quoth the Raven “Nevermore.”

    And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting

On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;

    And his eyes have all the seeming of a demon’s that is dreaming,

    And the lamp-light o’er him streaming throws his shadow on the floor;

And my soul from out that shadow that lies floating on the floor

            Shall be lifted—nevermore!

O CORVO

(Tradução de Machado de Assis)

         Em certo dia, á hora, á hora
         Da meia-noite que apavora,
Eu, cahindo de somno e exausto de fadiga,
         Ao pé de muita lauda antiga,
      De uma velha doutrina, agora morta,
      Ia pensando, quando ouvi á porta
      Do meu quarto um soar devagarinho,
         E disse estas palavras taes:
«É alguem que me bate á porta de mansinho;
         «Ha de ser isso e nada mais.»

         Ah! bem me lembro! bem me lembro!
         Era no glacial Dezembro;
Cada braza do lar sobre o chão reflectia
         A sua ultima agonia.

      Eu, ancioso pelo sol, buscava
      Saccar d’aquelles livros que estudava
      Repouso (em vão!) á dôr esmagadora
         D’estas saudades immortaes
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
         E que ninguem chamará mais.

         E o rumor triste, vago, brando
         Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
         Nunca por elle padecido.
      Emfim, por applacal-o aqui no peito,
      Levantei-me de prompto, e: «Com effeito,
      (Disse) é visita amiga e retardada
         «Que bate a estas horas taes.
«É visita que pede á minha porta entrada:
         «Ha de ser isso e nada mais.»

         Minh’alma então sentiu-se forte;
         Não mais vacillo e d’esta sorte
Fallo: «Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
         «Me desculpeis tanta demora.
      «Mas como eu, precisado de descanço,
      «Já cochilava, e tão de manso e manso
      «Batestes, não fui logo, prestemente,
         «Certificar-me que ahi estaes.»
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
         Sómente a noite, e nada mais.

         Com longo olhar escruto a sombra,
         Que me amedronta, que me assombra,

E sonho o que nenhum mortal ha já sonhado,
         Mas o silencio amplo e calado,
      Calado fica; a quietação quieta;
      Só tu, palavra unica e dilecta,
      Lenora, tu, como um suspiro escasso,
         Da minha triste boca saes;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
         Foi isso apenas, nada mais.

         Entro co’ a alma incendiada.
         Logo depois outra pancada
Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ella:
         «Seguramente, ha na janella
      «Alguma cousa que sussura. Abramo
      «Eia, fôra o temor, eia, vejamos
      «A explicação do caso mysterioso
         «D’essas duas pancadas taes.
«Devolvamos a paz ao coração medroso,
         «Obra do vento e nada mais.»

         Abro a janella, e de repente,
         Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
         Não despendeu em cortezias
      Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
      De um lord ou de uma lady. E prompto e recto
      Movendo no ar as suas negras alas,
         Acima vôa dos portaes,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Pallas;
         Trepado fica, e nada mais.

         Diante da ave feia e escura,
         Naquella rigida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
         Sorriu-me alli por um momento,
      E eu disse: «Ó tu que das nocturnas plagas
      «Vens, embora a cabeça nua tragas,
      «Sem topete, não és ave medrosa,
         «Dize as teus nomes senhoriaes;
«Como te chamas tu na grande noite umbrosa?»
         E o corvo disse; «Nunca mais.»

         Vendo que o passaro entendia
         A pergunta que lhe eu fazia,
Fico attonito, embora a resposta que dera
         Difficilmente lh’a entendera.
      Na verdade, jamais homem ha visto
      Cousa na terra semelhante a isto:
      Uma ave negra, friamente posta
         N’um busto, acima dos portaes,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
         Que este é seu nome: «Nunca mais.»

         No emtanto, o corvo solitario
         Não teve outro vocabulario,
Como se essa palavra escassa que alli disse
         Toda a sua alma resumisse.
      Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
      Não chegou a mexer uma só pluma,
      Até que eu murmurei: «Perdi outr’ora
         Tantos amigos tão leaes!

«Perdeirei tambem este em regressando a aurora.»
         E o corvo disse: «Nunca mais!»

         Estremeço. A resposta ouvida
         É tão exacta! é tão cabida!
«Certamente, digo eu, essa é toda a sciencia
         «Que elle trouxe da convivéncia
      «De algum mestre infeliz e acabrunhado
      «Que o implacavel destino ha castigado
      «Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
         «Que dos seus cantos usuaes
«Só lhe ficou, na amarga e ultima cantiga,
         «Esse estribilho: «Nunca mais.»

         Segunda vez, nesse momento,
         Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
         E mergulhando no velludo
      Da poltrona que eu mesmo alli trouxera
      Achar procuro a lugubre chimera,
      A alma, o sentido, o pavido segredo
         Daquellas syllabas fataes,
Entender o que quiz dizer a ave do medo
         Grasnando a phrase: — Nunca mais.

         Assim posto, devaneando,
         Meditando, conjecturando,
Não lhe fallava mais; mas, se lhe não fallava,
         Sentia o olhar que me abrazava.
      Conjecturando fui, tranquillo, a gosto,
      Com a cabeça no macio encosto

      Onde os raios da lampada cahiam
         Onde as tranças angelicaes
De outra cabeça outr’ora alli se desparziam,
         E agora não se esparzem mais.

         Suppuz então que o ar, mais denso,
         Todo se enchia de um incenso,
Obra de seraphins que, pelo chão roçando
         Do quarto, estavam meneando
      Um ligeiro thuribulo invisivel;
      E eu exclamei então: «Um Deus sensivel
      «Manda repouso á dor que te devora
         «D’estas saudades immortaes.
«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta Lenora.»
         E o corvo disse: «Nunca mais.»

         «Propheta, ou o que quer que sejas!
         «Ave ou demonio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
         «Onde reside o mal eterno,
      «Ou simplesmente naufrago escapado
      «Venhas do temporal que te ha lançado
      «N’esta casa onde o Horror, o Horror profundo
         «Tem os seus lares triumphaes,
«Dize-me: existe acaso um balsamo no mundo?»
         E o corvo disse: «Nunca mais.»

         «Propheta, ou o que quer que sejas!
         «Ave ou demonio que negrejas!
«Propheta sempre, escuta, attende, escuta, attende!
         «Por esse céu que alem se estende,

      «Pelo Deus que ambos adoramos, falla,
      «Dize a esta alma se é dado inda escutal-a
      «No Eden celeste a virgem que ella chora
         «Nestes retiros sepulchraes,
«Essa que ora nos ceus anjos chamam Lenora!»
         E o corvo disse: «Nunca mais.»

         «Ave ou demonio que negrejas!
         «Propheta, ou o que quer que sejas!
«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
         «Regressa ao temporal, regressa
      «Á tua noite, deixa-me commigo.
      «Vae-te, não fique no meu casto abrigo
      «Pluma que lembre essa mentira tua.
         «Tira-me ao peito essas fataes
«Garras que abrindo vão a minha dor já crua.»
         E o corvo disse: «Nunca mais.»

         E o corvo ahi fica; eil-o trepado
         No branco marmore lavrado
Da antiga Pallas; eil-o immutavel, ferrenho.
         Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
      Um demonio sonhando. A luz cahida
      Do lampeão sobre a ave aborrecida
      No chão espraia a triste sombra; e fóra
         D’aquellas linhas funeraes
Que fluctuam no chão, a minha alma que chora
         Não sai mais, nunca, nunca mais!

DE EDGAR ALLAN POE

(Tradução de Fernando Pessoa)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de sciencias ancestraes,
E já quasi adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguem que batia levemente a meus humbraes.
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus humbraes.
E’ só isto, e nada mais.»

Ah, que bem d’isso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras deseguaes.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiaes —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiaes,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia extranhos terrores nunca antes taes!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«E’ uma visita pedindo entrada aqui em meus humbraes;
Uma visita tardia pede entrada em meus humbraes.
E’ só isto, e nada mais.»

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor» eu disse, «ou senhora, decerto me desculpaes;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus humbraes,
Que mal ouvi… » E abri largos, franqueando-os, meus humbraes.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido, receando,
Dubio e taes sonhos sonhando que os ninguem sonhou eguaes.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldicta,
E a unica palavra dicta foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome d’ella, e o echo disse os meus ais.
Isto só e nada mais.


Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Porcerto», disse eu, «aquella bulha é na minha janella.
Vamos vêr o que está nella, e o que são estes signaes.
Meu coração se distraia pesquizando estes signaes.
E’ o vento, e nada mais».

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestraes.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solemne e lento pousou sobre meus humbraes,
Num alvo busto de Athena que ha por sobre meus humbraes.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave extranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solemne decoro de seus ares rituaes.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernaes!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernaes.»
Disse o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro passaro fallar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras taes.
Mas deve ser concedido que ninguem terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus humbraes,
Ave ou bicho sobre o busto que ha por sobre seus humbraes,
Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa phrase, qual se nella a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigos, sonhos — mortaes
Todos — todos já se foram. Amanhã tambem te vaes.»
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma subito movida por phrase tão bem cabida,
«Porcerto», disse eu, «são estas suas vozes usuaes.
Apprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesprança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte d’ella, do alvo busto e meus humbraes;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ría esta ave agoureira dos maus tempos ancestraes,

Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestraes,
Com aquelle «Nunca mais».

Commigo isto discorrendo, mas nem syllaba dizendo
A’ ave que na minha alma cravava os olhos fataes,
Isto e mais ia scismando, a cabeça reclinando
No velludo onde a luz punha vagas sombras deseguaes,
Naquelle veludo onde ella, entre as sombras deseguaes,
Reclinar-se-ha nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio de um incenso
Que anjos déssem, cujos leves passos soam musicaes.
«Maldito!» a mím disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Propheta», disse eu, «propheta — ou demonio ou ave preta — !,
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus humbraes,
A este lucto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ancia e medo, dize a esta alma a quem attrahes
Se ha um balsamo longinquo para esta alma a quem attrahes!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Propheta», disse eu, «propheta — ou demonio ou ave preta – !,
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortaes,
Dize a esta alma entristecida se no Eden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiaes,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiaes!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!» eu disse. «Parte!
Torna á noite a á tempestade! Torna ás trevas infernaes!
Não deixes penna que atteste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus humbraes!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus humbraes!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Athena que ha por sobre meus humbraes.
Seu olhar tem a medonha dôr de um demonio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh’ alma d’essa sombra, que no chão ha mais e mais,
Libertar-se-ha .. nunca mais!

edgar allan poeliteraturao corvopoesia
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Amanda Leonardi

Amanda Leonardi é doutoranda em Letras pela UFRGS, onde também trabalha como assistente administrativa. Escritora de ficção e aficcionada por terror, mantém a página @esqueletras no Instagram, onde posta microcontos, resenhas, curiosidades e novidades sobre o mundo da literatura e do horror.

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