“Às vezes, é preciso ter um novo relacionamento com a mesma pessoa”. Essa é uma atitude válida tanto no complexo universo dos relacionamentos amorosos quanto nas adaptações do cinema, visto que a tese é citada e aplicada por O Convite (2026), nova comédia da A24, que faz um remake frame a frame do filme original espanhol Sentimental (2020).
Dirigido e estrelado por Olivia Wilde, O Convite é uma versão mais carismática do que o original. Em um hipotético Barbenheimer desta temporada, seria sem dúvida o Barbie da vez, o contraponto mais leve e divertido ao monumental de A Odisseia, de Christopher Nolan.
Carisma é o mínimo que se poderia esperar de um elenco que, além da diretora, é formado por Seth Rogen, Penélope Cruz e Edward Norton. Os veteranos garantem a espontaneidade com que o longa aborda a sua principal questão: a performance necessária para manter um relacionamento amoroso, seja um casal mais conservador ou um casal mais progressista.
A performance do desejo, ainda mais do que o próprio desejo, é um componente de máxima importância nesse contexto, e isso não é uma questão exclusiva dos relacionamentos de hoje. Um exemplo se vê no clássico Quem Tem Medo de Virginia Woolf (1966), de Mike Nichols, inspiração de O Convite, no qual um casal mais velho convida um casal mais jovem para um longo e embriagado jantar em que todos executam seus jogos emocionais para parecerem pessoas cheias de desejo, tanto para os convidados quanto para a sua outra metade.
Aqui, a trama do novo filme de Wilde se desenvolve precisamente sobre o conflito entre as relações tradicionais e as desconstruídas.
Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), ambos em seus quarenta e poucos anos, são um casal vivendo as frustrações da meia idade e em meio ao que seria apenas uma crise esperada pelo desgaste do longo relacionamento. No entanto, na noite em que recebem o casal do andar de cima para o jantar, descobrem que o peso das decepções consigo e com o casamento pode ser maior do que o afeto que mantém a união. Diferentemente deles, o casal de convidados, Pina (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), está no início do namoro e vive uma relação não-monogâmica. Praticantes do sexo em grupo, as suas noites mais tórridas são, inclusive, ouvidas pelo casal do andar de baixo.
A oposição entre os casais tão diferentes se torna eletrizante quando Pina e Hawk convidam Joe e Angela a participarem das suas orgias. Há um mix de emoções que Wilde soube extrair muito bem de cada ator. O casal em crise fica entre a inveja, a admiração e o julgamento em relação ao casal não-monogâmico. Estes, por sua vez, apesar de serem duas pessoas autoconfiantes, desejantes e desejáveis, deixam evidente um certo pisar em ovos, de alguém que no fundo não está tão certo sobre o que está fazendo.
Essa tensão crescente é eficientemente emoldurada pela fotografia. Os ângulos caóticos, muitas vezes filmando os personagens de baixo para cima, dão a impressão de que o apartamento encolhe ao redor deles, como se as paredes se fechassem sobre quatro adultos presos nas próprias questões existenciais em outra clara referência a Quem Tem Medo de Virginia Woolf.
O filme escala da simples conversa entre recentes conhecidos até os momentos da acanhada excitação nas preliminares do sexo entre os vizinhos. Essa progressão prende o espectador em cada segundo, não só porque se quer muito saber onde esse jantar insólito vai acabar, mas porque essa comédia rende momentos que, apesar do constrangimento, são pertinentes para a pergunta que o filme propõe: como parte de um casal, você está realmente disposto a fazer qualquer coisa para reacender uma velha chama?
O elemento mais interessante de O Convite é o humor com o qual revela o que cada tipo de casal faz questão de extravasar de acordo com a sua visão de mundo. O casal mais antiquado extravasa sua amargura, o apreço extremo pela conservação das coisas, da casa, da decoração e do casamento em razão da filha. Já o casal moderno extravasa os desejos, o seu grande barato parece ir além da simples prática sexual, já que os seus momentos de prazer são estridentes, impossíveis de serem ignorados.
A questão que permanece depois do filme é sobre o que é mais poderoso para um relacionamento: o desejo ou o afeto? Parece que essas são duas faces de uma mesma moeda na qual , quando uma entra em escassez, logo a outra não é mais capaz de se sustentar. O filme faz essa discussão complexa de forma leve, no entanto, em determinada altura, não consegue fugir de ideias antiquadas, como a suposta lógica de que o casal que não transa é o conservador e o que transa demais é extravagante.
De qualquer forma, O Convite deixa bem claro que o desejo dentro de um relacionamento é essencial, mas também é assustador como se vê aqui, já se viu em Quem Tem Medo de Virginia Woolf e até mesmo, em De Olhos Bem Fechados (1999, Stanley Kubrick), do qual você também provavelmente vai lembrar se deixar se envolver bastante por este tema.
Minha nota para O Convite no Letterboxd: 3 ½ estrelas.
The Invite
Direção: Olivia Wilde
Roteiro Original: Cesc Gay
1h47

