Foto no privado, de Simon Chevrier e publicado pela Ercolano, articula com delicadeza temas como luto, precariedade no trabalho e sexo à la carte, construindo uma narrativa que se move entre a investigação biográfica e o romance de formação. Vencedor do Prêmio Goncourt de Primeiro Romance em 2025, é um dos romances de estreia mais celebrados da literatura francesa recente.

A trama apresenta um narrador que atravessa um período de instabilidade. Seus estudos parecem não levar a lugar nenhum, os relacionamentos fracassam sucessivamente e a doença do pai anuncia um luto que começa antes da morte. Em meio à pandemia de covid-19, ele passa a trabalhar como garoto de programa para complementar a renda. Entre encontros marcados por aplicativos, empregos precários e a crescente sensação de desadequação, sua vida se vê reduzida a esperar algo que nunca chega.
Tudo muda quando ele encontra uma fotografia em preto e branco realizada por Peter Hujar em 1981. A imagem retrata um jovem chamado Daniel Schock, figura quase desaparecida dos registros históricos.
Fascinado por esse retrato, o narrador inicia uma investigação obsessiva para descobrir quem foi aquele homem e qual seu paradeiro.
“Depois de encontrar outro corpo, penso menos na separação. Aquele que veio antes é apagado, ao menos por um momento. E quando volto a pensar sobre essas ausências, abro o Grindr de novo e procuro o próximo cara que vai me ferir.”
Foto no privado, p. 35
A partir dessa busca, Simon Chevrier constrói um romance sobre vestígios. Enquanto o protagonista tenta reconstruir a trajetória de Daniel Schock, confronta-se também com o desaparecimento gradual do pai, com a fragilidade dos seus relacionamentos e o fim da sua fé no futuro. Foto no privado aproxima duas épocas marcadas por diferentes experiências de perda: a pandemia de covid-19, vivida pelo narrador, e a sombra da epidemia de aids que atravessa a obra do fotógrafo Peter Hujar e a geração por ele retratada.
Mais do que uma narrativa sobre sexo, aplicativos de encontros ou trabalho sexual, Foto no privado é uma reflexão sobre aquilo que permanece quando as pessoas se vão. Fotografias, arquivos, mensagens, lembranças e fantasias se tornam formas de resistência ao esquecimento. Nesse sentido, a investigação conduzida pelo protagonista se transforma gradualmente numa busca por si mesmo.
Com uma escrita fragmentada e precisa, Simon Chevrier encontra nos pequenos gestos do cotidiano o ponto de partida para inquietações muito maiores. Ao apresentar um personagem que tenta sobreviver à perda e à incerteza, convivendo com o próprio desalento, o autor constrói um romance profundamente contemporâneo, que reafirma sua posição como uma das vozes mais promissoras da literatura francesa.
Sobre o autor
Simon Chevrier nasceu em 1992. Formado em inglês e mestre em criação literária, estreou na literatura com Foto no privado, vencedor do Prêmio Goncourt de Primeiro Romance em 2025.

