São Paulo vive um momento de tensão no campo das artes. Nos últimos dois anos, a prefeitura da capital tem promovido uma série de intervenções que, na avaliação de trabalhadores da cultura, ainda carecem de transparência, mas cujos efeitos já são sentidos sobre o chão das comunidades criativas.
Entre demolições de equipamentos culturais em regiões vulneráveis e uma decisão inédita que indefere projetos já aprovados no Programa Municipal de Fomento ao Teatro, artistas e coletivos apontam um padrão. O mais recente capítulo veio a público no dia 10 de junho de 2026, quando o Diário Oficial do município publicou o indeferimento de 68 projetos inscritos na 46ª edição do programa, mesmo após a divulgação do resultado pela comissão julgadora.
Um dos casos que mais mobilizou a categoria foi a demolição do Teatro Ventoforte, ocorrida em 13 de maio de 2025. O espaço, que funcionava há 40 anos e abrigava a Escola de Capoeira Angola Cruzeiro do Sul, foi reduzido a escombros. No local, cenários, figurinos e um acervo de valor histórico construído por artistas hoje consagrados foram destruídos.

Recentemente, o Teatro de Container da Cia Mungunzá foi destruído. O espaço não se limitava à encenação de espetáculos vanguardistas: abrigava um trabalho social voltado a dependentes químicos da chamada Cracolândia e a pessoas em situação de rua. A atuação do grupo chegou a render indicações a prêmios. A área, porém, foi transformada em Zona de Interesse Social (ZEIS), priorizando, interesses do setor imobiliário e da engenharia civil em detrimento da manutenção da atividade cultural.
O episódio mais recente, contudo, tem natureza “burocrática”, mas nem por isso é menos impactante. Representantes de coletivos teatrais, em entrevista para a coluna da Mônica Bergamo do jornal Folha de São Paulo, afirmam que é a primeira vez na história do programa que projetos avaliados e aprovados por uma banca julgadora têm seus resultados revogados por decisão administrativa da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa.
Entre os autores dos projetos indeferidos estão coletivos como o Grupo XIX de Teatro, a Cia. Mungunzá de Teatro, o Grup Folias, Estopô Balaio, Buraco d’Oráculo, a companhia A Motosserra Perfumada e o Coletivo Comum. No caso da Cia. Mungunzá, parte dos recursos seria destinada à reconstrução do Teatro de Contêiner Mungunzá, recentemente demolido pela própria prefeitura da capital.

Já na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) repudiou o que chamou de “ataque à cultura paulistana” promovido pela gestão Ricardo Nunes (MDB). Giannazi anunciou que o coletivo Educação em 1º Lugar, do qual faz parte, acionará o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Município (TCM) para investigar o caso e exigir o pagamento imediato dos recursos devidos aos grupos prejudicados.
Contudo, ainda não há clareza sobre qual seria, afinal, o projeto da gestão Nunes para a área cultural da cidade. No entanto, há indícios de uma orientação mais ampla, vinculada a setores da direita conservadora, para desestabilizar coletivos teatrais e formas de arte que estimulem o pensamento crítico.
Nesse ponto, tendo a recorrer ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Para ele, o teatro não deveria servir como mero entretenimento ou “museu de emoções”, mas funcionar como uma “caixa de ferramentas social”, capaz de transformar o espectador de observador passivo em agente de questionamento e mudança.
Brecht defendia que a arte não é um espelho para refletir a realidade, mas um martelo para moldá-la. E acredito que esse pensamento deve incomodar profundamente, quem prefere uma sociedade que não pense.
Se é esse o temor que move as recentes decisões da prefeitura, a resposta ainda é uma incógnita. O que os fatos mostram, por hora, é uma sequência de demolições e cancelamentos que, na prática, vão esvaziando a cena cultural independente da cidade, sobretudo nas periferias e territórios de maior vulnerabilidade.

