O poeta é um cronista de sons. A relação dele com o mundo é de tradução, de transliteração, de transubstanciação que, no fim das contas, está em transformar mundo em matéria, massa em memória escrita. No entanto, essa matéria escrita, a palavra, não é apenas uma força, uma estrutura bruta que se recusa a se cristalizar. Nela, estão os ditos e não ditos dos sussurros, os ruídos, os barulhos, os efeitos e contra feitos, as tentativas, os jogos, os exercícios, os sons do mundo, o mundo calando os nossos sons, o mundo quando diz os nossos sons por nós. E muito mais.

O poeta, é enfim, esse cronista demiurgo. Essa figura que caminha no mundo a ouvir e produzir sons. E depois, a tentar traduzi-los. É nesta trilha que podemos pensar a obra poética Borborigmos, do poeta e advogado Diogo Amorim, publicada pela editora Minimalismos. E optei por começar este texto chamando atenção para estas duas imagens: a do poeta cronista dos sons, porque o próprio Diogo destaca esta tarefa de cronista em seu poema Submarino:
“no silêncio que come a coragem o
anonimato se faz derradeiro um
guerreiro sutil escusado por ser
antes de tudo um cronista”
Além disso, os sons são parte realmente estruturantes dos poemas de Diogo, não só pelo título do livro, uma vez que o título traz um significado intrigante que pouca gente conhece: Borborigmo significa o termo médico e científico para o famoso “ronco” ou barulho na barriga. Esse som acontece principalmente devido ao movimento natural de gases e líquidos pelo estômago e intestinos durante o processo de digestão, mas não só: na poesia de Diogo o termo ganha um sentido expandido, metafórico, quase alegórico.
Acontece que o terreno de sua poesia, ou melhor a materialidade dos afetos em que elas são narradas, está ali imprensado na noite carioca, particularmente no bairro de Copacabana entre o mar e a boêmia, entre os corpos masculinos de um erotismo que não é propriamente direito, mas sugerido no começo e vai se acumulando conforme vamos lendo. Uma espécie de desejo em devir que vai modulando uma espécie de cenário, de microcosmos sonoro quase alucinatório em que a noite se expressa pelo desejo no corpo, mas deixando como rastro sempre um som de fundo, um mar, um peixe, a se desvendar. Será uma nostalgia?
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O primeiro poema do livro “o aquário”, por exemplo, poderia sugerir uma quase “pureza” ou “inocência” de um poema infantil, um jogo de peixes e de cores:
“o peixe
roxo
saiu
de dentro
do peixe
preto
e o peixe
branco do peixe
azul (…)
mas entre o peixe
rosa e o peixe amarelo
o azul é o mais vermelho
dentre os peixes verdes.”
Entretanto, em uma leitura mais atenta, está ali rasgada a família, uma limpidez absoluta da tradição das cores. Está diante de nós justamente um desfazimento da lógica tradicional de uma composição familiar. É quase como se os peixes ensinassem na diversidade e em suas metamorfoses impossíveis, que é possível ser muito mais do que o previsto pelas normas. É possível, antes de tudo, DESEJAR mais. É o que não apenas sugere, mas propõe o final ao nos dizer que “o azul é o mais vermelho dentre os peixes verdes”. Ora, cor, gênero e existência são questões de imaginação, nos diz Diogo Amorim.
No poema que dá título ao livro, “boborigmos”, temos, talvez, um dos primeiros momentos em que o anúncio do jogo erótico ganha forma através de um gesto mais substanciado. Veja, Diogo Amorim articula uma geografia entre os poemas de tal maneira que somos conduzidos a cada um dos temas a peri passo, sem pressa. Fica evidente uma pesquisa entre imagens, jogos e palavras para que a relação entre gesto e poética se articule:
“caminha o corpo sucinto
faminto da lua
no ouro erodido
seu sonho implode dentro
da boca, morada de uns
despido
com o que da infância
permanece no adulto
e atrapalha os mercados (…)”
Diogo monta o cenário desde corpo: faminto da lua, um sonho que implode dentro da boca…ou seja, um erotismo, um desejo latente que seja O mundo, para em seguida, a realização erótica se cumprir através, veja bem, através dos sons:
“borborigmos desocultam
o feitiço do ferro
movido à inteligência
de ferir seres menores
o vão entre pele e segredo
conhece a cidade que lhes ultrapassa
asperge-se em verdes
o pó dos sobrados, assuntos
feitos de língua portuguesa
e de esquecimento”
A potência da poesia para Diogo Amorim está no fato de que é ela quem desoculta não apenas seus fantasmas, suas angústias, seus medos, mas também seus desejos, seu erotismo, seu homoerotismo, principalmente, e com isso uma certa oscilação entre o desejo que outrora foi cambiante e precisa explodir entre esses corpos que se atravessam numa poesia que lembra, em alguns momentos, a fase da poesia quase xamânica de Roberto Piva, como no trecho de “alternâncias do breu”:
“piratas e índios podendo beber
da profanação pederasta
sem nada para ressarcir
ao altar das múmias
exaustas
um certo arranjo de letras
e números
no papel representa
registra,
desvela
implica”
Outras influências impossíveis de não serem registradas é a espécie de paródia de poema de “Poema Sujo” de Ferreira Gullar, em “poema ruim”, em que Diogo investe numa pesquisa de um poema longo, de um vocabulário mais extenso, de palavras investidas em seus substantivos mais pesados, assim como na brincadeira com Caetano Veloso no poema “Björk não me conhece”, em que ele se inspira no começo da canção “Diferentemente” e brinca ao dizer “acho que ouvi numa canção de Björk”, ao invés de Madonna, como faz Caetano.

À parte isso, o livro trás poemas dedicados às coisas sérias do espírito como ao diabo ou ao gurufim, uma tradicional cerimônia fúnebre festiva de origem afro-brasileira, realizada muito por quem frequenta as rodas de samba no Rio de Janeiro, mas também às coisas contemporâneas como ao Tinder e ao Grindr, aplicativos de namoro misto e gay e, inclusive, a um desejo de fazer “um poema maldito / “não instagramável”. Afinal, quem escapa do Instagram hoje em dia?
Por fim, temos este poeta que, como disse anteriormente, é um cronista urbano destes desejos. Retomo, pois no mesmo poema em que Diogo se diz cronista, ele mapeia, a meu ver, a angústia de se perder numa cidade grande que parecia ser sempre tão grande e tão maior que nós, como o Rio de Janeiro:
“a bebida embebia as palavras e era a hora
de se destruir em iguais fragmentos de vidro na chuva
a cidade aumentou e a vontade aumentou, a cidade
aumentou
a cidade, os nomes
a razão prescreve doses artistas de
abertura ao delírio
porque as mãos da sina dos homens
estão sempre lavadas
no mar”
Diogo Amorim articula a cidade contemporânea caótica através de seus sons. Talvez por isso ele se esprema entre a orla e o caos porque ali ele organiza espirais de imagens, toca-as, desenha-as, erotiza-as e as deixa gemer, sejam elas praias, homens, bares, luzes, músicas, gestos ou palavras. A poesia é o resultado de tudo isso. É curioso que não seja um grito, mas um acolhimento de sons, uma forma de aprendizado com o mar de como acolher dentro de si todos esses sons e fazê-los caber em seu universo. E fazê-los ecoar em forma de poesia.

